
Imagine se, ao invés de ir para a Alemanha, o saxofonista Ornette Coleman resolvesse gravar o disco Sound Grammar, o já letárgico disco ao vivo de 2005, aqui no Brasil? Como as nossas referências musicais afetariam a sonoridade daquele que é considerado o principal símbolo do jazz avant-garde?
Jjustamente para impor sua unidade sonora, o Aeromoças prefere extrair mais notas audíveis do que esfuziantes em sua viagem eletrofuturística
Esta é uma pergunta difícil de responder. Mas é um exercício interessante imaginar que essa improbabilidade poderia resultar em algo parecido com o que a banda de São Carlos Aeromoças e Tenistas Russas anda fazendo nos últimos quatro anos.
A banda foi formada por alunos de Imagem e Som da UFSCAR, a saber: Juliano Parreira (baixo), Thiago Hard (guitarra e sax), Eduardo Porto (bateria) e Gustavo Hoolis (teclado).
Além do tempero jazzístico, o grupo mantém um diálogo com a psicodelia e o rock, partindo para lisergia de cordas funk em “Saguis” – com proximidade do samba setentista tirado pelo teclado – ou uma surf music cheio de efeitos wha-whas e barulhos inusitados na faixa “Smonkey Skulls”, que traz variações que vão do lúdico ao peso do rock and roll. “A eletricidade tem o poder de revelar a natureza íntima das coisas”, atesta o grupo em seu perfil oficial no TNB. “Elétrons, na base, sempre”.
Do avant-garde, o Aeromoças transita da maneira mais sutil possível. Não que falte virtuosismo para se chegar a algo mais pesado; justamente para impor sua unidade sonora, eles preferem extrair mais notas audíveis do que esfuziantes. É este o clima que permeia “Sex Suggestion”, um groove calmo que deixa explícita a habilidade de Hard no saxofone.
Mais bem temperada e bem menos avant-garde é “Jacques Villeneuve Experience”, onde Hard segue em um ritmo delicioso novamente com o seu sax, enquanto a banda simula uma corrida – tal qual o competidor canadense de Fórmula 1, Villeneuve – onde o único vencedor é o groove. (Esta canção me lembrou bastante aquela jam gostosa de se ouvir de Lee Ritenour com Abe Laboriel.)
Aeromoças e Tenistas Russas lançaram recentemente o álbum Kadmirra que, segundo o próprio grupo, é um ‘personalíssimo planeta’ onde há uma ‘hesitação entre caos e cosmos’. Soa confuso? Então embarque nessa viagem eletrofuturística com o Aeromoças.
