Gravadora: Scubidu
Data de Lançamento: 28 de julho de 2014

Que tempo é algo valioso todos já sabem, especialmente nos dias de hoje. São tantas informações, tantos compromissos, tantos desejos e tantas pessoas pra conversar no WhatsApp ou nos e-mails corporativos, que pedir tempo para alguém é quase uma mendicância. É pedir demais.

Quando Anelis Assumpção pede nosso precioso tempo na faixa inicial de Amigos Imaginários, soa discursivamente vaga. Ela aposta é na sonoridade funkeada formada pela trupe Bruno Buarque (bateria), Cris Scabello (guitarra), Mau (baixo) e Zé Nigro (guitarra/órgão), que soa bem mais atrativa que sua voz suavizada. ‘Eu tô aqui pra jogar conversa dentro’, é o termo usado pela paulista.

O decorrer de Amigos Imaginários dá falsas pistas de qualquer expectativa que se cria. Não há tantos personagens fictícios. Ela não devolve nosso bem valioso. Pouco dessa ‘conversa dentro’ soa tão interessante quanto, insisto, nosso tempo.

Isso não faz de Amigos Imaginários um disco ruim. O pecado da introdução não impede que a cantora se redima na obra.

Em pouco tempo de carreira, Anelis pareceu fincar a proposta de contextualização pessoal num ambiente urbano. Musicalmente, não difere muito de cantoras como Céu ou Tulipa Ruiz – apesar de não ter o prestígio de uma nem a habilidade de outra, também não tenta competir.

O que a cantora melhor expurga em sua obra é o diálogo de gêneros: da marchinha de seu Carnaval pessoal de “Song to Rosa” ao flamejante rock de “Declaração” (com a marcação de guitarra que já tornou característica de Kiko Dinucci e Rodrigo Campos no Passo Torto), Anelis Assumpção usa melhor sua liberdade para trafegar que aprimorar.

Enquanto a necessidade de registrar a personalidade musical era o norte de Sou Suspeita Estou Sujeita Não Sou Santa (2011), o novo álbum é como um passeio pelo que acontece na cena musical paulista. No caldo, vai rap (“Devaneios”, com participação de Russo Passapusso), música caribenha e o potente rock feminino de “Minutinho”, muito parecido com o que Tulipa Ruiz impôs em Tudo Tanto (2012).

Evolução não é bem o que se encontra em Amigos Imaginários. É na continuidade de um trajeto pessoal e abertamente inclusivo que se inclina a aura otimista do álbum. Fala de relacionamentos com segurança de menina em “Mau Juízo”, joga questionamentos ao léo em “Por Quê?” e segura o tesão (que me parece virginal) em “Toc Toc Toc”. São letras inocentes, tranquilas, pra ouvir num piquenique ou pra curtir sem compromisso com a paquera.