Tinha que começar com “Sympathy for the Devil”: usualmente descrita como ‘prece satânica’, a sinistra abertura de Beggars Banquet foi retrabalhada num clima mais roqueiro (que a original batida candomblé) apimentado pelas guitarras de Keith Richards e Mick Taylor, que entrara na banda havia pouco tempo.
As cerca de 300.000 pessoas presentes em Altamont Speedway também queriam conferir a apresentação mais esperada naquele sábado, 6 de dezembro de 1969.
Mas, para fomentar as conspirações, a canção logo mostraria suas entranhas: foi a partir dela que houve a intensificação do tumulto que marcaria a tragédia de um festival que já dava ares de desorganização desde os tempos de anúncio, com sucessivas trocas de locais de shows – o que dá a entender que Altamont foi improviso de última hora, como é possível ver nas negociações que aparecem no documentário Gimme Shelter (1970), dirigido por Albert e David Maysles e Charlotte Zwerin.
“Quando escureceu e entramos no palco, a atmosfera ficou lúgubre e sombria”, relembra Keith Richards
O mais grave dos problemas era a questão da segurança, que ficou a cargo da gangue de motoqueiros Hells Angels.
O clima ‘pesado’ de insegurança naquele que era anunciado como o ‘Woodstock do Oeste’ (segundo os próprios organizadores, que estiveram envolvidos no lendário festival de agosto de 69) já ficara evidente logo no começo. A tolerância em relação aos fãs era próxima de zero. E a truculência era ainda maior caso algum desavisado tocasse em alguma das motos dos caras: porrada pra todo lado.
Durante a apresentação de “Sympathy For the Devil”, os Rolling Stones tiveram que parar por um tempo e pedir calma. Mick Jagger tenta aliviar a barra, dizendo que tanto o público como os Hells Angels tinham que ‘ficar em paz um com o outro’. Ok, conflito supostamente resolvido, entram os acordes de “Street Fighting Man”. As brigas ainda acontecem: chutes pra lá, gente doida de outro lado querendo invadir o palco a qualquer momento.
Os Stones tentam de novo. Dessa vez, com “Under My Thumb”. Aí já não tem mais jeito: um membro dos Hells Angels perde a paciência e saca violentamente um canivete que atinge a nuca de um rapaz negro de apenas 18 anos, Meredith Hunter, que balançava um revólver. As imagens do documentário Gimme Shelter mostram claramente o momento do assassinato e o pavor que tomou conta do festival após o ato violento.
Com o tumulto, mais três pessoas morreram acidentalmente, e muitas outras ficaram feridas.
Depois do conflito, a culpa caiu toda pra cima dos Rolling Stones, que estavam organizando o festival. O documentário mostra que as negociações foram realmente feitas às pressas, já que os Stones estavam em temporada nos Estados Unidos depois de uma longa turnê e gravação (meio que secreta por conta de problemas de visto) do álbum Sticky Fingers no histórico estúdio da Muscle Shoals, em Memphis. De acordo com Keith Richards, pairava um cansaço na banda com toda essa correria.
Os tumultos já haviam começado cedo em Altamont. O clima de desorganização é evidente quando vemos os Stones passando por uma multidão no local do show, o que não é muito comum em festivais – geralmente, os músicos entram pelo backstage.
Na Califórnia, ainda pairava aquele clima de ‘flower power’, paz, sossego e ácido – assim como pregava Woodstock alguns meses antes. Gimme Shelter mostra o público confraternizando entre si, chapando de ácido e viajando em outros alucinógenos mais. O lineup era destinado exatamente a este tipo de público naquela época: Jefferson Airplane, Santana, Crosby Stills Nash & Young, Grateful Dead… E, claro, os Rolling Stones.
Os primeiros conflitos começaram logo no show do Jefferson Airplane. Enquanto Grace Slick cantava, membros dos Hells Angels expulsavam a socos e pontapés o público que se aproximava demais dos palcos. Ela chegou a pedir para que eles maneirassem na dose. Um dos guitarristas interveio e acusou a trupe de ser violenta demais. Diante disso, o líder da gangue, Sonny Barger, tomou o microfone e ameaçou o músico, alertando-o para não ‘mexer com meus caras’. Tenso.
De tão acinzentado que foi ficando o evento, o Grateful Dead, que ia tocar exatamente antes dos Stones, decidiu cancelar o show. De acordo com Philip Norman, biógrafo de Mick Jagger (cujo livro sai amanhã em versão traduzida), foram os membros e empresários do Grateful Dead que trouxeram os Hells Angels para fazer a segurança, uma vez que a polícia local não era numerosa o suficiente para garantir segurança ao imenso público.
“Quando escureceu e entramos no palco, a atmosfera ficou lúgubre e sombria”, relembra Keith Richards em sua autobiografia Vida. “O que poderíamos ter feito? (…) Qual é a vantagem de arrastar sua bunda o caminho inteiro e não ver nada? Mas naquela altura, algumas coisas já estavam em movimento”.
E aconteceu o que aconteceu. Os Hells Angels, clara antítese do que pregava o festival em Altamont, não tinham treinamento, paciência ou sequer experiência para lidar com tudo aquilo. É possível ver a fúria de um deles (o que está à esquerda de Mick na foto) no próprio palco dos Stones: um membro espuma de raiva vendo aquela multidão ensandecida por um som que parecia não agradá-los de forma alguma.
Equívoco, predestinação ou pura desordem, a partir de então estava decretado: o sonho americano acabou. O ‘verão do amor’ ficou em agosto. Winter is coming…
