Gravadora: Diginois
Data de Lançamento: 11 de agosto de 2014
Caso fosse analisado por alguma publicação estrangeira, Sobre Noites e Dias inevitavelmente seria associado à world music (“rótulo péssimo em si”). Ainda que soe genérico, algo um tanto injusto para descrever a complexa forma com que Lucas Santtana compõe, o sexto álbum do baiano estabeleceu um diálogo com a música internacional no mesmo patamar que Sem Nostalgia (2009).
No entanto, uma diferença deve ser posta: Sem Nostalgia inseria as descobertas da música brasileira num eixo global, por vias tecnológicas, assim como se espera de um disco pós-anos 2000 sem apoio de gravadoras.
Sobre Noites e Dias é alinhado com um método que se tornou próprio de Lucas após o bem-sucedido O Deus Que Devasta Mas Também Cura (2012).
Ainda que a estética de seu trabalho seja tão importante quanto todo o processo de composição, elas saem do primeiro plano (notável em Sem Nostalgia) e dão maior evidência às letras, sejam elas sobre ‘máquinas complexas’, como canta (em inglês) em “Let the Night Get High”, ou das ‘luzes sem futuro’ que ‘se perdem no breu’ na introspectiva “Alguém Assopra Ela”.
De tudo que se pode supor sobre o sexto álbum de Lucas, sobressai a solidez de uma obra anticíclica. Sobre Noites e Dias é, ao mesmo tempo, refrescante como Parada de Lucas (2003) e de letras intensas como 3 Sessions in a Greenhouse (2006). Revela um compositor tão arguto como aquele que percebemos em O Deus Que Devasta…, com o senso estético de renovação proposto em Sem Nostalgia.
Uma das características mais notáveis do baiano é a imediata assimilação de elementos musicais que parecem externos ao seu modo de compor.
“Funk dos Bromânticos” traz o batidão do funk carioca numa composição que fala diretamente de liberação sexual, tema ainda tão polêmico tanto na sociedade, como nas artes. ‘Para eles o amor é livre/Ela não é gay/Ele não é viado/E não são mais/Classificados’.
O EWI de Thiago França em “Let the Night Get High” supõe uma junção de free-jazz num baião experimental, enquanto o afro-beat se une ao frevo em “Mariazinha Morena Clara”, uma das mais animadas do disco.
Em questão de sincretismo musical, Sobre Dias e Noites surge melhor resolvido que o disco anterior. Isso porque O Deus Que Devasta… carregava uma densidade emocional, enquanto o novo álbum traz a energia de ter sido escrito em turnê (na Europa, enquanto Lucas tocava no formato de trio ao lado de Bruno Buarque e Caetano Malta).
Formatos à parte, gêneros à parte e semelhanças com os trabalhos anteriores à parte, Sobre Noites e Dias só faz elevar a posição de Lucas Santtana como um dos melhores compositores de nossa geração. Isso é latente na simples “Partículas de Amor”, como na misteriosa descrição de “Blind Date”: ‘Dois cubos de gelo em um copo/Tocam e se afastam/Num acasalar, acasalar de dança’ (tradução da música, que é cantada em inglês).
Dizer que Lucas atingiu maturidade num processo controlado desde o começo nada acrescenta sobre o que realmente precisamos saber dele. Desde Eletro Bem Dodô (2000) as rédeas são controladas pelo baiano. Que a aceitação seja de cunho internacional, com shows sold-out, é só a prova de que barreiras transnacionais, estéticas, barreiras de linguagem e de identidade são muros invisíveis para este admirável compositor.
