Gravadora: Joia Moderna
Data de Lançamento: 15 de setembro de 2014
A única representante musical da terceira geração da abençoada família Caymmi tinha todos os motivos para ser abarcada pela musicalidade de parentes virtuosos, como a flauta do pai Danilo Caymmi ou o violão de Dori Caymmi. Mas ela não quis assim.
O disco de estreia, Alice Caymmi (2012), estreou em grande gravadora subvertendo a lógica dinástica que se esperaria. Mais agressivo e mais moderno, o álbum foi preciso ao mostrar que a cantora e compositora não queria se aproximar de nada. De nenhuma cena, que não a sua antenada percepção do que significa ser pop hoje em dia. Muito menos do inspirador trabalho da tia, Nana Caymmi.
O segundo álbum de Alice Caymmi é tão pop quanto o Recanto (2011), de Gal Costa. Seria concordata com o que Caetano Veloso, que produziu Gal, entende de música brasileira no século XXI? Se chegarmos a um sim, então é possível arguir que Alice não escondeu sua obsessão pelo baiano, já que dedicou 1/3 de Rainha dos Raios para interpretar três distintas fases de Caê:
• A fase viril de Cê (2006), transposta nos ‘orgasmos múltiplos’ de “Homem”. Nela, Alice canta sobre colagens eletrônicas de Strausz, que deveria ter nome estampado na capa, tamanha é sua importância na produção. Alice atravessa a barreira de gênero num tiro ousado mesmo para ela, que prefere experimentar ao lapidar o tradicional.
• “Iansã”, de onde veio o nome do título, integrou o repertório de Maria Bethânia e foi composta por Caetano ao lado de Gilberto Gil. A releitura de Alice Caymmi joga a produção eletrônica em clima tempestivo. O retrô aspira estranheza, mas fortifica a letra. Um trunfo para o ao vivo.
• De Estrangeiro (1989), em que Caetano tocou com Arto Lindsay e Peter Sheerer, Alice trouxe “Jasper”, faixa que encerra o disco. O eletrônico quebradiço é herança do dubstep, mas nem isso torna a investida interessante. Alice deixa-se perder em colagens estratosféricas, que significam o auge e a ruína da faixa. Auge, pela força das batidas. Ruína, pela falta de simbiose entre melodia da canção, volume de voz e andamento rítmico.
Boa parte do repertório de Rainha dos Raios advém de músicos considerados tradicionais: ela inclui Maysa (na impactante versão de “Meu Mundo Caiu”) e Manuel Alejandro relido por Paulo Coelho (“Sou Rebelde”), e isso apenas reforça a característica transgressora de seu trabalho. Portanto, é mais previsível vê-la cantando MC Marcinho (“Princesa”) e Domênico Lancellotti (“Como Vês”, escrita em parceria com Bruno Di Lulo), do que sugerindo novas frentes para Caetano e Maysa.
De tão subversivo que Rainha dos Raios é, percebemos uma Alice mais afeiçoada ao formato tradicional de canção nas faixas em que não interpreta medalhões nacionais. “Meu Recado”, de sua autoria, tem slaps funkeados de baixo, mas resguarda influência das músicas mais taciturnas de Odair José – a culpa é de Michael Sullivan, grande hitmaker que trabalhou ao lado de Cassiano e compôs “Me Dê Motivo”, clássico impagável na voz de seu ‘professor’ Tim Maia.
A outra composição de Alice, “Antes de Tudo”, parece uma ária de ópera. Chama atenção mais por seu thriller; a letra, todavia, é fraca, carece de poeticidade, herança ainda não explícita do avô Dorival.
Contrariando os rumos que um membro Caymmi seguiria, Alice Caymmi tem na subversão, a despeito de qualquer técnica, seu maior trunfo musical. O escopo que ela oferece em Rainha dos Raios foge dos enfadonhos exemplos de intérpretes que jorram como água de chuva ácida na música brasileira. Alice é visceral e indômita, mas tem um longo caminho a percorrer. A direção, ao menos, já foi encontrada.
