Anganga, o disco colaborativo de Juçara Marçal e Cadu Tenório, explora a congada mineira e os cantos vissungos sob uma perspectiva diferente. Em vez da instrumentação percussiva, barulhos, sons de tapes, instrumentos metálicos e saturação sonora dão um novo corpo a uma herança musical africana.

Por outro lado, menos ousado, mas, ainda assim, criativo por propor uma espécie de ‘atualização’ das congadas e vissungos, o grupo Ilumiara recriou temas destes cantadores em seu primeiro álbum, homônimo, englobando outros “cantos de lavadeiras, quebradeiras de coco, destaladeiras de fumo, fiandeiras, machadeiros, tropeiros, pregoeiros, dos trabalhadores das antigas, usinas de açúcar, de carregadores de pedras, de remeiros, de vaqueiros, lavadeiras, pescadores, da fabricação de farinha e doces, dentre tantos outros”.

Antes de tudo, deve-se separar o que é congada e o que é vissungo. A congada compreende uma manifestação festiva dos negros descendentes da África e os miscigenados brasileiros. De acordo com alguns teóricos, é claro exemplo de sincretismo religioso, pois tanto elementos do catolicismo, como de religiões africanas, de certa forma se dialogam e se convergem.

O vissungo é canto de trabalho, o canto que escravizados entoavam enquanto eram obrigados a trabalhar forçadamente nos garimpos.

A semelhança entre essas duas expressões musicais é que elas tiveram como espectro, majoritariamente, o estado de Minas Gerais.

Ao longo dos anos, a música popular brasileira bebeu dessa fonte, talvez até mesmo sem saber. O objetivo deste Groovin’ Cast foi reunir algumas destas reinterpretações, com objetivo de fazer com que o ouvinte perceba a riqueza de elementos e a complexidade musical dessa nossa herança cultural, que desperta cada vez mais interesse.

Ouça no player abaixo e, em seguida, confira os detalhes das faixas:

Groovin’ Cast: Vissungos e Congadas by Na Mira Do Groove on Mixcloud

Juçara Marçal & Cadu Tenório: “Canto III”
Revelada pelo pesquisador e filólogo Aires da Mata Machado Filho, esta canção já havia sido interpretada por Clementina de Jesus, Doca e Geraldo Filme no antológico O Canto dos Escravos (1982). Ela tem um teor meio marxista: ‘Ucumbi oenda, ondoró onjó/Ô vou oendá pu curima auê‘, em banto, significa: ‘O sol vai, vamos para casa/Eu vou para o trabalho‘.

Mônica Salmaso: “Bate Canela”
Esta integra o primeiro disco dela, Trampolim (1998). Com direção musical de Rodolfo Stroeter e percussões do experiente Naná Vasconcelos, a intérprete deu novo olhar a “personagens do folclore; a religiosidade das procissões e do sincretismo afro-europeu; ritmos e etnias, cantando a “alma lírica” do Brasil numa leitura contemporânea”.

Grupo Vissungo: “Tio Antônio”
Originalmente formado em 1975, este grupo carioca durou até 1996, mas não teve a oportunidade de lançar mais que um disco. A ideia era dar uma roupagem moderna às músicas de escravos, criando uma espécie de ‘memória genética’ musical. O registro desta canção é de 2013.

Sérgio Santos: “Calanga Chico-Rei”
Compositor de mão cheia, Sérgio Santos é parceiro de outro gigante: Paulo César Pinheiro. Ele já escreveu para Lenine, Milton Nascimento, Francis Hime, entre outros, mas quando lançou, em 2002, seu álbum Áfrico: Quando o Brasil Resolveu Cantar, conquistou de vez com sua habilidade de reler estas tradições, como se fôssemos testemunhas de tempos idos.

Clementina de Jesus: “Canto II”
O Canto dos Escravos (1982), de Clementina de Jesus, é um dos mais importantes e impressionantes registros do alcance estético que se pode obter com os vissungos. Este disco, um dos primeiros a reler as partituras descobertas por Machado Filho, foi o ponto de partida para a maioria das interpretações que vieram posteriormente.

Clara Nunes: “Congada”
Clara Nunes era mineira, portanto, a musicalidade dos vissungos e da congada corre na veia. No álbum Clara (1981), já com bastante fama, ela deu um ótimo astral positivo à composição de Romildo Bastos e Toninho Nascimento.

Batacotô: “Congada de São Bento”
Também do Rio de Janeiro, o Batacotô estreou em 1993 e não demorou para tocar com Ivan Lins e Gilberto Gil. Esta canção, de Claudio Jorge e Nei Lopes, faz parte do primeiro álbum, homônimo, do grupo de Téo Lima.

Ilumiara: “Vissungo”
Com bênção do Sesc, o Ilumiara lançou o primeiro disco em agosto deste ano, propondo uma abertura aos muitos cantos tradicionais de origem escrava. Apesar de novo, eles adquiriram larga experiência, realizando mais de 130 shows pelo Brasil antes de chegar ao disco homônimo. Esta é uma canção tradicional das regiões de Serro e Diamantina (Minas Gerais) e tem participação de Sérgio Pererê nos vocais.

Juçara Marçal & Cadu Tenório: “Canto VII”
Pra fechar a playlist, mais uma de Anganga. O estouro noise inicial não demora pra culminar numa musicalidade serena, espiritual, transcendental.