
01 Cherokee 02 Sun 03 Ruin 04 3, 6, 9 05 Always On My Own 06 Real Life 07 Human Being 08 Manhattan 09 Silent Machine 10 Nothin But Time
11 Peace and Love
Gravadora: Matador





Chan Marshall se separou há alguns meses do marido Giovanni Ribisi e, pouco tempo depois, viu que ele se casou com a estilosa modelo Agyness Deyn. Depois, gravou um disco, quebrando um hiato de seis anos.
A história imediata que surge às mentes é que Chan, conhecida no universo musical como Cat Power, fez do sentimento de dor e perda um disco de penúrias – não que isso fosse uma coisa ruim, vide as últimas pérolas pop Back to Black e 21.
Não é bem assim. O que realmente ocorreu é que a cantora, itinerante que sempre foi, se dedicou pela primeira vez a um relacionamento a dois e, com isso, tornou-se mais madura, mais preparada para as adversidades da vida.
Sun é, sim, retrato de uma mudança de ares na arte de Cat Power. Mas isso não aconteceu exclusivamente porque ela se sentiu traída ou está se sentindo ‘forever alone’. Afinal, seis anos é tempo demais para acharmos que apenas isso foi fator determinante para tal mudança.
Por exemplo, nesse tempo, ela aprendeu técnicas de estúdio, como a mexer no ProTools. A partir disso, gravou simplesmente todos os instrumentos, vozes e efeitos do álbum.
Não que isso tenha mudado muuuita coisa. Em The Greatest, por mais que houvesse a influência da música sulista negra nas camadas musicais, era a voz dela que dava o direcionamento. Sun tem disso, só que é mais eletrônico. Quem imaginaria um fuzz esparso de sintetizadores enquanto a cantora fala obsessivamente em escapar das agruras da vida em “Real Life”?
Importante também é notar os contrastes existentes no disco: em “Ruin”, com o onipresente piano como acompanhamento, ela fala que ‘não há lugar nenhum pra ir’. Em pouco tempo, as guitarras entram aos poucos, daí ela fala de ‘voltar pra casa’. A felicidade desse momento é transposta para a bateria, que vai se soltando mais, enquanto a guitarra procura curtos solos que se manifestam aos poucos.
Aliás, o próprio contraste já está estampado logo na capa: por que raios a cantora escolheu uma imagem de 20 anos atrás, quando Sun tem como ponto forte justamente o quesito ‘mudança’?
São os contrastes que ligam: essa é a Cat Power. Uma Cat Power capaz de manipular sua própria forma de música (porque se tivesse dedo de manager aí… Sun não teria um quarto da força que tem). E como a cantora está revitalizada! – por mais adverso que esse adjetivo possa parecer.
“3, 6, 9” tem potencial para ser hit radiofônico de tão grudenta que é. “Manhattan” – que lindeza – te força a ficar em estado contemplativo quando Chan diz ‘não olhe para a Lua hoje’.
“Human Being” joga efeitos que poderiam ser produzidos por Avey Tare numa faixa que tinha tudo para ser cantada ao vento. Se Lars Von Trier tivesse essa composição em mãos dois anos atrás, certamente utilizaria como trilha naquele momento final de Melancolia, onde Justine, Claire e Leo esperam o… (entendi, sem spoilers).
Apesar de parecer enjoativo por conta dos mais de 10 minutos de duração – e pela persistência do refrão – “Nothin’ But Time”, que traz a participação de Iggy Pop, prova o quanto as camadas sonoras criadas por Cat Power fortificam suas canções. O que poderia ser uma elegia desnecessária se torna uma espécie de linha evolutiva de toda a carreira da cantora. (Esta canção, que foi escrita em parceria com a filha do ex-marido, foi inspirada por Ziggy Stardust. Como Bowie anda bem afastado nos últimos anos, o Iguana veio preencher a lacuna com toda a sobriedade que paira em seus álbuns mais sinistros.)
Atributos não faltam para argumentar que Sun é um puta dum disco, sim! Mas que Ribisi não venha se regozijar por ele, porque ele não tá com todo esse crédito aí não.
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A seguir ouça Sun, da Cat Power, na íntegra:
Melhores Faixas: “Sun”, “Ruin”, “3, 6, 9″, “Manhattan”, “Silent Machine”.
