Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 12 de novembro de 2014

Da ingenuidade da fé à utopia como escape. Em uma sociedade que sofria repressão política e cultural, o padre Nando vê sua trajetória mudar após conhecer um ritual indígena, feito no Xingu, em celebração aos mortos (pense naquela cena de Fitzcarraldo, de Werner Herzog, após a morte de um índio). Nando percebe que o sonho de levar uma missão jesuítica ao parque indígena haveria de desabar; a luta deveria ser estabelecida contra o sistema vigente, que estava para se apunhalar graças à recém-instaurada Ditadura Militar.

A breve sinopse de Quarup, obra-prima do jornalista Antônio Callado, não deixa de ser assustadora diante do que se tornou a Ditadura de fato. O livro foi publicado em 1967, antes do AI-5, das ossadas do Araguaia e dos verdadeiros anos de chumbo que caracterizaram um dos períodos políticos mais obscuros do Brasil.

O ritual indígena é tido como ponto nevrálgico do romance. Foi ali que Nando percebeu que era um alienado – algo que ele continuaria a ser, só que com um propósito bem mais justo: lutar por uma sociedade melhor, sem medo de vestir a camisa da militância comunista.

Resumindo bem, Quarup é uma obra centralizada no credo. Este credo pode ser incômodo, até mesmo ingênuo. Mas é este credo que faz com que Nando tenha vontade de viver.

Portanto, ao se deparar com o título do novo álbum do Lupe de Lupe, é importante termos a noção do que significa acreditar. “Nós da Lupe de Lupe sempre tentamos ser corajosos e arriscar”, inicia o release. “Dessa vez esgotamos de vez toda a nossa criatividade em 21 músicas feitas no curso de um ano. Mesmo que ele não tenha a visibilidade necessária, mesmo que ele se torne um disco esquecido, mesmo que ninguém ouça, mesmo que ele não cause – nós fizemos”.

Tá aí, feito, e em resumo é um baita disco. Um disco que, acima de tudo, valoriza a acepção do que é Quarup.

Em 21 faixas, a obra é dividida: metade das composições tem conotação positiva; a outra metade, negativa.

Do lado positivo, a banda celebra o momento político atual em “O Futuro é Feminino” (‘E a presidente é uma mulher/E o coração é brasileiro’). O disco torna-se ainda mais geográfico, vide a trinca “RJ (Moreninha)”, sobre um amor que vem da infância; “Gaúcha”, nostalgia de um momento de paixão; e “SP (Pais Solteiros)”, que cita o clássico “Sampa”, de Caetano Veloso, e manda um alô aos parceiros da megalópole num punk pra lá de alegre.

“Ao Meu Verdadeiro Amor” é onde a banda mineira melhor exibe sua sinceridade: as guitarras são barulhentas como o shoegaze, como se tivesse se manifestando diante de um discurso tímido. Fala das tretas do dia a dia, do cansaço de ser mais um produto do perrengue que é ser sobrevivente na cena musical independente: ‘Um café pra me aquecer/Mais um dia pra adormecer/Mas compensou’.

Com maior ressentimento, em “Ágape”, os perrengues são mais evidentes. Por mais que a trajetória profissional da banda pareça ser a espiral, Quarup nada mais é que sintoma dessa verdade intrínseca ao Lupe de Lupe.

Essa verdade, claro, tem seus lados negativos. Entra, então, mais um termo indígena: “Jurupari”, relacionado ao coisa-ruim, um espírito mau ou, de acordo com o Padre Constant Tastevin, uma ‘máscara’. A faixa é a transição do mal para o bem, portanto, nada mais oportuno que chamar Cadu Tenório para explorar a saturação sônica em seus quase 10 minutos.

O que se sucede daí é uma jorrada de letras raivosas: as guitarras fritadas comem solto em “Minha Cidade em Ruínas”, no melhor estilo Sonic Youth. “Eu Já Venci” é o mais próximo que o Lupe de Lupe chegaria a um hino. Num mundo justo, escutaremos essa música no talo ao lado de milhares de pelegos e pelegas (de preferência num bate-cabeça): ‘Melhor seria tudo acabar/E começar do zero/E fazer tudo do jeito certo’.

O segundo lado de Quarup é marcadamente mais ousado. Sem perder a tosquice das produções caseiras, a banda faz com que a vontade impere sobre técnicas ou possíveis limitações. O máximo que acontece é a banda chegar a um resultado estranho, como em “Você é Fraco”, onde a banda arrebenta num rock tal qual In Flames sobre uma base de drum’n bass.

Tudo bem que a faixa de encerramento, “Carnaval”, seja demasiada longa e rebarbativa (penosos 14 minutos!), mas as direções mostradas em Quarup, suficientemente sinceras e potentes, são prova de que o rock nacional precisa morrer, para nascer de novo. Essa não é a mensagem final, tampouco a cartilha; é um exercício. Exercício duradouro, trabalhoso, fastigante… Mas com resultado eficaz.

Atenção: a banda atualmente está em turnê até o dia 21/12. Eis os locais:

19/12: Blumenau
20/12: São Paulo (info via Facebook)
21/12: Sorocaba

Mais detalhes de shows, visite a fan page do Lupe de Lupe.