Sun é um disco debilitado. Após o término com o marido Giovanni Ribisi, a cantora Chan Marshall (aka Cat Power) passou por maus bocados e entregou um disco melancólico. No entanto, o disco soa como uma forma de contornar sua densidade emocional: para isso, ela aprendeu técnicas de estúdio e gravou todos os instrumentos.
Mas, ao vivo, infelizmente não dá pra utilizar os recursos do ProTools. O público já esperava uma apresentação abatida – tanto que teve complacência com o atraso penoso de 1h15 (sem justificação alguma – vide observação ao fim do texto) e aplaudiu performances horrendas de faixas como “Sea of Love” e “The Greatest”, que iniciaram o show.
O público se contentou com uma Cat Power sorridente, porém sem sinergia alguma com a banda que, além de executar mal o seu som, tinha como protagonista um guitarrista que forçava a barra exibindo gestos de virtuose em linhas contínuas. Quase deu vergonha alheia.
A primeira recepção sincera do público surgiu com os acordes de guitarra de “Cherokee”, sem fugir muito da sonoridade original. Mas sua voz estava muito mal; a todo momento ela tossia, talvez por culpa do cigarro que a acompanhou na entrada ao palco. Sua falta de comunicação com o público, por outro lado, não era proposital. Seus sorrisos contidos e suas dancinhas monótonas entregavam piamente sua timidez. O público, claro, levou numa boa e não chiou.
Por mais que os espectadores celebrassem as canções de Sun (seria falta de memória em relação a The Greatest, lançado há sete anos atrás?), Cat Power só se complicava a cada música que cantava desse disco. Quando se pensava que os efeitos de “Human Being” poderiam salvá-la, eis que sua voz entra ao léo. Nada se encaixa ali e, para piorar, ela se sentia livre para transfigurar a canção de forma que a deixava quase irreconhecível. Provavelmente a banda não estava a par de nada, e a execução se tornava uma experiência desastrosa. Disso, nem a simplicidade da bela “Nothin’ But Time” – que ganhou uma versão bem mais curta que os 10 minutos – escapou.
Mancando bastante e se confortando aos poucos com a afetividade do público majoritariamente feminino, Cat Power só mostrou resquícios de grandiosidade a partir de “Bully”, somente com acompanhamento do piano. Com “Metal Heart” (do belo Moon Pix, de 1998), finalmente estávamos diante de uma artista que estava expelindo seus cacos sentimentais de uma forma, digamos, mais sincera.
Ironicamente, este foi o momento que o pessoal resolveu conversar mais e lotar as filas dos bares atrás de cerveja. Foi o tempo necessário para que entrasse “3, 6, 9”, a canção pop de Sun que novamente retomou a irregularidade da apresentação (e que deixou o público satisfeito novamente).
Em alguns momentos, a banda servia mais como interferência do que apoio. A voz de Chan Marshall estava tão debilitada quanto suas emoções, o que tornou a audição sofrível em alguns momentos.
Estes são os riscos que se corre quando vamos a um show de uma cantora problemática (vale lembrar que ela teve problemas com álcool e costuma pregar peças em algumas apresentações, como largar tudo de uma vez por excentricidade).
Ontem, Cat Power estava de tão de bom-humor que até autografou discos no palco nos momentos finais da apresentação (ela fechou com “Ruin”, que soou apenas como uma bela opção). Num total cravado de 1h40 de show, Cat Power se mostrou mais contente quando estava aparentemente retraída.
Ela ainda deve estar flagelada e, a julgar pela apresentação, está passando por uma transição da melancolia para a resignação. Não chorou em nenhum momento e não quis se mostrar fraca perante um público que esperava enxugar as lágrimas da cantora no colo.
Ainda assim, estávamos diante de uma cantora debilitada que realizou um show irregularmente debilitado. Talvez não tenha sido bom para nenhuma das partes (cantora e público) – somente àqueles que gostam de se enganar para justificar o preço exorbitante pago (ou não) no ingresso.
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Observações:
Não é a primeira vez que o Na Mira cobre um show no Cine Joia, mas acho bom deixar claro que a casa não considera o fator transporte e mobilidade do público. Para eles, todos chegam de táxi ou de carro e têm horário aberto para sair a qualquer hora – algo diferente do que faz o Sesc, por exemplo, que exige rigidez no cumprimento de horário.
Digo isso porque não houve nenhuma justificativa da casa em mais de 1h15 de espera. Pessoas trabalham e, ao contrário da aparência iminente de luxúria por boa parte do público (ou seriam convidados?), alguns ainda dependem do transporte público. (Até parece que eles nunca olharam ao redor e perceberam que há uma estação de metrô, que fecha cravadamente a 0h.) Na teoria o show deveria iniciar às 22h, o que matematicamente garantiria a volta para casa sem pagar bandeira dois.
Já que é assim, não há sentido algum pagar R$180 por uma apresentação e ser recebido com descaso. Se o show da Cat Power foi ruim em execução, não é problema da casa. Mas é obrigação dela demonstrar um mínimo de respeito com o espectador e esclarecer os problemas que motivaram o atraso em plena terça-feira.
Consigo imaginar quantos chegaram com olheira hoje no trabalho.
