Gravadora: Third Man/Columbia
Data de Lançamento: 10 de junho de 2014
As várias experiências de Jack White no rock são suficientes para justificar a qualidade do seu trabalho. Seja nos rumos distintos de White Blood Cells (2001), na estranha coesão dos Racounteurs ou na sua interferência em trabalhos de Wanda Jackson e Neil Young, o exímio guitarrista pode ficar tranquilo: está longe de ter seu fantasma preso ao White Stripes.
Nem é só por isso que Lazaretto se desvencilha de qualquer conexão com a celebrada banda dos anos 2000. Blunderbuss (2012) cumpriu efetivamente o papel de mostrar que sua empreitada solo é mais interessante que qualquer outro projeto paralelo em que está envolvido. Seu controle obsessivo só poderia culminar em algo de qualidade se apenas White estiver capitaneando a coisa.
E Lazaretto é práxis em evidenciar essa busca solo. Mostra que as palavras-chave ‘blues-rock’ e ‘virtuose’ são apenas mais duas no aglomerado que forma a interessante nuvem de mistérios de White.
Ele soa ainda melhor ao revisitar o passado de country-rock e blues em “Temporary Ground” e “Just One Drink”. A potência flamejante de seu rock impacta tanto na instrumental “High Ball Stepper” como no stadium “That Black Bat Licorice”, onde o elemento agregador lembra “Take Five”, de Brubeck, numa letra que fala de speeds, Nietzsche, Freud, ‘exército, asilo e confinamento na prisão’ de forma eloquente.
Jack White não quis saber de hits neste novo disco. Constata-se que estamos diante de um imponente artista que soube inserir suas influências no jogo em que domina. Seu vigor testosterônico não dialoga mais com a massa de jovens, como dava a entender petardos de Elephant (2003). Ele sabe que seu público se dispersou após a dissolução do White Stripes e faz bem em não querer agradar – apesar de um deslize ou outro que beira a monotonia, como “Entitlement” e “Want and Able”.
Investindo na excelência musical, entregou um álbum pouco provável em suas direções mas que, ao mesmo tempo, sabemos ser obra de White.
O passeio híbrido por todos os caminhos já interceptados pelo rock exclui Jack White de qualquer sub-rótulo que se procure. (Quase) Tudo soma e fortalece o seu manuseio engenhoso, mesmo quando transfigura uma balada (“Would You Fight For My Love?”) ou brinca com dosagens eletrônicas no seu estilo de fazer rock’n roll (como a faixa-título).
Se Blunderbuss era o disco em que White provou ser capaz de continuar sozinho, Lazaretto institui-se como um álbum de tiros certeiros para todos os lados que o músico aponta. “Eu apenas componho o que sai de mim e qualquer estilo que seja torna-se algo [uma música] depois”, disse o músico à Rolling Stone EUA.
Pode ser que o ouvinte demore a memorizar uma faixa que seja de Lazaretto, mas dificilmente passará incólume ou deixará de se impactar com a técnica de White, que aqui transcende a uma linguagem cada vez mais única no atual cenário roqueiro.
Seu virtuosismo vai para além das guitarras e de todo legado cultuado até agora, sem soar piegas, professoral ou rebarbativo.
