20. “Let England Shake”

PJ Harvey

Álbum: Let England Shake
Gênero: Folk/Lo-fi

A faixa-título do trabalho conceitual de PJ fala sobre as parcas possibilidades de soldados da Inglaterra conquistarem o ‘Oeste adormecido’ numa linguagem sarcástica, como se fosse parte da equipe de propaganda de guerra que prevê a tragédia, mas a enfrenta por pressões maiores. ‘Sorria, Bobby, sorria com sua adorável boca/Esqueça seus problemas/Siga em frente/Para a fonte da morte’. Ela e o próprio personagem sabem que, com a guerra, só vem desgraças. Mas é melhor enfrentá-las, não é mesmo? Que outra opção há?

19. “Sistema Lacrimal”

Lirinha

Álbum: Lira
Gênero: Alternativo

Fala se você também não se lembrou dos áureos tempos do Velvet Underground quando os riffs de Neilton (Devotos) entram para formar o pano de fundo underground aos vocais de Lira? Esse sentimento underground vem à tona principalmente quando o vocalista canta: ‘Quando a dor bater/Quando a luz bater’. Pode ter sido uma estrada perigosa essa de Lira de seguir trajetória solo após acabar com o Cordel do Fogo Encantado. Mas os lamentos dessa canção podem ser dispensáveis: Lirinha arrebentou com a boca do balão com seu ótimo debut.

18. “I Gotta Rokk”

DJ Shadow

Álbum: The Less You Know, the Better
Gênero: Breakbeat

Este single foi lançado neste ano antes do disco The Less You Know, the Better chegar às prateleiras, em um EP com apenas seis faixas. Ao invés de seguir com suas experimentações no hip hop, DJ Shadow flertou com o rock e injetou um eletrônico industrial que vai ganhando peso conforme o avançar da música. Entram vozes furiosas no caminho tortuoso, e depois Shadow estaciona em uma jam intensa de jungle e drum’n bass.

17. “Separator”

Radiohead

Álbum: The King of Limbs
Gênero: Experimental

Última faixa do polêmico The King of Limbs, “Separator” tem uma composição densa e soa como um despertar de uma cansativa aventura pelas selvas, como a capa do disco dá a entender. Thom Yorke cita imagens intrigantes, como um coração pulsando numa superfície fria, e fica triste ao descobrir que retornou à realidade concreta onde ‘é apenas um número’. Quando foi lançada, críticos de música ficaram curiosos com a frase ‘isso ainda não acabou’. Com razão: afinal, era o prelúdio de que muito trabalho ainda seria desenvolvido com o The King of Limbs, como o disco de remixes. Mas acho que ainda deve haver mais coisas por aí…

16. “Otis”

Jay-Z & Kanye West (ft. Otis Redding)

Álbum: Watch the Throne
Gênero: Hip Hop

Não sei se o soulman Otis Redding, que faleceu em um acidente de avião em 1967, ficaria feliz com o resultado dessa música: ele era exigente em relação à sua voz e, aqui, ela é secundária diante das rimas dos rappers Jay e We. Mas os gritos extraídos da faixa “Try a Little Tenderness” são magnificentes e o ato de passear pela grandiosidade de Otis é um exercício arruaceiro que ficou muito bem executado. Por ter apenas um pouco mais de dois minutos, fica aquele gostinho de quero mais. Aqui, prevalece a fórmula de Kanye que se assemelha a faixas anteriores, como “Stronger” (em cima de Daft Punk) e “Power” (com sampler de King Crimson).

15. “The Bronx”

Booker T. Jones ft. Lou Reed

Álbum: The Road From Memphis
Gênero: Soul Instrumental

Lou Reed vem estragando com muito torpor as coisas em que mete o dedo nestes últimos dois anos – para tanto, vide Lulu e o show no Rock and Roll Hall of Fame. Mas, nesta parceria com Booker T., sua voz velhaca e sem compasso entra nos eixos do lindo solo blueseiro no órgão. Enquanto você divaga pelo som extraído pelo instrumento, imagens em movimento vão sendo recriadas na sua mente. A voz de Lou parece advinda de um lugar inexistente, como se tivesse dando apoio às nossas divagações. ‘Não hesite, apenas viva’: frase de um mestre que, por mais que erre, quando acerta é pra valer.

14. “Crystalline”

Björk

Álbum: Biophilia
Gênero: Experimental

No início, parece música de criança: batidas lúdicas extraídas de programas computadorizados são o pano de fundo de barulhos que parecem vir do espaço, com interferência da gravidade. Mais ou menos como uma chuva de meteoritos atingindo uma crosta impenetrável de tão sólida. Essa chuva se intensifica e, de tão forte que fica, a faixa introduz um jungle pesadíssimo, com efeitos quebradiços. Como se tal crosta não fosse mais invencível. E aí, os meteoros arrebentam tudo o que surge pela frente em poucos segundos.

13. “A Little Death”

Fucked Up

Álbum: David Comes to Life
Gênero: Punk Rock/Hard Core/Metal

Não me venha com essa de que o punk rock acabou! Ou, se acabou, os caras do Fucked Up estão fazendo elogiosos esforços para que o ritmo se imponha em um cenário defasado de tanta melancolia. “A Little Death” assusta não apenas no nome; a sonoridade é pesada, como se o Foo Fighters intensificasse sua proximidade com o heavy metal de “White Limo” e entrasse de choque com o Slayer. A estrutura da canção tem a ver com o pop, já que muitas velocidades são exploradas, seja pelas guitarras que respingam sangue ou pelas vozes guturais de Damian Abraham, que remonta ao arquétipo de um Eufrazino vestido com uma camiseta do Dead Kennedys.

12. “Swerve the Reeping of All that is Worthwhile (Noir Not Withstanding)”

Shabazz Palaces

Álbum: Black Up
Gênero: Hip Hop/Lo-fi/Experimental

Os chocalhos em sincronia com uma batida pop lembram bastante algum clipe de rap bling-bling, com carinhas de trajes longos exibindo dentes de ouro ao lado de belas garotas e carros importados. O Shabazz Palaces pega essa estética emprestada para falar de esquisitices que colocam o grupo mais próximo ao cenário avant-garde que hip hop. Novamente as garotas do THEESatisfaction cantam e Palaceer Lazaro tenta encontrar um relaxamento depois de uma jam improvável como a de “Swerve…”.

11. “Nasty”

Nas

Álbum: Single
Gênero: Hip Hop

Produzido por Salaam Remi (o mesmo de Amy Winehouse), as batidas minimalistas formam a pista perfeita para Nas trafegar livremente com rimas cáusticas. Ele acelera tanto, que não há nem tempo para frear um pouco para cantar algum refrão. De início, ele já polemiza citando Ezequiel, da Bíblia, como inspiração para gastar ‘milhares de dólares em Scotch, fumar maconha e curar o povo’. O rapper não lançou nenhum álbum neste ano, mas se o próximo trabalho vier com a mesma ferocidade de “Nasty”… se prepare meu irmão!