Slayer: Tom Araya (baixo e vocal), Jeff Hanneman (guitarra), Kerry King (guitarra) e Dave Lombardo (bateria)

O metal é, em tese, um dos gêneros musicais que mais sofre preconceito. Sempre associado aos coturnos de guerra, camisetas pretas, bebidas e drogas pesadas, bate-cabeças e outras atitudes execráveis, o ritmo muitas vezes é dissociado da música como um todo. Tirando o Metallica, que sempre recebeu atenção dos holofotes midiáticos, desde os anos 80 a dinâmica funciona assim: álbum de metal é sempre mais do mesmo.

Talvez os fãs até gostem disso: não se veem ‘invadidos’ por comentários depreciativos de jornalistas, que se dizem especialistas e não se sentem compelidos a se aprofundarem ao escrever sobre um disco de heavy metal. Isso era bem mais acentuado no ano de 1986, período em que o Slayer lançou seu trabalho mais admirado até hoje, Reign In Blood.

E, olha só, quem acolheu os metaleiros naqueles tempos difíceis foi ninguém menos que Rick Rubin, figura única que tinha acabado de fundar a Def Jam, gravadora dedicada ao hip hop que estava florescendo naquele momento. O Slayer já tinha em sua discografia os pesadíssimos Show No Mercy e Hell Awaits. Rubin aconselhou que o melhor a se fazer era condensar o som dos caras, investindo na tonelada sonora típica do grupo em canções mais curtas, breves, urgentes: como se fosse um clamor, algo que estava intalado e que teria que sair de uma vez.

Com menos de 30 minutos de duração, Reign In Blood é permeado por riffs velozes, uma bateria incandescente com os fantásticos dois bumbos do baterista Dave Lombardo e temáticas densas, como o relato agonizante das vítimas de Auschwitz durante o nazismo em “Angel of Death”. Os músicos estavam tão inspirados que, alguns meses depois, a Def Jam colocou o riff da canção como base para “She Watches Channel Zero”, do Public Enemy.

A morte também era um tema recorrente no álbum. Em “Altar of Sacrifice”, o Slayer apresenta o trono do satã com uma sonoridade macabra e uma virada de percussão que mais parece o ritual daqueles que realmente presenciaram ou sofreram as intempéries do inferno. É fantasia, mas que causa temor.

“Jesus Saves” começa com uma das melhores jams metaleiras e questiona aqueles que reverenciam um “homem invisível que você deposita sua fé”. E “Reborn” poderia muito bem ser uma canção de hip hop graças aos vocais de Tom Araya, que conseguia unir a agilidade da letra falada com um aspecto gutural e denso – às vezes mais agudo do que grave – que garantiu a unicidade de um dos grupos de metal mais respeitados já existentes.

Slayer: “Reborn”

A mais conhecida do álbum, “Raining Blood” é dividida em dois tempos: na primeira parte, é quase que uma extensão das demais canções, com a velocidade de um raio. Depois, dá lugar a uma sonoridade sinistra e psicodélica que, de certa forma, tem algum paralelo com o progressivo. A bateria de Lombardo causa grande impacto na dinâmica de solos dos guitarristas fundadores do grupo, Jeff Hanneman e Kerry King. A faixa é atípica por buscar um lado mais melódico, mas não menos pesado: a jam session metaleira dos segundos finais da canção fecham o disco com chave de ouro.

Slayer: “Raining Blood”

Ainda hoje o Slayer continua na ativa e fãs deliram quando canções de Reign In Blood entram para o setlist das apresentações do grupo. Também pudera: sem frescura e despudoradamente, de forma explícita,o álbum é uma afronta direta, rápida e incisiva contra o establishment.