
01 Electric To Me Turn02 The Word (Narration)03 Cherubic Hymn04 Program Me05 War06 National Anthem To The Moon07 Chant Of The Unborn08 Incantation09 Angel Child10 Word Game11 Song Of The Death Machine12 Super Nova
13 Requiem
Gravadora: Columbia
Data de Lançamento: maio de 1970
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A gravadora era a Columbia, mas nada em The Electric Lucifer atrairia uma major. O canadense Bruce Haack só conseguiria lançar um trabalho nessa gravadora graças ao empenho do amigo Chris Kachulis em expandir os experimentos sônicos de Haack.
The Electric Lucifer foi o sexto disco de Haack e uma mudança de direção em suas aventuras com sintetizadores. Considerado um dos pioneiros no uso do instrumento, o compositor lançou pelo próprio selo, Dimension 5, sons que induziam o movimento das crianças. Eram experimentos que tinham a premissa de observar o resultado comportamental – vide discos como Dance, Sing and Listen (1963) e The Way Out Record for Children (1968).
Afeiçoado ao piano desde os 12 anos, Haack se interessou pela sonoridade dos sintetizadores ainda nos anos 1950, depois de um estudo rígido com o compositor Vincent Persichetti na Juilliard School, em Nova York. Lá ele conheceu Ted Pandel, testando diferentes formas de compor ao trabalhar com trilhas para números de dança e peças de teatro. Também escreveu peças pop para as gravadoras Dot e Coral Records.
No início dos anos 1960, quando poucos estavam descobrindo as possibilidades do sintetizador, Haack se aprofundou em sua técnica e passou a se apresentar em programas de TV como I Got a Secret e o famoso programa de Johnny Carson (ambos da CBS).
Seu interesse pelos efeitos que se podiam extrair daquele que muitos chamavam de trambolho foi perene. Haack passou a desenvolver seus próprios aparatos, pegando pedais de guitarra, transistores de rádio e fitas velhas em prol de novas operações sonoras.
Quando ele descobriu a potência dos sintetizadores Moog gravados em Switched-On Bach (1968), de Wendy Carlos, um dos poucos discos de música clássica a chegar nas paradas da Billboard, Haack pirou. Pirou, assim como George Martin piraria anos depois, assim como toda a geração de acid-rock naquele momento.
Nesse quesito Kachulis foi peça fundamental. Apresentou a Bruce Haack o acid-rock então em voga, usado para convencer a Columbia. E o som mudou.
The Electric Lucifer não poderia ter outro contexto que não o fim dos anos 1960. Nada de Vietnã, sofrimentos de jovens numa pátria embebida pelo belicismo, muito menos um sonho coletivo e utópico.
Mais radical, a briga aqui é entre céu e inferno.
Ainda que o título do disco assuste, não estamos falando de algo demoníaco. Muito pelo contrário: o álbum tem como epicentro o powerlove, uma força espiritual tão intensa que transcende qualquer indiferença humana. É capaz até de fazer com que Lúcifer tenha o perdão de Deus e volte aos céus.
Os efeitos extremados são apresentados ao ouvinte logo na primeira faixa, “Electric To Me Turn”. O protótipo de vocoder – hoje essencial na eletrônica – transfigura a voz de Haack a ponto de confundirmos com um satã amenizado.
“The Word” vem dum drone híbrido, levando o ouvinte a um reino misterioso, em que as percussões se fundem a batidas que posteriormente se identificariam com o techno.
Paira uma dúvida no ouvinte que se aventura em The Electric Lucifer. Há quem diga que o terreno seria o acid-rock, mas quem melhor colheu os frutos de suas descobertas foi a eletrônica. Além da exploração com os sintetizadores e o uso desenfreado de efeitos, Haack firmou a linha divisória entre o que era considerado rock e o que era considerado eletrônico, sem negar nenhum de seus elementos.
“Program Me”, por exemplo, pode não fazer uso de guitarras, mas sua justaposição sônica facilmente se identifica com a psicodelia. Nela, 13th Floor Elevators e Morton Subotnick andam de mãos dadas.
Se estivesse isolada numa mixtape qualquer, poderia-se dizer que “National Anthem to the Moon” estava conectada a todo o conceito de lisergia das bandas de São Francisco (EUA). Fala de amor com a inocência que se prevê depois de doses obliteradas de LSD. Todavia, faz parte de um conceito místico, onde o dançante ragtime melotron de “Chant of the Unborn” e a aura ritualística de “Cherubic Hymn” coexistem, numa estética que fez da bagunça usualmente ligada à música eletrônica um campo inteiro a ser desvendado.
Adicione, ainda, a inspiração que vem de Dave Brubeck em “Word Game”, a adaptação do universo infantil já testado anteriormente por Haack em “Song of the Death Machine” e a selva digitalizada de “Super Nova”…
The Electric Lucifer parece realmente ter vindo de outro mundo.
