Gravadora: Matador
Data de Lançamento: 3 de junho de 2014
Se uma banda de hardcore faz um som pesado, com guitarras em chamas e vozes guturais, o que pode dar errado?
Teorizando assim fica difícil, mas o erro é a impressão que fica ao ouvir o novo disco do Fucked Up: Glass Boys.
No portentoso David Comes to Life (um dos melhores discos de 2011), a ideia de ópera-rock superou as expectativas por não tratar o conceitual com rigor e seriedade. Acompanhando ou não a jornada de personagens fictícios, tínhamos um dos grandes discos de hardcore da década.
As jornadas temáticas, por sinal, já se tornaram usuais no currículo da banda: desde 2006 eles se comprometem a lançar um trabalho correspondente ao Ano Chinês (para este 2014, Year of the Dragon). Foi esse ciclo que levou o vocalista Damian Abraham a sugerir mais um disco conceitual, algo que o guitarrista Mike Haliechuk demoveu na hora com o apoio dos demais integrantes.
Portanto, Glass Boys é o disco em que o Fucked Up retoma a normalidade das coisas. E, por contraditório que possa parecer, o que deveria ser um frescor não obteve um resultado ‘natural’. Usar o resultado bem-sucedido de David Comes to Life como fórmula soou desconexo na proposta deste disco.
Isoladas, faixas como “Sun Glass” e “Led By Hand” não devem em nada ao que os canadenses fizeram em mais de uma década de carreira. O que antes aparecia como novidade, agora aparece como identidade, o que justifica os achados distintos de guitarra e bateria que formam o combo do Fucked Up (vide “The Art of Patrons” e “Paper the House”).
Mas o disco não passa do ‘cumprir tabela’. Mesmo quando se presta atenção no que canções como “The Great Divide” têm a oferecer, não extraímos nada de novo.
Numa análise grossa, avaliar Glass Boys de forma diferente de qualquer outro álbum do Fucked Up parece um exercício desnecessário. Não mudou muita coisa de três anos pra cá, mas o propósito e a forma com que encaramos a musicalidade de determinada banda muda com o passar dos anos.
O Fucked Up não quer e nem precisa envelhecer, mas estar indiferente ao tempo interfere no significado que Glass Boys tem para o ouvinte.
O que antes era novidadeiro continua instigante, mas a forma com que as 10 faixas são conduzidas nos levam a um enjoo rápido. As guitarras parecem as mesmas, a bateria varia pouco e os urros de Abraham parecem perder o sentido com o avançar do disco.
Não há mais o ‘conceito’ para prender a atenção também – portanto, encarar um álbum desses com superficialidade não é um pecado tão grave.
