Áureos tempos: a formação clássica com John Entwhistle (baixo), Pete Townshend (guitarra), Roger Daltrey (vocal) e Keith Moon (bateria)

Depois do sucesso de Tommy, a primeira ópera rock lançada, Pete Townshend, guitarrista e compositor de pelo menos 90% de todas as canções do grupo, não sabia o que usar para gravar. Havia sobrado alguns takes das sessões do álbum anterior, umas músicas espalhadas. E só. Cogitou fazer um trabalho mais teatral, mais performático, que precocemente chegou a intitular de Lifehouse. Decepcionado, em uma beira de ataque de nervos, viu que só lhe restava tocar com o que tinha sobrado, pois já estava exausto de compor.

Mal sabia Townshend que havia inúmeras pérolas guardadas. Juntou o material com o que tinha planejado lançar com Lifehouse e foi pro estúdio. Neste álbum, Who’s Next, é importante citar a presença dos sintetizadores nas canções, algo até então novo para a banda.

Pete Townshend chegou a dizer certa vez: “Gosto de sintetizadores porque eles trazem um poder adicional às minhas mãos”. É o que se vê na primeira faixa do álbum, “Baba O’Riley”, que inicia como um solo de piano e depois tem o ritmo crescentemente acelerado, até que uma espécie de sino medieval corta o som e os vocais de Roger Daltrey entram vigorosamente cantando “Out here in the fields…”

“Pure and Easy” é o que seria a continuação da canção “The Song Is Over”, que também fazia parte do projeto frustrado Lifehouse. “Baby Don’t You Do It” traz mais agressividade ao trabalho, remontando aos áureos tempos de “My Generation”. Nesta faixa, as baquetas de Moon brilham em sincronia com os vocais de Daltrey.

“Naked Eye”, para mim uma das melhores canções que o The Who já tocou enquanto banda, parece ser uma viagem alucinante, mas na verdade é uma expansão das ideias de um casal que aparentemente está em crise conjugal : “It all looks fine / to the naked eye / but it don’t really happen that way at all” [“Parece tudo normal / aos olhos nus / mas não aconteceu exatamente dessa maneira].

O virtuosismo de cada integrante é explícito em “Water”; e, para fechar, “Too Much Of Aything” e “I Don’t Even Know Myself” encerram com chave de ouro a maestria do álbum. E aí, fica a pergunta: se, por algum acaso, o lançamento de “Lifehouse” fosse adiante, será que ele seria superior ao ótimo resultado de Who’s Next? Já arrisco logo: acho que não chegaria nem aos pés!

Post originalmente publicado no blog O Atemporal.