
Racionais MC’s: Mano Brown, KL Jay, Edy Rock e Ice Blue
Que os Racionais foram um divisor de águas no hip hop nacional, disso não há dúvidas. Eles bateram de frente contra as impunidades do sistema, denunciaram a negligência da sociedade com os moradores de periferia e traçaram um retrato do país e da capital paulistana longe dos centros urbanos com grande afinco, com a voracidade de quem vivencia na pele as destrezas de uma realidade excludente.
Na verdade, os Racionais tiveram um divisor de águas mesmo em sua carreira artística. E o principal responsável por isso foi o álbum Sobrevivendo no Inferno, lançado em 1997. Foi nesse trabalho que o sucesso estrondou; do playboy nadando em grana ao miserável que enfrenta a vida nas ruas para comer um pão em casa, os Racionais foram ouvidos por todas as classes, por todos os elementos que compõem a escala da sociedade.
Um fator que contribuiu fortemente para que isso acontecesse foi a incorporação do videoclipe “Diário de um Detento” na programação da MTV. Ali, Mano Brown mostrou a todo o Brasil a realidade dos presídios como se estivesse na pele de um presidiário, relatando as angústias (“Mato o tempo pra ele não me matar“) e o pessimismo que toma conta da vida de quem vive atrás das grades (“Minha vida não tem tanto valor/quanto seu celular, seu computador“).
Sobrevivendo no Inferno é um avanço diante do trabalho anterior, Raio X Brasil, lançado em 1993. Mesmo com o sucesso de “Fim de Semana no Parque”, que mirava os olhos para as crianças carentes e pode ser considerada uma grande influência para os jovens favelados; ou “Homem na Estrada”, que parte para um relato em primeira pessoa, pontapé inicial das melhores letras que Mano Brown já escreveu, o álbum evoluía da denúncia de um sistema falho para uma jorrada de acontecimentos drásticos que abalam o ambiente periférico. A partir daqui, Racionais trocou o grosso modo de escancarar de forma revoltada a realidade das ruas para demonstrar com precisão o pensamento do jovem que mora na periferia.
E é aí que a música dos Racionais provoca um efeito mais profícuo musicalmente. A mensagem torna-se mais eficiente, o playboy percebe como a realidade é dura e o favelado traça um paralelo de como a questão social o incomoda. Por isso mesmo o Racionais é ambíguo. Porque ele deixou de interpretar à sua forma o conceito de exclusão e passou a incorporá-la justamente para provocar o pensamento reflexivo. Ou mesmo equívocos.
“Eu Tô Ouvindo Alguém me Chamar” talvez seja o maior exemplo disso. KL Jay cria um clima sinistro pra música, tirando a base de “Charisma”, um R&B visceral de Tom Browne. E Mano Brown narra uma história como se estivesse sentado numa mesa de bar, rememorando as intempéries de quem ingressa no mundo do crime.
Muitas músicas desse álbum se tornaram clássicas. A introdução polêmica de “Capítulo 4, Versículo 3″ (“60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial“) mostra que, mesmo 100 anos depois da abolição da escravatura, os negros ainda estão distantes de conquistarem os melhores cargos. E é esse fato que suscita numa violência generalizada que dá margem para mais preconceito.
As ramificações da pobreza e da miséria se estendem: de moleque drogado que é obrigado a sobreviver nas ruas (“Mágico de Oz”) ao príncipe da favela que esbanja simpatia com suas conquistas econômicas, como moto e dinheiro (“Qual Mentira Vou Acreditar”), o tema não muda: preconceito. Isso porque é uma praga que deteriora a possibilidade de integração racial e social no país. Essa é a bandeira que o hip hop assumiu e que os Racionais moldaram em sua melhor forma: o relato de um Brasil sob o viés da miséria. Isso está intrínseco e precisa ser escancarado. E Sobrevivendo no Inferno, certamente, é o maior documento desse legado.
* Texto originalmente escrito no blog O Atemporal.
Para ouvir o álbum na íntegra, visite a Rádio UOL.
