Tão difícil quanto pronunciar o nome Ambrose Akinmusire é não deixar de admirar a habilidade de um músico de 29 anos que consegue soar deliberadamente dissonante (como em “Confessions to My Unborn Daughter”), ao mesmo tempo em que produz baladas de calibre potencialmente tocantes – vide “With Love” e comprove.

Essa nova grande figura do jazz, trompetista que iniciou a carreira tocando com o saxofonista experimental Steve Coleman e diz-se grande admirador de Lester Bowie, lançou no ano passado o disco When the Heart Emerges Glistening, já com pinta de ser uma das últimas revoluções do gênero.

Akinmusire tem proximidade com escolas como bebop e avant-garde, mas em seu segundo disco quis se livrar de todas as possíveis amarras para compor notas que já deviam estar guardadas em sua mente por um bom tempo. E ele teve toda a liberdade criativa necessária, já que a gigante Blue Note incentivou-o a ‘pensar grande’ neste registro.

When the Heart Emerges Glistening tem pancadas instrumentais como “Confessions to My Unborn Daughter”, onde começa solando com notas ágeis em sopros curtos, até que o pianista Gerald Clayton entra com notas monossilábicas que lembram Bill Evans. A partir daí, é criado um momento de tensão constante com os instrumentos, que surgem sempre para fechar uma ideia em momentos de curto espaço.

Quem emerge é Akinmusire, que mostra claramente que são os seus sentimentos que devem ser enaltecidos – o que não quer dizer que a habilidade dos músicos que tocam com ele são deixadas de lado. O fato é que esse sentimento exige uma complexidade musical, e os integrantes de seu grupo têm habilidade de sobra para fornecê-la.

Causa impacto no ouvinte também a audição de “The Walls of Lechuguilla”, que inicia com um solo tenebroso de trompete para entrar em uma jam caribenha que traz um groove distorcido pelas notas, como se os músicos quisessem sair do óbvio só para brincar de intrigar aquele que a escuta. Conseguir isso, eles conseguem. Mas a intriga é apenas parte da brincadeira: você pode tentar achar Wynton Marsalis por ali, mas irá identificá-lo mais com Sun Ra ou mesmo a anarquia sonora de um Captain Beefheart.

Se as canções já citadas já surpreendem, é porque você ainda não ouviu as baladas. O baixista Harish Raghavan atinge a profundidade sem mostrar virtuosismo em “Henya”, com o objetivo de deixá-la belamente flutuante. É música para ouvir admirando o mar ou o bonito céu estrelado de noite de verão.

Não pode-se deixar de falar também do excelente baterista Justin Brown, que soa como um Max Roach em “Far But Few Beetween” e vai buscar inspiração lá em Tony Allen em “My Name is Oscar”, uma espécie de esquete de afro-beat.

Em julho, o trompetista vem com a sua banda para o Brasil, para apresentar-se no BMW Jazz Festival. Não se deixe levar pela dificuldade de pronunciação; Ambrose Akinmusire entrará facilmente no seu gosto musical.