Gravadora: Interscope/Polydor
Data de Lançamento: 13 de junho de 2014
Determinar os nichos é crucial quando se fala de Lana Del Rey: as mulheres se identificam (ou não); os homens contemplam (ou não).
A diferença é que em Born to Die (2012) a amostra musical de Lana era estritamente pessoal. Não que em Ultraviolence isso tenha mudado: seu semblante é o mesmo e o mundo, para ela, ainda é uma caixinha que acumula sentimentos e decepções.
Cantar sobre a dor tem sido a eterna redenção das divas do século passado. Lana também sente o coração pulsar mais forte quando se fala de relacionamentos e lamenta o passar dos dias em “Sad Girl”, como uma recém-adulta afeita a Billie Holiday.
Mas o incômodo de Lana, quando raro agrada, incomoda. O meio-termo encontrado em Ultraviolence é a presença mais justaposta de guitarras, trunfo que Dan Auerbach conseguiu impor ao disco (após a cantora alegar que teria de rever todo seu conceito musical ao se deparar com o potencial do músico do The Black Keys).
Em “Money Power Glory” a guitarra soa elegíaca, um sopro de vida musical em suas aspirações de garota. “Cruel World” é Lana despida, mostrando que a evolução após “Video Games” é inevitável. Mas Lana parece não querer crescer: ‘Coloco meu vestido vermelho naquela festa/Todos sabem que sou bagunçada, maluca, yeah!’.
Fato é: estamos diante de uma garota congelada na adolescência, que soa mais interessante e derrotista que qualquer outra adolescente que você tenha visto. Essa é a personagem que Elizabeth Grant mantém no pseudônimo Lana Del Rey, com todas as armas de sedução e provocação que lhe levaram ao estrelato (mesmo quando contradiz uma entrevista ao The Guardian, negando dizer que ‘queria morrer’).
Nos circuitos de gente mais ‘velha’ (aka: a partir dos 20) é difícil assumir a relevância de uma cantora como Lana. Ela diz mais sobre a geração dos jovens do que seus dedos no smartphone nos leva a imaginar. Eles querem que a ‘tonalidade bacana’ seja eterna, como fantasia “Shades of Cool”. Não é real, mas é excitante, como transparecem as guitarras da canção. ‘É inquebrável’, diz a cantora.
A grande sacada de Ultraviolence é o renovado poder de convencimento da persona Lana Del Rey. Ela sabe que não é boa nos palcos, sabe que está longe de se comparar a Nina Simone e sabe que tem uma legião de detratores tão extensa quanto de fãs. Despe o universo desejoso pré-adulto como nenhuma outra cantora pop faz atualmente. Para isso, ela não disputa. Recorre à sensibilidade feminina, tão intransponível nessa fase da vida.
Noutras palavras, Ultraviolence mostra um lado feminino tão vulnerável que, quando não nos identificamos, evitamos encarar. Um verdadeiro fundo do poço de sensibilidades, com as particularidades de uma garota que todos sabem que tem muito a crescer e desvendar.
‘Você nunca gostou da forma como eu digo/Se não entendeu, então esqueça/Daí, não tenho que explicar essa droga’. A provocação em “Brooklyn Baby” soa como a patricinha que valoriza mais a atenção do outro que seu modo particular de contextualizar situações. Lana sabe que é bem mais interessante que isso, mas prova que suas artimanhas estão longe do prazo de validade em Ultraviolence.
Sair com o ‘cubano louco’ de “West Coast”, entregar-se profundamente a uma paixão como faz em “Pretty When You Cry” e emular Marianne Faithfull de forma admirável em “The Other Woman” são casos secundários diante de uma ortodoxia que não se pode ignorar. ‘Este é o meu show’, revela em “Fucked My Way to the Top”. Não há frase mais sincera e dilacerante. E não é preciso gostar de Lana Del Rey para entender.
