O último trabalho de Mike Skinner é mais funkeado; comparações com os trabalhos anteriores são inevitáveis

The Streets – Computers and Blues

Deve-se a Mike Skinner a inserção da Grã-Bretanha no cenário hip hop. Foi ele quem melhor formatou o gênero de forma diversa, dando um tom mais falado e até mesmo mais ousado às suas gravações com o lançamento de Original Pirate Material, em 2002.

Eis que uma hora o fim chega, e Skinner já vinha anunciando isso antes de lançar seu trabalho derradeiro pelo The Streets, o Computers and Blues. O som é essencialmente industrial: o rapper conseguiu colocar um tom cibernético em suas rimas com muito funk e disco. “Without Thinking” ilustra isso, fazendo uma mescla esquisita entre os diferentes ‘futurismos’ de Funkadelic e Radiohead.

E, se as bases soam interessantes o suficiente, são as composições filosóficas que dão maturidade e, ao mesmo tempo, insolência ao seu trabalho. “You can’t Google the solutions to people’s feelings” (anarquicamente: “Você não pode usar o Google para solucionar os sentimentos das pessoas”), da faixa “Puzzled By People”, critica não só as tendências digitais, mas o afastamento do ser humano em contato direto com o outro.

The Streets: “Puzzled By People”

Os duetos com vocais femininos também contribuem para tornar Computers and Blues um grand finale urbano de referência. “Roof Of Your Car” soa como um remix com o refrão eletrônico; e “Lock The Locks” traz Claire Maguire em um momento fabuloso, com um funk de fundo de atiçar os ouvidos. É a faixa que encerra o disco – e com muito louvor.

Inevitável mesmo são as comparações com os trabalhos anteriores. Enquanto Original Pirate Material tratou de selar a revolução no hip hop britânico e A Grand Don’t Come To Free fez questão de mostrar o vigor de Skinner, Computers and Blues, o quinto álbum do The Streets, soa nostálgico e menos incisivo que os primeiros álbuns. Mas tem um acabamento mais inovador, provando que Skinner tem habilidade o suficiente para unir sons revivalistas da década de 70, como jazz, R&B e funk, com rimas ligeiras, infladas e até mesmo melódicas (vide o belo contraponto entre o peso das batidas e os arranjos espaciais com vocais femininos em “Soldiers”).

The Streets: “Soldiers”

As guitarras se fazem presente na maioria das canções, pelo menos nos instrumentais mais notáveis, como “We Can Never Be Friends”, que poderia muito bem ter uma produção assinada por Jay-Z. Aliás, a influência do rapper americano é praticamente evidente: responsável por conseguir unir com sucesso rimas pesadas com solos incandescentes de funk e P-funk, o espectro de Jay-Z também paira em faixas como “Going Through Hell” (lembra “99 Problems”) e “Try To Kill M.E.”.

The Streets: “Going Through Hell”

Uma das melhores do disco, “Trust Me” dá o tom adequado de encerramento: “So much stuff and many people/The future is not evil/The future is not fish and it’s simple, it’s efficient” (“Tanta coisa e tantas pessoas/O futuro não é desastroso/O futuro não é um reforço e é simples, é eficiente“).

Talvez desastroso mesmo é ter a plena certeza de que o hip hop está órfão de mais uma de suas mentes criativas.

Melhores faixas: “Going Through Hell”, “Puzzled By People”, “Soldiers” e “Trust Me”.

Para ouvir o álbum Computers and Blues na íntegra, visite o site do Guardian.