Gravadora: Mello Music
Data de Lançamento: 24 de julho de 2015
* Com o novo acordo das gravadoras em lançar discos pelo mundo às sextas-feiras, mudamos a data de publicação da seção Disco da Semana para segunda ou terça-feira.
Uma das principais características do produtor L’Orange é trazer aos seus samplers a veia bebop do jazz e as fases iniciais da soul-music em suas colagens. Da Carolina do Norte (EUA), ele assimila Bronx, Nova Orleans e rap da Costa Oeste com reconhecida criatividade.
Kool Keith é rapper das antigas. Com o Ultramagnetic MCs, revolucionou a era de ouro do hip hop com Critical Beatdown (1988). Sua carreira solo teve início em 1996 (com Dr. Octagonecologyst) e vem se mostrando cada vez mais prolífica e fora de contexto a cada lançamento. Desde seu primeiro álbum solo, a tag rap-psicodélico adquiriu maior significado.
Em Time? Astonishing!, a dupla explora o “segredo da viagem pelo tempo” a partir de estranhas batidas retrô, que emulam filmes alternativos e bases de space-funk. As rimas de Kool Keith saem das ruas para o espaço.
O produtor explica por que escolheu Keith para a empreitada:
“Ele é mais logicamente apropriado a orbitar por toda a galáxia em uma nave espacial de cromo brilhante, ensinando às estrelas e aos aliens as novas formas de originalidade. Ele é muito estranho para viver, muito raro pra morrer e é exclusivamente ‘ultramagnético’ para ser imitado com precisão”.
A impressão inicial é que Time? Astonishing! destoa do rap atual – mesmo tendo em vista que presenciamos uma cena cada vez mais multifacetada.
Time? Astonishing! é um gonzo-rap interestelar sem paralelos – tanto nas improváveis rimas, quanto na edição e na forma com que as batidas são erigidas
A história é mais ou menos assim: entediado por viver no começo do século XX, um explorador descobre a tecnologia para ir ao futuro. Sua visão incrédula contrasta com o ritmo frenético dos ‘avanços’ que depara. Por conta disso, é diagnosticado como ‘insano’ e embarca para uma viagem de seu subconsciente que, segundo L’Orange, começa “só depois que o disco termina”.
O que o próprio produtor acha disso? “Absurdo”.
Há muita transmissão radiofônica, e isso soa como se estivéssemos na mesma nave que a dupla.
“The Green Ray” tem um clima noir que permeia as trilhas sonoras de botecos vagabundos de filmes lado B. Os pianos em glissando em “The Wanderer” pedem uma dinâmica doo-wop, mas Kool Keith é quem controla o timing da música.
As participações fortalecem o lado colaborativo do disco, apesar de pouco contribuir para a construção de novas dinâmicas. Monocromatismo realmente está longe da proposta de Time? Astonishing!, mas, paradoxalmente, fica difícil para Mr. Lif (“Twenty Fifty Three”) ou Minds One (“I Need Out of This World”) injetarem algum tipo de característica que evidencie suas habilidades.
Entre “agitados planetas vulcânicos, luas de gelo glaciais, novos procedimentos cirúrgicos e rappers novatos para atirar ao éter”, Time? Astonishing! é um gonzo-rap interestelar sem paralelos – tanto nas improváveis rimas, quanto na edição e na forma com que as batidas são erigidas.
Ouça na íntegra no player abaixo:
Outros lançamentos relevantes:
• Titus Andronicus: The Most Lamentable Tragedy (Merge)
• Insane Clown Posse: The Marvelous Missing Link (Found) (Psychopatic Records)
• Benjamin Clementine: At Least For Now (Behind/Virgin/EMI)
• Jill Scott: Woman (Atlantic)
• Fly Golden Eagle: Quartz (ATO)
