
10. Sou Suspeita Estou Sujeita Não Sou Santa
Anelis
Gravadora: Scubidu Records
Gênero: MPB
Texto: O sangue musical do sobrenome Assumpção escorre nas veias de Anelis
Anelis Assumpção conseguiu finalizar este disco com parte da renda que obteve com a comercialização da excelente Caixa Preta, do seu falecido pai Itamar. E ele aparece logo na primeira faixa, como se estivesse abençoando os passos da filha em “Mulher Segundo Meu Pai”: ‘Mulher é o que deus quiser/Às vezes quer uma flor/Às vezes, só cafuné’. As 17 canções do disco não são exagero algum nesse mergulho de intensidade: Anelis é lúdica (“Luz nos Meus Olhinhos”), feminina (“Bola com os Amigos”), cheia de autoestima (“Amor Sustentável”) e até nos convida ao seu jardim de sutilezas na sequência “Secret” (mandando um bom inglês) e “Neverland”. Seguindo no revival do afro-beat que fincou os pés na música paulistana, Anelis foi bem direta: na faixa “Sonhando”, ela sampleia Fela Kuti e divaga, divaga tanto, que você acaba cedendo a mão nessa bela viagem. O time de músicos é de primeira: Bruno Buarque na bateria e Mau no baixo (os mesmos que tocam com Karina Buhr). Sem falar nas participações de Bocato, Curumin, Beto Villares, Gustavo Ruiz e muitos outros.
Faixa: “Passando a Vez”

9. Memórias Luso-Africanas
Gui Amabis
Gravadora: Independente
Gênero: MPB
Texto: Resenha do Soma Mais
O renomado produtor Gui Amabis chamou um monte de músicos também renomados da cena brasileira para revisitar seus antepassados lusitanos. Se é carma ou apenas uma bela lembrança, fica do seu entendimento da canção “Dois Inimigos”, que abre o disco: ‘Sou dois inimigos em um só/E a batalha continua franca e aberta/Só que trava na goela’. O melhor de tudo é que todos cantam com uma liberdade de como estivessem gravando seus próprios álbuns. Criolo mostra que sua voz cabe muito bem numa produção obscura em “Orquídea Ruiva” e constrói muito bem a imagem de um caboclo narrador dos tempos de escravidão feudal na melancólica “Para Mulatu”. Céu, esposa de Amabis, canta em três faixas. Mas o vocal feminino de Tulipa em canções como “Sal e Amor” e “Ao Mar” são as que casam melhor com as programações em desalento de Amabis. “O Deus que Devasta mas Também Cura” é um retrato da difícil realidade brasileira por conta da instauração lusitana no passado. Memórias… é um sonho perturbado que, ao mesmo tempo, é incômodo e encantador.
Faixa: “O Deus Que Devasta, Mas Também Cura”

8. Samba 808
Wado
Gravadora: Independente
Gênero: Samba
Texto: Resenha da Playboy
Baixe pelo site oficial
Wado é underground até o osso. Nascido em Santa Catarina e radicado no Maranhão em Maceió (Alagoas), o músico deu um tom peculiar ao samba mais uma vez, contornando todos os clichês não só do gênero, mas também com as possíveis misturas que poderiam se casar com o samba. Samba 808, um disco todo Wado, foi lançado exclusivamente em formato digital. Até a arte do bebê solto ao branco é coisa dele. O álbum conta com diversas participações, só que os ilustres Zeca Baleiro, Marcelo Camelo, Chico César, Curumin, entre outros, entram de alguma forma no balanço do Wado. A grande novidade aqui é o uso do sintetizador TR-808, uma das primeiras parafernálias eletrônicas da música, que simula sons de bateria. “Com a Ponta dos Dedos”, canção de amor que conta com a parceria do casal Camelo-Mallu Magalhães, é quase uma serenata transgressora, negligenciando o violão como aparato essencial de poeticidade. É eletrônico e é samba. Mais que isso, é um passo adiante de Wado.
Faixa: “Com a Ponta dos Dedos”

7. Chão
Lenine
Gravadora: Universal
Gênero: MPB
Texto: Crítica da Rolling Stone
Segundo Lenine, “chão é aquilo que te sustenta”. É a nossa superfície, a nossa base. A partir dessa simbologia, ele trouxe na ilustração da capa de seu novo disco a imagem de seu neto Tom deitado, com ele ao lado, numa luz chiaroscura que lembra pinturas Renascentistas. “O chão quando foge dos pés, tudo perde a gravidade”, canta o pernambucano na faixa-título. Em menos de 30 minutos, vemos que as 10 faixas são amarradíssimas, com referências trovadoras que sempre caracterizaram a música nordestina. “Se Não For Amor, Eu Cegue”, por exemplo, é levado por teclados e sintetizadores que reforçam a poeticidade da canção. Os temas de amor não são nada óbvios: mesmo em uma canção tomada pela musicalidade de um pássaro como “Amor É Pra Quem Ama”, Lenine, formado em Química, fala de ‘soma’, ‘matéria-prima’ e a ‘cura’ nos primeiros versos. Mas a natureza da canção é tão estupenda, que aos poucos ela cai para ‘saúde’, ‘terno’, ‘eterno’, ‘insano’. Vale frisar que há um contraponto aqui: o som de Chão não é totalmente acústico – é levado apenas pelo violão, guitarra, órgãos e sintetizadores. Ou seja, não tem o pulso percussivo, que é preenchido pela síncope nos violões.
Faixa: “Seres Estranhos”

6. Sonhando Devagar
Kassin
Gravadora: Coqueiro Verde
Gênero: Neotropicalismo
Texto: Crítica Rolling Stone
Kassin é um produtor cotado e renomado, mas deixou toda essa responsabilidade de lado na gravação de seu primeiro disco solo. Nesse sonho devagar, há muita indulgência. Tem aquela calmaria têmpera do Rio de Janeiro em faixas como “Mundo Natural” e “Potássio”, mas, se você ainda não ouviu o disco, não caia no truque das duas primeiras canções. Elas são apenas uma descontraída introdução de uma jam libertina. Kassin deixou-se levar por suas divagações tanto na sonoridade, como nas composições. Depois que ele não consegue entrar em contato com a amada em “Fora de Área”, fica ébrio e se entrega à dança em “O Que Você Quiser”, como se a bebida estivesse fazendo efeito a partir da quarta canção. “Lin Quer” é mais lisérgica ainda, pontuada por órgãos psicodélicos. O absurdo começa a tomar conta de Sonhando Devagar a partir de “Quando Você Está Sambando”, onde Kassin expõe sua virilidade através de uma interminável alucinação que só vai terminar após a última batida de “Sorver-te”, última música do disco. Um universo esquisito e imprevisível que é complementado por um óculos 3D na versão física. Aqui, ‘devagar’ tem o real sentido de ‘divagar’.
Faixa: “Calça de Ginástica”

5. Crônicas da Cidade Cinza
Ogi
Gravadora: 360º Records
Gênero: Rap
Texto: Crítica Na Mira do Groove
Encontre pelo site do Laboratório Fantasma
O melhor disco conceitual brasileiro do ano é retrato do cotidiano de muita gente que mora em uma cidade grande como São Paulo. Sem regionalismos e trejeitos bairristas, o rapper Ogi fez uma crônica repleta de capítulos interessantes desse ‘gigante’: “Já sou veterano, conheço as arapucas”, revela em “Profissão Perigo”. Nem por isso ele está imune às reviravoltas. Arruma um barraco daqueles que todos param para assistir em “Zé Medalha”, mostra uma alternativa viável para contornar a tendência para o crime em “A Vaga” e cai nos excessos das drogas e do álcool numa festa em “Eu Me Perdi Na Madrugada”. São 19 canções no total, mas Ogi poderia ter escrito muito mais. Com a experiência de quem já andou por todos os cantos da cidade, ele mostra que há tantas imprevisibilidades e tantas surpresas (boas e ruins), que uma vida não é o bastante para descobrir tudo que uma megalópole esconde. Ele fala também de discrepâncias sociais, mas isso é um tópico recorrente que entra naturalmente na trajetória de um homem simples.
Faixa: “Zé Medalha”

4. Longe de Onde
Karina Buhr
Gravadora: Coqueiro Verde
Gênero: Rock/MPB
Texto: Crítica Na Mira do Groove
Karina foi mais longe no segundo disco de sua carreira solo. Deixou-se levar por seu instinto inquieto e caiu para o rock’ n roll. Nada mais natural: afinal, no time de músicos, os excelentes guitarristas Edgard Scandurra e Fernando Catatau dão todo o suporte para que ela surte a hora que quiser, seja nos estúdios ou seja nos palcos. Para complementar, Bruno Buarque (bateria) e Mau (baixo), produtores do disco, são peças-chave cruciais para formar o clima metafórico das excentricidades de Karina. (Ah, Guizado também toca trompete nos shows.) “Carapalavra” é puro rock’n roll: direto ao ponto, um porrete na cuca. “Guitarristas de Copacabana” é indiscreta e quase punk. Ela até cai para o funk em “Cadáver”, onde liga ‘sanidade’ e ‘estômago’. O clima irônico e quase sutil de Eu Menti Pra Você também ressurge em “A Pessoa Morre” e “Não Me Ame Tanto”. Em “Cadáver”, ela diz que o tempo passa ‘e suas qualidades vão sumindo’ – só que, com Karina, essa lógica é totalmente invertida.
Faixa: “Carapalavra”

3. Lira
Lirinha
Gravadora: Independente
Gênero: Rock/Manguebit
Texto: A psicodelia do agreste visita o porão do Velvet Underground
Encontre pelo site oficial
“Sistema Lacrimal”, uma das faixas deste disco, te faz pensar profundamente sobre o que Lou Reed faria se um dia visitasse o agreste nordestino. Você olha para aquele céu seco e vê um abutre pairando, procurando a próxima carniça a decepar. O verso ‘quando a dor bater’ é sinônimo de pungência, algo iminente na pele de quem sofre ou tem que viver com o calor. “Adebayor” conta com a última contribuição musical de Lula Cortês, que faleceu neste ano: ele toca tricórdio, instrumento que inventou. No primeiro álbum solo do ex-vocalista do Cordel do Fogo Encantado, gente boa como Otto, Jorge Du Peixe (Nação Zumbi), Bactéria (Mundo Livre S/A) e Neilton (Devotos) são meros coadjuvantes de um narrador criativo que tem muitas fábulas para contar. Pupillo, que produziu quase todas as músicas, inspirou-se no Velvet Underground tanto no clima misterioso das faixas, como na forma de tocar – seca que nem Sterling Morrison. Incrível como um disco de 12 faixas mudou os rumos para melhor de um artista promissor de nossa música. Arrisco dizer que Lira é melhor do que qualquer disco do Cordel.
Faixa: “Ela Vai Dançar”

2. Um Labirinto em Cada Pé
Romulo Fróes
Gravadora: YB Music
Gênero: Samba
Texto: Entrevista Scream & Yell
Ele poderia ser só sambista, ser só rapper ou ser só cantor de MPB. De repente, conseguiria destaque num destes nichos. Mas Romulo Fróes é tudo isso, e o mérito não vai apenas para suas habilidades vocais. As composições (muitas em parceria com Nuno Ramos) são daquelas que te obrigam a escutar mais de uma vez para entender o sentido. Romulo trouxe uma nova abordagem ao samba, algo necessário há muito tempo. Não que ele tenha uma voz excepcional ou seja agraciado pelo ‘deus da Guanabara’ que ele cita em “O Filho de Deus”. Ele tampouco é um liquidificador ambulante que une estéticas musicais para chegar a um estilo só. Na minha opinião, Romulo é um músico que dá certeza àquela famigerada declaração de Vinicius de Moraes: ‘São Paulo é o túmulo do samba’. É o túmulo de um funeral estupendo, como a ressurreição de Cristo. A morte é algo natural, já dizia Nelson Cavaquinho; agora, se ela é uma possibilidade de melhora, que tal melhorar?
Faixa: “Boneco de Piche”

1. Nó na Orelha
Criolo
Gravadora: Oloko Records
Gênero: Rap
Texto: Crítica Na Mira do Groove
Lembro que estava no Facebook quando me deparei pela primeira vez com “Subirusdoistiozin”. Aqueles scratches iniciais de Daniel Ganjaman e a crônica de Criolo, que ganhou importância maior com os sopros econômicos de Thiago França no sax, deram um nó na minha orelha. Me perguntei: ‘isso é rap?’ E li a reportagem que o Pedro Alexandre Sanches escreveu para o iG. “A intenção rap não foi embora. A atitude vai sempre existir”, afirmou o músico. Entre o brega de “Freguês da Meia-Noite”, o samba de “Linha de Frente”, a ode amorosa de “Não Existe Amor em SP” e o afro-beat de “Mariô”, existe um ponto de ligação: as temáticas ligadas aos acontecimentos na periferia. Criolo superou os obstáculos existentes no gênero e se trancafiou no estúdio com Ganjaman e Marcelo Cabral. De todos os choques que o rap poderia ter, o MC decidiu transformar em música. Apesar de caminhar por outras estradas, o rapper deu um passo a frente nas propostas de mudanças que já vinham com Kamau, Pentágono, Emicida etc. Criolo provou que o rap pode dialogar com o ritmo que quiser: basta ter gingado, boas composições e, claro, um bom staff, como é o caso de Nó na Orelha. Há tempos não me surpreendia tanto com um disco nacional.
Faixa: “Mariô”
***
Parte 1: (30-21)
Parte 2: (20-11)
Confira também:
• As 100 Melhores Músicas de 2011;
• Os 50 Melhores Clipes de 2011;
• Os 50 Melhores Álbuns Internacionais de 2011.
