Aproveitando que o Lou Reed vem dar uma passada aqui no Brasil, deixo um post especial sobre um de seus álbuns mais conhecidos, Transformer – que deu grande impulsão para a carreira solo do poeta urbano de Nova York.

Lançado em 1972, o álbum já demonstrava a grandiosa capacidade de Lou de dar um toque pessoal às crônicas urbanas, relatando um universo bem negligenciado pela sociedade americana na época: o difícil modo de vida dos travestis, prostitutas, viciados pelas madrugadas…

Com o Velvet Underground, Lou já trazia essa atmosfera fugindo de toda a sonoridade psicodélica que estava em voga no fim dos anos 60. Não à toa, é considerado até hoje o padrinho do punk por romper com a tendência sonora dos longos solos, letras viajeira e canções com mais de 10 minutos.

Apesar de Transformer não ser especificamente o disco que marcou essa ruptura, é responsável por expor o artista na sua forma mais inspirada e poética.

“Vicious” abre o disco com um riff inconfundível e grandes incursões sonoras que lhe garantiram o posto de um dos maiores guitarristas de todos os tempos pela Rolling Stone. A letra? Uma tentativa de fugir da obsessão do prazer carnal.

Criando um clima soturno com o baixo de Herbie Flowers, “Walk On The Wild Side” tornou-se o maior hit da carreira solo de Lou Reed e até hoje é sintonizada nas rádios de forma vívida. O violino dá um peso à canção que fala de sexo de forma quase explícita em uma linguagem urbana, como se fizesse o retrato daquilo de mais podre que havia em Nova York. (“In the backroom she was everybody’s darlin’/But she never lost her head/Even when she was giving head/She says, Hey babe, take a walk on the wild side” [“No quarto dos fundos ela era a querida de todo mundo/Mas jamais perdeu sua cabeça/Mesmo quando estava dando a cabeça/Ela disse, hey, vamos dar uma volta pelo lado selvagem].)

David Bowie, que estava com a carreira em ascensão e ajudou a produzir o álbum, afirma que Lou Reed foi um dos artistas que mais lhe serviram de influência, principalmente após Transformer. Quando ainda era membro do Velvet Underground, Lou queria que o público extraísse a mensagem de suas composições, mas sentia-se barrado pela obsessiva preocupação estética do empresário Andy Warhol.

Ainda que fosse considerado um dos maiores grupos de rock já existentes, o Velvet era sustentado por uma guerra silenciosa de egos entre Lou e o multiinstrumentista John Cale, além da intromissão de Nico imposta por Warhol nos primeiros álbuns da banda. Com a saída de John em 68, e o abandono por conta de Lou, em 1970, o Velvet acabou indo pro ralo. “I’m So Free”, penúltima canção de Transformer, sela o alívio de Lou por estar livre de algo que limitava sua criatividade como artista. Sem depender de praticamente nada e quase ninguém, Lou se jogou para o mundo.

Se por um lado os Velvets sofriam com as baixas vendas de seus álbuns, David Bowie não hesitou em acionar seus contatos mais quentes para disparar Transformer para as rádios. Numa época boa do mainstream, faixas como “Perfect Day”, “Satellite of Love” e “Hangin’ Around” tinham potencial de sobra para grudar nos ouvintes. Eram tocantes, tinham um certo apelo comercial pela melodia muito bem arranjada e também eram dançantes – atributos básicos para os olhares esbugalhados dos managers.

Lou Reed ainda gravou muitas outras pérolas (outras nem tanto, como o horrendo Metal Machine Music) durante sua prolífica carreira solo, como Berlim (1973), Rock’n Roll Animal (1974), The Bells (1979) e New York (1989). O blogueiro e escritor Luiz Biajoni escreveu, há um bom tempo atrás, um post comentando os melhores trabalhos do Lou. Vale a pena conferir!

Ouça, abaixo, as principais canções de Transformer:

Lou Reed: “Vicious”

Lou Reed: “Andy’s Chest”

Lou Reed: “Perfect Day”

Lou Reed: “Walk On The Wild Side”

Lou Reed: “Satellite of Love”