Gravadora: Som Livre
Data de Lançamento: 12 de maio de 2014
A turnê de 2012 rememorando o clássico Cabeça Dinossauro (1986) fez um bem danado aos Titãs. Sem o baterista Charles Gavin, o peso de faixas como “Polícia”, “Família” e “Bichos Escrotos” deu um vigor que todos duvidavam que uma banda brasileira dos anos 1980 pudesse recuperar.
Cinco anos sem um trabalho de inéditas, Nheengatu é o disco de rock’n roll que todos esperavam que uma banda do porte dos Titãs voltasse a lançar.
Nheengatu joga poeira em discos ruins como Sacos Plásticos (2009) e Como Estão Vocês? (2003). Nada de coisas melosas como “Porque Eu Sei que é Amor” e “Epitáfio”.
O agora quarteto fechado em Paulo Miklos (voz/guitarra/sax), Branco Mello (voz/baixo), Sérgio Britto (teclado/baixo) e Tony Bellotto (violão/guitarra) – com a não assumida presença de Mario Fabre nas baquetas – reincorporou a agressividade de outrora para falar sobre temas pesados – polícia, crack, cadáveres, pedofilia, censura – da forma que o grupo faz melhor: mandando a letra direta.
Lembrar clássicos como Õ Blésq Blom (1989) e Titanomaquia (1993) soa nostálgico, mas vamos ser realistas: os tempos são outros. Nenhum dos integrantes é jovem, o que diz muito sobre a nossa atual situação brasileira. Tá tudo tão escancarado, que há vontade de sobra de batalhar até para quem tem mais de 50.
‘Cansei de ser humilhado/Sou mensageiro da desgraça’, diz a banda em “Mensageiro da Desgraça”. Estão envoltos de ira, mas só um ingênuo pra achar que essa postura detratora é patente dos Titãs. Grupos underground dos anos 1980 (Replicantes, Excomungados) fizeram isso com mais raiva nos dedos e nas composições.
O que pesa no Titãs é seu poder de alcance. Um grupo que já colocou músicas mequetrefes nas novelas tem grande chance de expandir a uma maior audiência o rock que tanto anda defasado no mainstream brasileiro.
Ainda que nenhuma faixa de Nheengatu tenha entrado na parada da Billboard, quem contemplou o espetáculo das manifestações pré-Copa do Mundo vai se identificar com o tema de “Fardado”. Ao contrário do que dizem, não é uma continuação de “Polícia”; é uma visão mais amena, um estender às mãos que, como o tempo nos mostra, tem tudo para ser ignorado.
‘No campo de batalha/É o grito que se espalha/É uma dor… Canalha!’, diz uma das melhores músicas do disco, “Canalha”, por acaso a única não escrita pela banda (autoria de Walter Franco). Os riffs em pausa, a voz contida e seu formato quase homérico a torna o hino que os jovens revoltados procuram para acompanhar a chama flamejante destes novos tempos. (Que esses jovens também ouçam a versão original, ora!)
Se teve uma coisa que os Titãs acertaram bem neste disco foi a urgência: pouco menos de um semestre nos estúdios Trama, com toda a força do espírito ao vivo, foram necessários para finalizá-lo. Pancadas como “Cadáver Sobre Cadáver” (de Paulo Miklos em parceria com o ex-titã Arnaldo Antunes) e “Pedofilia” injetam rara força bruta a um disco de rock brazuca.
Mas sentimos melhor o impacto nas faixas ‘menos diretas’ – caso de “República dos Bananas”, onde inúmeros personagens identificáveis no cenário brasileiro se enquadram em ‘calúnias sociais’ que revelam um povo disforme, longe de se integrar. A menção da faixa é de um quadrinho de Angeli, que divide a autoria da canção com Branco Mello, o palhaço Hugo Possolo e o guitarrista Emerson Villani.
“Não Pode” é outro petardo sarcástico. Reclama da proibição de ‘fumar, beber, xingar, correr’ com a facilidade de uma assinatura de caneta. Melhor que a letra são as interjeições de guitarra, que vão do punk ao funk, com belas viradas na bateria de Fabre.
Claro que todos os achados aqui são influenciados pela idade, mas é bom ver os Titãs se reconciliando com a essência que tanto andava em falta à banda.
O poder comercial de um grupo que carrega mais de três décadas de carreira certamente vai garantir a Nheengatu soberba audiência, mas um questionamento interessante pode ser feito: será que o público dará mais atenção ao fato de que os Titãs continuam a fazer valer o nome ou irá se preocupar em assimilar as mensagens pungentes das 14 faixas do disco?
Que o próximo diretor de Malhação coloque um single de Nheengatu na trilha. Aí, veremos.
