Todo mundo que diz gostar de rock já ouviu um riff dos Pixies. E provavelmente vai lembrar com entusiasmo.
Claro que nem todos eram nascidos, crescidos e doidões na época de lançamento dos inebriantes Surfer Rosa (1988) e Doolittle (1989), mas quase toda a lembrança que temos da banda com a clássica formação de Black Francis (voz, guitarra rítmica), Kim Deal (voz, baixo), Joey Santiago (guitarra) e David Lovering (bateria) vem do repertório desses dois importantes álbuns.
Isso faz sentido. “Monkey is Gone to Heaven”, “Debaser”, “Where is My Mind?”, “Bone Machine”, “Gigantic”, “Here Comes Your Man”, “Wave of Mutilation”… Todas elas estão nestes discos.
Mas, como todo bom fã de rock alternativo gosta de enfatizar, o Pixies é mais que isso. Por isso reunimos todos os discos da banda para esta edição do Discografia Na Mira. Por isso, e por mais duas outras efemérides: primeiro, porque a banda se apresenta mais uma vez no Brasil no próximo domingo, 6 de abril, no festival Lollapalooza, em São Paulo. Segundo: pegamos carona no Especial Pergunte ao Pop que, por votação, elencou as 25 melhores músicas da banda.
Perceba que em nossa análise deixamos de lado os recentes EPs lançados pela banda – EP1, EP2 e EP3 – por um motivo simples: todos eles formam o novo álbum do Pixies, Indie Cindy, que será oficialmente lançado dia 28 de abril. Adiantados que somos (!), ouvimos o disco e incluímos nesta seção.
Portanto, busque seu disco favorito dos Pixies, ouça alto, leia e compartilhe nossa análise e aventure-se na sonoridade de uma das melhores bandas de rock de todos os tempos.
Será que eles mantêm o gás? Continuam bons? São irredutíveis? Isso aí, você pode disparar nos comentários.
Com vocês, a discografia dos Pixies!
***

Come On Pillgrim
Gravadora: 28 de setembro de 1987
Data de Lançamento: 4AD





1987 foi um ano de importante transição no rock. Em contrapartida ao auge farofa de Mötley Crue e da potencialização do Metallica, discos como Sister (Sonic Youth) e Scum (Napalm Death) deram passos divergentes para outras galgadas roqueiras. Come On Pillgrim também deve ser adicionado a essa tríade, sepultando de vez o pós-punk e abrindo alas para um dos grupos mais importantes a partir daí. De “Caribou” a “Levitate Me”, o ouvinte é apresentado a uma horda de riffs ligeiros e um universo próprio que abriga latinidades, punk sujo e lisergia sem limites. Apesar de se caracterizar como EP, Come On Pillgrim funciona como ótima introdução ao som do Pixies para os neófitos. Todo o esboço do que se consolidaria como a fórmula loud-quiet-loud fixa-se nas urgentes “Ed is Dead”, “I’ve Been Tired” ou em um formato ainda mais excêntrico como “Vamos”. Bem-vindo: divirta-se e chape no mundo do Pixies!
Ouça: “Vamos”

Surfer Rosa
Gravadora: 4AD
Data de Lançamento: 21 de março de 1988





Steve Albini produziu uma pedrada de bandas de rock barulhentas e absurdas, mas em nenhum momento ele foi tão bem-sucedido como neste registro. Tempos depois ele disse, com relativa razão, que o melhor da banda era soar “suavemente como uma banda de college rock divertida” com suas patadas usuais, mas deve-se a Albini o fato do Pixies abraçar o insípido e puxar mais a participação da baixista Kim Deal no processo criativo da banda. “Bone Machine” e “Break My Body” formam a introdução mais pé-na-porta possível nesses últimos 30 anos no gênero. Black Francis está mais absorto em seu ideário destrutivo: sinta bem os efeitos ao som de “Something Against You” (com urros nada deduzíveis), no estranho gaguejar de “Tony’s Theme” ou na aparentemente séria “Where is My Mind?”, sem erro algum a música mais impactante de toda a carreira dos Pixies. Kim, claro, não deixa a desejar: rouba a cena na glamourosamente tosca “Gigantic”, gravada em um banheiro do estúdio, e responde com vigor nos duetos breves em “Oh My Golly” e “Cactus”. Ah, não podemos esquecer a bateria apimentada de David Lovering e, claro, os solos de guitarra catárticos de Joey Santiago, garantindo à banda o status de grandiosa, potente, arretada de boa.
Ouça: “Where is My Mind?”

Doolittle
Gravadora: 4AD/Elektra
Data de Lançamento: 18 de abril de 1989





Tudo o que havia para se dizer sobre Doolittle já foi dito. Sem ele não teríamos Mudhoney, Kurt Cobain seria um zé ninguém e nem mesmo o site Pitchfork existiria. A proposta do disco já era grandiosa desde o começo. Sem Albini, a banda decidiu chamar o então novato Gil Norton. Depois de algumas discussões, Black Francis decidiu levá-lo a uma loja de discos para apresentar Buddy Holly, a fim de acabar com as pretensões de transfigurar o Pixies em algo ‘progressivo’. Receosos após o fracasso de vendas com o disco anterior, a banda lapidou ainda mais sua sonoridade e chegou mais assertiva em sua proposta. Tudo bem que arroubos como “Tame” e “There Goes My Gun” vêm dos mesmos caminhos tortuosos de Surfer Rosa, mas a pressão por crescer fez-se obrigatória para a chegada de faixas como “Here Comes Your Man” que, se por um lado não é ruim, por outro também não é muito boa. Nada que o Pixies se orgulhe. Mas Doolittle se sustenta mesmo é pelas composições afiadas de “Wave of Mutilation” (sobre tragédias naturais), “Monkey Gone to Heaven” (o mau do ser humano) e da estrondosa “Debaser”, a música que, inspirada por Salvador Dalí e Luís Buñuel, abriu possibilidades para um novo universo do rock alternativo nos anos 1990. Dificilmente um disco cumpre a proposta de ser incendiário com tanta eficácia como Doolittle: dos estranhos aos descoladões, raros são os que não ovacionam este clássico. Talvez só quem não conheça mesmo.
Ouça: “Debaser”

Bossanova
Gravadora: 4AD
Data de Lançamento: 13 de agosto de 1990




Claro que seria difícil segurar a barra com um disco potente após o estrondo que foi a tríade Come On Pillgrim/Surfer Rosa/Doolittle. A banda teve que passar por um processo de autorreciclagem, onde a influência externa de Kim Deal, que havia formado o The Breeders depois de muitas brigas com o vocalista esquentado Black Francis, causa um impacto negativo, já que sua participação diminui bastante. Mas Bossanova não deve passar batido. O álbum preferido de Francis não fica devendo no quesito vigor: “Rock Music” e “Hang Wire” cumprem o papel de manter vivaz a chama incendiária. O mais importante é notar que o turning point naquele momento era necessário, para que o Pixies não escorregasse em seus próprios vícios. Assim, a capacidade de extrair mais melodia do que barulho em belas faixas como “Down to the Well” e “All Over the World” mostram que o Pixies não precisa se apoiar tão-somente no escrachado e doidivanas – assim como não apela para o comercial-fofolete. Sim, as guitarras estouram, mas o clima amainado das canções possibilitaram uma abertura musical que engrandeceram a banda numa amplitude ainda maior de quem acha que só Surfer Rosa e Doolittle valem a audição. O Pixies é mais que isso, e Bossanova está aí para comprovar.
Ouça: “All Over the World”

Trompe Le Monde
Gravadora: 4AD
Data de Lançamento: 23 de setembro de 1991




Ouça alto o riff de “U-Mass”. Não lembra algo maciçamente explorado por Jack White? E não é só isso: esta faixa diz mais sobre a produção roqueira dos anos 1990 do que um apanhado de músicas do Pearl Jam ou Soundgarden (que também bebeu bastante da fonte dos Pixies). O que Trompe Le Monde conseguiu estabelecer foi algo pouco notado: temos o grande eixo entre as insanidades pré-Doolittle com a maturidade latente brotada em Bossanova. As coisas ainda estavam quentes na difícil convivência entre Kim Deal e Black Francis – ele mal a deixava tomar as rédeas, dando vazão aos indícios da cicatriz que surgiria décadas depois, com a saída definitiva da baixista antes de EP1 (2013). Mas, voltando ao disco, os solos de guitarra de Joey Santiago continuam fritando em pedradas como “Letter to Memphis” e na estrutura torta de “Planet of Sound”, que habitaria no modus operandi do Rage Against the Machine. Passando por uma faixa ou outra, Trompe Le Monde é um compêndio do que aconteceria de melhor em uma das melhores décadas para o rock’n roll. Da cantarolável “Motorway to Roswell” à improvável direção de “Subbacultcha”, os Pixies encerraram em ótima forma uma discografia que parecia impecável. Ops, peraí…
Ouça: “Planet of Sound”

Indie Cindy
Gravadora: Pixiesmusic/PIAS
Data de Lançamento: 28 de abril de 2014 (a ser lançado)



Depois de um hiato de mais de uma década, os Pixies voltaram em 2004 para cumprir uma agenda de shows que depois se tornou uma bem-sucedida turnê. Daí surgiram as declarações de que a banda havia reativado justamente por motivos financeiros, o que nem deve ser motivo de discussão. Ora, por que privar uma nova geração influenciada pela banda de ter a oportunidade de se esbaldar diante de um número grandioso de clássicos? O trabalho inédito só foi possível 10 anos depois, com o lançamento recente de EP1 (2013), que arrancou críticas escrachadas de negativas. Se elas têm ou não fundamento, a história é outra. Mas, quer saber? Ter de volta uma das melhores bandas de rock’n roll de todos os tempos vale até mesmo a partida definitiva de Kim Deal (que teve seus motivos). Porque não dá pra ficar chorando o tempo inteiro o leite derramado.
Então, o Pixies fez o que uma outra banda de seu porte faria: seguiu em frente. E, após os teasers que culminaram em EP1, EP2 e EP3, a banda juntou tudo em um novo álbum, Indie Cindy, em busca de uma audiência que a banda ainda está começando a desvendar. O vídeo da faixa-título teve boa repercussão, as vendas correm bem e, se faixas como “Bagboy” e “Another Toe in the Ocean” padecem do punch característico da banda, por outro sugerem uma retomada do ponto de partida de Bossanova. Esqueça Surfer Rosa e Doolittle e talvez você possa ouvir sem receios faixas pop como “Greens and Blues” e vibrar com o riff de “Blue Eyed Hexe”. Talvez alguns entusiastas tenham esquecido da versatilidade dos Pixies na curta trajetória passada. Indie Cindy representa um novo passo de uma banda que não tem necessidade de clamar por respeito. Se não está interessado no que a banda tem a oferecer de novo, bom, pode ficar com Surfer Rosa e Doolittle mesmo que a credibilidade dos Pixies mantém-se intacta.
Ouça: “Another Toe in the Ocean”
