
10. Superimpositions
Gravadora: Boomkat Editions
Gênero: Eletrônica IDM
Data de Lançamento: agosto de 2014
Adquirir via Boomkat
Superimpositions é eletrônica que explica a metafísica. O produtor italiano e cabeça do selo Presto!? é interessado por tais concepções há um bom tempo, mas nesta que se firma como sua grande obra-prima, do conceito de tempo pontilhista à incrível capacidade de subverter música e ideia (“xxx1”), Lorenzo Senni não precisa fugir do aspecto dançante e rítmico da eletrônica. Superimpositions desperta intriga em pouco mais de meia-hora de duração, com criatividade exuberante. Por mais que o ritmo se fragmente cada vez mais nos meios experimentais, com Senni a eletrônica permanece seguramente como um gênero que funciona como campo aberto. Se as limitações de ritmo, compasso e timing existem, isso não é motivo para reduzí-la a meros barulhos atrativos apenas nas pistas de dança. Superimpositions problematiza a questão; a retórica é mero som.
Ouça: “Elegant, and Never Tiring”

Melvin Van Peebles & The Heliocentrics
Gravadora: Now-Again
Gênero: Psicodélico/Jazz/Experimental/Space-Funk
Data de Lançamento: 7 de outubro de 2014
De um lado, um dos maiores cineastas do Blaxploitation, ousado por unir contravenções sociais e humor em um movimento que ainda hoje desperta paixões. De outro, uma das bandas responsáveis pela consolidação sônica do que se tornou o ethio-jazz, servindo de pano de fundo para as ideias de Mulatu Astatke e tocando com inúmeras outras. Começou assim: Melvin Van Peebles tem interesse pelo que se entende de espacial há um bom tempo. Ao se deparar com uma faixa não lançada pelos Heliocentrics, apresentada pelo produtor Eothen Alapatt, Van Peebles sentiu-se viajar através do som e decidiu mandar, sem aviso algum, uma faixa em que a banda pudesse musicar. O líder Malcolm Catto não apenas gostou da ideia, como quis que se tornasse um álbum completo. O resultado, The Last Transmission, vai além do que ouvintes assíduos de Mothership Connection (1975), Space is the Place (1971) ou Gaz (1978) podem teorizar. Pense no que Jim O’Rourke faria se sua formação viesse da música jamaicana ou africana. Ou como Prince Far I colaboraria se se juntasse a George Clinton no auge de sua psicodelia. The Last Transmission é groovy, pitoresco, sensorial e instigante. Só melhora a cada audição.
Ouça: “Telepatic Routine”

Gravadora: Rune Grammofon
Gênero: Free-jazz/Noise-rock
Data de Lançamento: 30 de maio de 2014
Comparado a Exit, o segundo disco, Enter!, é menos catártico e mais orquestrado, mais matemático. Isso não representa uma ruptura, afinal, quando o trio sueco Mats Gustafsson (sax/piano elétrico), Johan Berthling (contrabaixo) e Andreas Werlin (bateria) pensou na estrutura de um primeiro álbum de estúdio (Exit foi gravado ao vivo), quis fazer diferente. A virtuose de cada um desses músicos desenfreados permanece em evidência, só que em prol de uma sonoridade mais metafísica e menos flamejante (ainda que Enter! não abandone as chamas). A vocalista Mariam Wallentin se destaca por seu contralto profético em takes das duas partes do álbum e conta com o auxílio da etíope Sofie Jernberg e de Simon Ohlsson, seja urrando, grunhindo ou simulando qualquer outra coisa estranha. Gustafsson é o bandleader do grupo que já soma quase 30 músicos, remontando ao histórico momento em que a Jazz Composer’s Orchestra, liderada por Michael Mantler e Carla Bley no meio dos anos 1960, mostrou que o avant-garde poderia ser organizado (ou não?) como uma big band.
Ouça: “Enter (part 1)”

Gravadora: Sub Pop
Gênero: Post-rock
Data de Lançamento: 20 de janeiro de 2014
Os escoceses do Mogwai não oferecem nada de novo em Rave Tapes. Talvez este nem sequer seja seu melhor disco. O cenário cada vez mais pulverizado do post-rock tem demandado mais técnica e precisão de seus representantes. Nisso, o Mogwai não apenas é mestre; no complexo limiar entre melodias e barulhos, Rave Tapes é uma construção sônica que se revela mais coesa a cada audição. “Simon Feocious”, “Hexon Bogon”, “Repelish”: cada uma (re)trabalha as estruturas habituais ao Mogwai com serenidade e maturidade de quem só faz melhor a cada trabalho.
Ouça: “Hexon Bogon”

Gravadora: Bedroom Community
Gênero: Power-ambient/Eletrônica
Data de Lançamento: 26 de maio de 2014
Quer contraponto maior que um músico islandês compor em um laptop na República Democrática do Congo? O resultado haveria de ser surreal; “é como se eu tivesse criado um monstro”, disse Ben Frost em entrevista ao The Quietus. A U R O R A vai além dos termos que remetem à agressividade tão usual da música de agora como um todo. Não é o ambiente em que ele nos coloca que nos choca. É, por outro lado, a interpretação que Frost tem do ambiente que contempla que faz de A U R O R A uma obra impactante, mesmo aos ouvidos mais domesticados com o termo noise. Há pouco espaço para respiração. O disco exala adrenalina pura, como se estivesse em constante choque térmico com toda a entropia daquilo que interage. Ben Frost é um músico experiente: não depende de programas de computador para compor, também é multi-instrumentista. Mas não é a técnica que o norteia no seu denominado power ambient: “O que importa pra mim é a porra do pontapé emocional na bunda que é entregue. Isso é fundamental em todas as decisões que tomo”. A U R O R A é a melhor delas até agora.
Ouça: “Venter”

Gravadora: Young God
Gênero: Dark-ambient/Noise-rock
Data de Lançamento: 12 de maio de 2014
Elementar que um disco tão distinto quanto The Seer (2012) fosse despertar no mínimo curiosidade. Para onde o experiente grupo Swans iria na próxima empreitada? Michael Gira não fez muito mistério quanto a isso: no álbum ao vivo Not Here/Not Now (2013), revelou takes ao vivo de faixas como “To Be Kind”, “Toussaint L’ouverture/Bring the Sun” e “Oxygen”. Mas, quem esperaria que elas fossem ganhar o peso biônico do que foi registrado em estúdio? Potencializado por um combo de quase 10 músicos, To Be Kind centraliza a dureza da vida com uma massa sonora praticamente imbatível. Não há concessões: há faixas que extrapolam os 20 minutos, pancadas impossíveis de assimilar em poucas audições e uma dinâmica infalível, inimitável. Mais de trinta anos após surgir no cenário no-wave, o Swans prova que o tempo está longe de torná-los obsoletos. Aliás, muito pelo contrário: sua importância aumenta a cada disco, a cada batida tensa de suas faixas monumentais.
Ouça: “A Little God in My Hands”

Gravadora: Blue Note
Gênero: Jazz/Hard Bop/Post-Bop
Data de Lançamento: 11 de março de 2014
Ambrose Akinmusire é um trompetista de técnica inquestionável, mas não quer se comparar a gigantes como Dizzy Gillespie ou Chet Baker. A exemplo de Louis Armstrong e Miles Davis, busca mais intersecções musicais – um paradigma ainda maior do que a execução de notas, diga-se de passagem. O terceiro disco do norte-americano de Oakland o coloca na dianteira que merece no jazz. Flertando com folk music (“Asian (Joam)”), fusion-rock (“Vartha”, com solos incríveis da guitarra de Charles Altura) e espécie de ragtime anos 1940 (“Ceaseless Inexhaustible Child”), The Imagine Saviour is Far Easier to Paint é diálogo aberto proposto por Ambrose. Isso pode tirar a coesão ou o que se entende por unidade de um disco. Mas os ganhos são tão vultosos, que quaisquer teorias preconcebidas para avaliar um disco caem por terra diante de uma obra tão maravilhosamente aventureira. The Imagined Saviour… é aquele tipo de som que frustra puristas enquanto, em contrapartida, denota novos caminhos musicais dentro do jazz. O panteão te aguarda, Ambrose.
Ouça: “Our Basement”
Gravadora: Smalltown Supersound
Gênero: R&B/Trip-hop/Pop
Data de Lançamento: 25 de fevereiro de 2014
Há um rol de novas cantoras sugerindo outros caminhos para a soul music, e Neneh Cherry não tá nem aí pra elas. Sem esforço vocal, lançou um dos grandes hits pops renegados do ano: “Out of the Black”, ao lado da conterrânea sueca Robyn. Sem deixar seu lado supersticioso, se impressiona com a volta de um amor passado em “Spit Three Times” e se emociona ao relembrar da morte da mãe em “Across the Water”. Quem comanda a produção do disco é o elogiado Four Tet: sua habilidade de perpendicular sobre a eletrônica favorece o despojo emocional de Neneh Cherry, que engana, confunde, mas ainda assim, nos cativa. Um retorno excepcional de uma artista complexa e cheia de intrigantes paradoxos.
Ouça: “Out of the Black” (part. Robyn)

Gravadora: Mass Appeal
Gênero: Rap
Data de Lançamento: 27 de outubro de 2014
Download gratuito pelo site oficial
Nenhum – repito – nenhum grupo de rap é tão atual como o Run the Jewels. Sem depender da indústria, lançaram o disco para download gratuito com a rapidez de um garoto aficionado pelo Twitter. Como reza a cartilha da independência, criaram seu próprio marketing ao divulgar pacotes alternativos do disco – incluindo uma versão de RTJ2 remixada com barulhos de gatos, já financiado por fãs via crowdfunding – e mantêm-se atualizados com as discussões atuais (para tanto, vide o emocionante discurso de Killer Mike sobre o assassinato em Ferguson). O melhor de tudo é que todo esse pano de fundo pode ser ignorado: RTJ2 é um disco que se sustenta a despeito de qualquer contexto social ou mercadológico. “Oh My Darling Don’t Cry”, “All My Life”, “Lie, Cheat, Steal”, “Crown”, “Blockbuster Night Part. 1”: escolha a pancada que lhe aprouver que o momento há de adequar-se a elas. E vai me dizer que você não tremeu na base quando se deparou com um Zack de La Rocha energético como sempre em “Close Your Eyes (And Count to Fuck)”?
Ouça: “Close Your Eyes (And Count to Fuck)” (part. Zack de La Rocha)

Gravadora: Warp
Gênero: Eletrônico/Fusion-jazz/Hip Hop/Experimental
Data de Lançamento: 6 de outubro de 2014
Steve Ellison está para o jazz assim como o Massive Attack esteve para o soul nos anos 1990. Seu som não é orgânico, mas isso não quer dizer que o próprio jazz não possa ser influenciado pelo notável trabalho do Flying Lotus. O quinto álbum, You’re Dead, é ininterrupta sucessão de arroubos musicais, trilhas caleidoscópicas, instrumentos de inexecutáveis profusões… Caso haja alguma resistência ao que FlyLo pode oferecer, a brecha foi estabelecida. You’re Dead reúne participações de músicos brilhantes: Kendrick Lamar, Snoop Dogg, Thundercat, entre outros, inclusive o lendário pianista Herbie Hancock, provando que a ponte entre o orgânico e o digital pode ser estabelecida sem problemas.
Ouça: “Moment of Hesitation” (part. Herbie Hancock)
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