Kamau é um músico que prefere relatar suas experiências empíricas no rap ao invés de criar crônicas fantasiosas – sem criticar quem o faz. Quando se tem o perfil do músico, você entende os sentidos de suas rimas: um músico independente, que lutou bastante para obter o reconhecimento que tem hoje, que leva uma gravadora (a Plano Áudio) com parceiros e que não dá muita bola para o que dizem de sua obra.
Noutras palavras, um músico simples (Simples também é o nome de um projeto dele com Stephanie e Rick).
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01 (Interna)Mente 02 Entre 03 Eu Vou 04 Música de Trabalho 05 (Acorde) 06 21/12 07 Por Onde Andei 08 (Eu Quero) Mais 09 Lágrimas do Palhaço 10 Hora de Partir/(Eterna)Mente 11 Ciclo 12 Resistência (Remix) – Bonus 13 Pretinha – Bonus
14 Só (Remix) – Bonus
Neste último fim de semana, o músico colocou nas ruas seu novo EP …Entre…, que veio quatro anos depois do lançamento de Non Ducor Duco (considerado um dos 50 melhores discos nacionais de toda a década de 2000 pelo Na Mira).
E, neste EP (que representa uma espécie de Linha de Equador, um ponto de intersecção em sua obra antes do segundo disco oficial), não poderia faltar exemplos de como Kamau transpira autoconfiança – sem se tornar arrogante em nenhum momento.
“Música de Trabalho”, com colagens do DJ Erick Jay e produção de Renan Samam e do próprio Kamau, fala de como é difícil explicar para uma pessoa que não conhece o movimento hip hop a dificuldade de ser MC. ‘Tô reclamando não, faço o que gosto’, já adverte o cantor. E aí ele leva a rima para algo com uma temática laborial: ser chefe de si mesmo nem sempre é vantajoso, mas a independência é valorosa. Vale a pena? ‘Até que tem compensado/Pago as contas do mês e até que sobra um trocado (…)/Bem melhor que ser lembrado é não ser esquecido’.
Em “21/12″, Kamau reitera seu gosto e sapiência de falar de si próprio como um exemplo a ser seguido. Tudo bem que nem todos os seus ouvintes querem ser MC, mas o que impacta mesmo é a sua persistência e o seu foco para atingir um objeto que ele mesmo criou. ‘Minha vontade mais nova estava inquieta na mente’, diz o rapper na canção citando como suas ‘palavras impacientes procuravam lugar’. Dar importância a si mesmo é essencial para se ter sucesso naquilo que você deseja.
“Por Onde Andei”, que foi mostrada anteriormente em um videoclipe (que você confere a seguir), traça alguns dos próximos objetivos do artista: a vida tem que ter movimento. Viajar, ter reconhecimento e angariar mais fãs é consequência de uma caminhada que ele já se preparou para trilhar há um bom tempo. E, como o vídeo sugere, isso tem tudo a ver com andar de skate.
Mais agressiva aqui é a faixa “(Eu Quero) Mais”. Aqui, o músico exige a igualdade acima de qualquer termo; mais pessoas para escutar o seu som; mais que ‘benefícios e registro na carteira’; mais do que conhecimento que vem de um diploma. A tal da ambição como uma forma de desenvolvimento pessoal.
Com participação de Tulipa Ruiz no refrão e o Rhodes de Daniel Ganjaman, “Lágrimas do Palhaço” é uma outra experiência do cantor: uma forma mais reflexiva de analisar a vida, mas sem deixar de lado a primeira pessoa. As colagens vêm de “Jesus Chorou”, dos Racionais MCs, e Kamau entra na personificação deste misterioso personagem já sugerida por Nelson Cavaquinho lá na faixa “Palhaço”, onde ele diz que este palhaço chora por alguém que não o ama (esta faixa, inclusive, foi regravada por CéU em Caravana Sereia Bloom). Kamau diz: “como se procurasse no chão o motivo/Que ocupasse o espaço onde roubaram a brisa/A vida quando quer bater não alisa”. E até chega a citar a procura ‘do Nirvana como Kurt Cobain’.
Além de todos estes destaques, …Entre… traz remixes das canções “Resistência” (produção de Renan Samam, com vocais em inglês da cantora Invincible, de Detroit) e “Só” (produzido por Nave), duas das principais canções do disco anterior.
Com exceção de “21/12″, que foi gravado no estúdio M. Stereo, todas as faixas foram gravadas na Strike House, de André Maini (da banda pop-rock Strike).
Ainda que seja um EP de transição, …Entre… mostra o quanto Kamau continua focado numa caminhada que está longe de atingir o destino. Afinal, a verdadeira graça está no meio disso tudo.
