
Fabrizio Moretti (baterista), Nikolai Fraiture (baixo), Julian Casablancas (vocais), Albert Hammond Jr. (guitarra) e Nick Valensi (guitarra). Foto de Chad Batka, para o New York Times
The Strokes – Angles




Chega a ser injusta a relação dos ouvintes com os Strokes. Por eles terem trazido de volta a energia do rock de garagem em 2001, com o lançamento de Is This It, sempre se espera muito por cada novo trabalho. Criou-se uma necessidade de depositar na banda de Julian Casablancas todas as esperanças para o rock’n roll.
E isso é injusto não apenas com os Strokes, mas com todas as demais bandas que fazem o possível para manter acesa a chama de um ritmo que provavelmente está longe de morrer. E aqui cito explicitamente grupos como Queens Of The Stone Age, The White Stripes e Arcade Fire, que dão motivos de sobra para que o rock ainda seja reverenciado nos dias de hoje – cada um à sua maneira, é claro.
Os próprios membros dos Strokes já devem estar cansados disso. Desde 2006, quando lançaram aquele que foi considerado o pior trabalho dos Strokes, First Impressions Of Earth, os membros entraram em comum acordo que era hora de dar um tempo. E esse hiato foi a grande causa de toda a expectativa gerada para Angles.
Em essência, o álbum é musicalmente muito bom. Os acordes iniciais de “Machu Pichu” já mostram a vontade do grupo em experimentar outros ritmos – neste caso, o reggae para um lado mais pop. Claro que chega o momento em que os riffs de Nick Valensi fazem rememorar os áureos tempos de “Reptilla”.
De qualquer forma, as experimentações dos Strokes sempre terão um apelo pop. E essa característica do grupo é que dá sustentação ao trabalho já que, com o passar dos tempos, praticamente todos os integrantes da banda participaram de projetos paralelos ou lançaram álbuns solo, como o Phrazes For The Young (2009), de Julian Casablancas, e a formação do trio Little Joy, de Fabrizio Moretti (baterista dos Strokes), Rodrigo Amarante (Los Hermanos) e Binki Shapiro.
Em alguns momentos, parece que a banda dá impulsos contidos, sempre com o cuidado de deixar claro para os ouvintes que ali está os Strokes. Se viajassem demais, provavelmente seriam rechaçados por destruir ansiedades; se tentassem ambientar novamente o vigor de Is This It, seriam criticados pela falta de criatividade. Ponderar isso tudo é a grande receita de sucesso de Angles.
A maturidade da banda fica evidente nas faixas em que eles decidem inovar mais: a guitarra crua de “Gratisfaction” revitaliza a pegada country, “Metabolism” finca o pé nos anos 80 com a voz mórbida de Casablancas em segundo plano diante da guitarra rítmica de Albert Hammond Jr. (criando uma similaridade evidente com o Joy Division) e, em “Two Kind Of Happiness”, os Strokes conseguem contrapor a música eletrônica com os riffs sujos de Hammond. Mas a melhor faixa do álbum fica para “Life Is Simple In The Moonlight”, que vai por um lado mais melódico e encerra o disco de forma bonita.
Antes do álbum vazar pela internet, o guitarrista Nick Valensi chegou a falar em entrevista para o site Pitchfork que o processo de gravação de Angles foi terrível. “Trabalhamos de maneira fraturada, não havia vocalista [no estúdio]”, disse Valensi, contando que Casablancas gravou os vocais separados do restante da banda, fazendo de Angles um disco praticamente artificial. “75% do álbum foi realizado de maneira conjunta, e o restante foi deixado pendurado, como se nós fôssemos pegando as peças para tentar finalizar um quebra-cabeça”, concluiu.
Tendo em mente que toda a dinâmica que envolve Angles – conflitos, exigência, o fator esperança dos fãs e da crítica -, dá pra dizer que os Strokes entregaram o melhor álbum desde o debut. Valensi disse que a banda ainda vai gravar o melhor álbum, mas não sabemos se é bem isso que Casablancas também quer. Vai chegar uma hora que a fonte dos Strokes vai secar, principalmente se ainda prevalecer a eterna associação a Is This It, que pesa a cada álbum lançado. Particularmente, considero que Angles será a última melhor coisa lançada pela banda.
Ouça na íntegra o álbum:
Melhores Faixas: “Under Cover Of Darkness”, “Gratisfaction” e “Life Is Simple In The Moonlight”.
