O francês Anthony Gonzalez, aos 30, é o único membro-permanente do M83

Gravadora: Mute

Dizem que quando chegamos aos 30 anos, vislumbramos um teaser imaginário daquele filme corriqueiro que todos veremos momentos antes da morte. É uma idade-chave para conhecer a nós mesmos e perceber melhor o que acontece ao redor. Queremos conhecer novos lugares, fugir da rotina. Foi mais ou menos isso que o músico francês Anthony Gonzalez, o único membro permanente do M83, fez para lançar seu aguardado e bucólico sexto álbum, Hurry Up, We’re Dreaming, após completar três décadas de vida. “É tempo de tentar fazer alguma coisa de que eu possa me lembrar por toda minha vida”, disse o músico em entrevista ao The Guardian.

No álbum duplo, Gonzalez optou por dedicar um disco inteiro aos sonhos de um garoto e, no outro disco, aos sonhos da irmã desse garoto

O álbum duplo tem uma crônica bem interessante: mostra o ponto de vista de um garoto, em um disco, e, em paralelo, o que pensa a sua irmã, no outro (as crianças estão estampadas na capa). Ambos os discos tem 11 canções e cada número de faixa reflete a mesma linha de pensamento, como se eles estivessem conectados através de um sonho. “[O álbum] É sobre como irmãos e irmãs são pessoas diferentes, mas conectadas através do sangue e da mente”, revelou Gonzalez. “Cada faixa tem um irmão no outro disco”.

Comparemos “Intro”, com participação de Zola Jesus, e “My Tears Are Becoming a Sea”: a primeira evoca flashes espirituais que vão ganhando clareza nas vozes dos dois músicos. É acelerada, pulsante e revela uma necessidade urgente de descobrir onde se está para então trafegar livremente. A segunda já é mais firme e cercada de mistérios sonoros. A personagem poderia estar em uma selva imaginária, mas parece ter plena consciência de que tudo correrá bem. Logo de início, o M83 deixa claro que o garoto é o mais enérgico e que demonstra bravura, mas precisa da sanidade de sua irmã.

“Intro”

Depois que entram nessa trip aventureira, eles se dialogam alegremente em “Midnight City” e “New Map”. “New Map” é repleta de vocais oníricos e vertentes do dream pop com um techno mais contido, que quase se torna obscuro, até que vêm os fortes bumbos da bateria injetando velocidade na música. Tem até um momento meio ‘clap-hands’ com um som que lembra flauta doce, até entrar aos poucos os riffs confortantes da guitarra de Gonzalez.

“Midnight City” carrega o peso de ser o single de entrada para o disco – um peso fichinha devido à ótima qualidade da canção. Os vocais flagelados e os instrumentos de sopro à lá Destroyer se encaixam perfeitamente na profusão melódico-anárquica de uma das melhores canções de 2011.

“Midnight City”

Além das claras referências do M83 – Sigur Rós, My Bloody Valentine e Smashing Pumpinks – aqui tem uma proximidade maior com o pop, o que torna mais palatável toda a construção imagética de Hurry Up, We’re Dreaming. Isso fica bem perceptível em “Reunion” e “Ok Pal”. Também há crônicas misteriosas do garoto na pele de um sapo em “Raconte-Moi Une Historie”, mostrando as vantagens de ser um anfíbio que pode pular a toda hora e em qualquer lugar, além de navegar nos oceanos. A paralela “Year One, One UFO” traz um folk viajandão com muitas referências interestelares e uma atmosfera densa, mais ou menos como se a garota estivesse solta no espaço até se firmar no hard rock no minuto final da canção. Catarse total.

Momentos bucólicos na obra do M83 não poderiam faltar. Só que eles acabam preenchendo um espaço vazio dos sonhos que todos temos, seja na navegação poética por dentro das relvas de “Fountains” (lembra Bon Iver) ou na cabalística “Reunion”, tão espiritual como o nome sugere.

Na construção dos arquétipos cinematográficos, M83 faz uma miscelânea dispersa de ritmos que dão o tom adequado de sobrenaturalidade em duas faixas: “Claudia Lewis” traz slaps de funk e baterias de rock progressivo em uma verve sonora edificada por vozes que se perdem em meio a tudo isso (é fabuloso!); “Steve McQueen”, nome de um ator que fez sucesso na contracultura americana nos anos 1960 e 70, é a inspiração de um ritmo pulsante e bem barulhento, que dialoga com rock indie e eletropop.

Em entrevista ao site SPIN, Anthony Gonzalez disse estar orgulhoso dessa nova obra. Foi sábio ao decifrar a importância do sonho em diferentes momentos da vida: “você sonha diferente quando é criança, adolescente ou adulto”. É mais uma questão de interpor sua mente através de outras e construir uma nova experiência depois de entrar em contato com essas referências. Se realmente for isso, hurry up!, ouça o novo disco do M83. (Gonzalez despertou em mim a vontade de ter 30 anos.)

Melhores Faixas: ouça todas.