O pianista Robert Glasper e o rapper Bilal, que canta em duas músicas do disco

Gravadora: Blue Note

Olhando para Robert Glasper e ouvindo seu som pela primeira vez, a impressão que se tem é que ele é rapper. Digamos que isso é quase verossímil. Na verdade, ele é um habilidoso pianista que já escutou muito Thelonious Monk e Dave Brubeck (chegou a fazer uma versão de “Think of One”, de Thelonious) e tem uma grande proximidade com as crias novas do jazz: hip hop e soul.

01 Lift Off Mic Check (Ft. Shafiq Husayn) 02 Afro Blue (Ft. Eryka Badu) 03 Cherish The Day (Ft. Lalah Hathaway) 04 Always Shine (Ft. Lupe Fiasco And Bilal) 05 Gonna Be Alright (F.T.B.) (Feat. Ledisi) 06 Move Love (Feat. KING) 07 Ah Yeah (Feat. Musiq Soulchild And Chrisette Michele) 08 Consequence Of Jealousy (Feat. Meshell Ndegeocello) 09 Why Do We Try (Feat. Stokley Williams) 10 Black Radio (Feat. Mos Def) 11 Letter To Hermoine (Feat. Bilal)

12 Smells Like Teen Spirit

E isso ele leva a sério: seu novo disco com a excelente banda Experiment é cheio de participações especiais, que vão de Erykah Badu na releitura de “Afro Blue” (de Mongo Santamaria) a Mos Def na faixa-título, um rap que poderia muito bem figurar em um disco do A Tribe Called Quest. Nela, o piano bucólico de Glasper contrasta com a velocidade nas rimas do rapper que, todo orgulhoso, sela a beleza da mistura de gêneros que deu certo neste belo registro.

Ainda que tenha muitas releituras, Black Radio carrega uma novidade necessária ao gênero: a proximidade com o pop, daqueles que podemos ouvir nas rádios. Sempre que o jazz se defrontou com esse paradigma, conseguiu vender mais – ainda que essa fusão torne-se alvo favorito dos puristas.

(Hoje, junto a Robert Glasper, podemos colocar Esperanza Spalding e Christian Scott, dois jovens que conseguiram renovar o jazz a ponto de conquistar um público mais amplo.)

Ouvir Robert Glasper Experiment é uma das experiências mais próximas de sentir um som ao vivo. “Always Shine”, um dos destaques do disco, tem o piano rítmico enquanto Lupe Fiasco e Bilal fazem um belo dueto. Mas o grande destaque é a bateria de Chris Dave que, nas palavras de ?uestLove (The Roots), é o “baterista mais perigoso vivo”. Ouça “Why Do We Try”, com Stokely nos vocais, e vai ser fácil comprovar. A velocidade na bateria dessa música é comparável ao que Max Roach trouxe ao bebop. Nesta canção, o piano de Glasper é assimétrico, com a clara intenção de fazer um cruzamento com a bateria e o vocal.

Como requinte-mor de modernidade, Robert Glasper também faz uso do autotune – e o faz muito bem. Em “Cherish the Day”, canção de Sade, os computadores fazem uma pequena alteração nos refrões, mas a linda voz de Lalah Hathaway rememora os bons tempos da soul music.

Black Radio é eclético a ponto de navegar pelos clássicos do rock a fim de deixá-los quase irreconhecíveis. “Letter to Hermione”, clássico de David Bowie, é pulsante e fica linda com o acompanhamento da flauta de Casey Benjamin, que também toca sax no disco. “Smells Like Teen Spirit” é um devaneio subaquático, como se Casey, que deixa sua voz em autotune, tivesse emergindo aos poucos das águas da capa de Nevermind.

Se os rádios vão ou não dar uma chance ao jazz, fica difícil saber. Mas que Black Radio e uma tentativa bem-sucedida de sugerir essa aproximação, não tenha dúvidas disso.

Melhores Faixas: “Afro Blue”, “Always Shine”, “Why Do We Try”, “Black Radio”.