Gravadora: Mixpak
Gênero: Reggae/Dancehall
Data de Lançamento: 10 de junho de 2014

Dancehall jamaicano não é bem uma novidade, mas a forma límpida com que Popcaan o provoca o distancia dos muitos remanescentes (e jovens estrelas) do gênero. Catalogado como indisciplinado, o jovem de 25 anos bate de frente com quem preciso for (“Number One Freak”) e se diz bastante influenciado por aquele que é considerado o último grande nome do gênero, Vybz Cartel, que cumpre pena de 35 anos pela morte de um promotor e de um traficante. A mais notável característica de Where We Came From é a versatilidade musical; isso vale para as diferentes batidas e produções, que vão da influência dum drum’n bass esfumaçado em “The System” às modernas batidas de hip hop em “Ghetto (Tired of Crying)” – que, mesmo assim, se sustenta pelo vocal de forte identidade jamaicana de Popcaan.

Ouça: “Where We Came From”

Gravadora: Daptone
Gênero: Funk/Psicodélico/Afro-Beat
Data de Lançamento: 21 de outubro de 2014

O funk da Budos Band é bem calcado nos metais. No quarto disco, Burnt Offering, esses metais sintetizaram novas buscas estéticas. Tudo bem, “Into the Fog” é daquelas faixas que não esconde a herança do grupo, mas novas direções são tomadas no fervoroso baile do grupo de Staten Island. “Aphasia” sugere uma apimentada de fusion-rock e “Black Hills” parece formar a trilha de um filme de aventura urbana, adornada pros arranha-céus e ambulantes de cada esquina. Num todo, Burnt Offering atualiza o funk em um século de incertezas e muita fumaça.

Ouça: “Burnt Offering”

Gravadora: What’s Your Rupture? / Mom & Pop
Gênero: Rock alternativo
Data de Lançamento: 3 de junho de 2014

O Parquet Courts é uma banda tão insípida, que nem mesmo o punk eles respeitam. Assim como mentalizara bandas como Butthole Surfers e Wire, o quarteto do Brooklyn faz do subgênero uma ponte para transfigurar o rock com energia de pivete encapetado. Se “Always Back in Town” é o rock’n roll vitrine, “She’s Rolling” é blues fora de qualquer cartilha, “Dear Ramona” é uma manifestação imbecil (proposital) de sentimentalismo e a faixa-título é o inevitável momento do pogo.

Ouça: “Sunbathing Animal”

Gravadora: Daptone
Gênero: Soul/R&B/Funk
Data de Lançamento: 14 de janeiro de 2014

A cada ano que passa, a soul music passa por novas transfigurações estéticas. Na ponta do que é considerado inovador, boa porcentagem é pertencente ao gênero. Por isso, ao seguir um caminho mais tradicional, Sharon Jones segue em contramão. Não que este seja o caminho mais fácil; assim como a difícil trajetória de vida, a cantora de 58 anos carrega o peso sonoro em seus vocais potentes, vibrantes como nunca em faixas como “You’ll Be Lonely” e no funk cabuloso de “People Don’t Get What They Deserve”. A sustentação musical dos Dap-Kings permanece impressionante, mas, diante de uma cantora tão habilidosa como Sharon Jones, a contribuição da banda torna-se secundária. Funciona melhor assim.

Ouça: “People Don’t Get What They Deserve”

Gravadora: Warp
Gênero: Eletrônica IDM
Data de Lançamento: 22 de setembro de 2014

No meio de uma horda de músicos eletrônicos experimentando com rusga distorções e anacronismos estéticos, o retorno de Aphex Twin não é tão notável quanto ele gostaria que fosse. Richard D. James não clama por atenção, mas deixa a mensagem sobrescrita no novíssimo SYRO. As faixas são impronunciáveis, mas os achados musicais são tão valiosos quanto os de discos emblemáticos dos anos 1990, como Selected Ambient Works (1992) e The Richard D. James Album (1996). Como a eletrônica deve reagir diante de mais uma ruptura estética de um de seus principais representantes é algo que desperta interesse daqui pra frente. Talvez tudo permaneça como está; se Richard não se abalar com isso, tudo bem, teremos mais motivos para ficarmos atentos às novas empreitadas no gênero.

Ouça: “minipops 67 [120.2][source field mix]”

Gravadora: Hemlock
Gênero: Eletrônica/Bass/Grime
Data de Lançamento: 24 de fevereiro de 2014

Bass, techno, grime, EDM; lasque-se com os termos. O Untold é espatifado como o porquinho que ilustra a capa. Síntese de uma realidade cada vez mais obscura no campo musical, a eletrônica do projeto de Jack Dunning poderia ser considerada orgânica num mundo distópico e flagelado. Do dub vocal de “Sing a Love Song” à violência no bass de “Hobthrush”, o Untold seria futurístico na perspectiva George Orwell e executável dentro da noção Oneohtrix Point Never. Ao que se chega? Ao momento certeiro, nevrálgico, ao clímax. Black Light Spiral brinca e subverte essas noções, como se fosse pertencente a um contexto que sabemos não existir – mas que não nos surpreenderia se começasse a se moldar.

Ouça: “Sing a Love Song”

Gravadora: Rough Trade
Gênero: Psychfolk
Data de Lançamento: 3 de novembro de 2014

Black Metal sofre daquele estigma de transição do independente para um trabalho em grande gravadora. Mas as coisas são diferentes quando a gravadora em questão é a Rough Trade e quando o artista em questão é Dean Blunt. Os não iniciados em The Redeemer (2013) podem achar que Dean tornou-se mais indie nessa nova empreitada, mas a construção harmônica do disco como um todo foge de qualquer preconcepção desse tipo. As emoções buscam distanciamento – como canta em “Blow” – e não há limites sônicos para a ousadia de um dos mais complexos compositores da atualidade (o shoegaze de “Heavy” quebra qualquer barreira de gênero possível). Da brevidade de “Lush” à elegia que dura exatamente 13 minutos em “Forever”, Black Metal expõe criatividade e contrapontos estéticos numa construção ímpar. Não importa onde esteja, Dean Blunt sabe soar exatamente como ninguém, algo cada vez mais raro com o passar dos anos.

Ouça: “50 Cent”

Freddie Gibbs & Madlib

Gravadora: Madlib Invazion
Gênero: Rap
Data de Lançamento: 18 de março de 2014

Apesar da pouca experiência, Freddie Gibbs tem se mostrado um rapper arguto e sensível, imbuído da austeridade inseparável do hip hop. Piñata é o seu manifesto, conquistado a duras penas. Ele recusou gravadoras, o que deve ter sido espécie de pré-requisito para ter o monstruoso Madlib ao seu lado. Madlib não galga o extremo por aqui; ele sabe fornecer o pano de fundo emocional (Lenny White em “Robes” é certeiro) e reflexivo (“Broken”), mas também sabe o que um gangsta como Gibbs quer em “Bomb” e “Scarface”. Assim, sem a pretensão que tem contaminado o rap de uns 15 anos pra cá, Piñata se sobressai e derruba qualquer um que ouse ficar na frente com a força da naturalidade.

Ouça: “Bomb”

Gravadora: Ninja Tune
Gênero: Eletrônica/Ambient/Experimental/Grime
Data de Lançamento: 22 de agosto de 2014

Pouco se fala sobre o projeto de Kevin Martin, mas quando ele vem à tona, invariavelmente lembra-se do impacto que ele causou com London Zoo (2008). Do dub e grime ao hip hop e rock pesado, suas experimentações sonoras atingiram um novo patamar com Angels & Devils. O disco começa tácito e tranquilão, com bela participação de Inga Copeland (do Hype Williams) em “Fall” e uma voz que alguns citariam como um k-pop estranho em “Mi Lost”, por cortesia de Miss Red. Conforme prossegue, Angels & Devils vai se escurecendo: em “The One”, uma das melhores do disco, a participação de Flowdan é impecável. E, se você quer pancada, aumente o volume em “Fuck a Bitch” (com ninguém menos que o Death Grips no comando) e “Fuck You” (com Warrior Queen). The Bug permanece em torno de sons chapados. O grime, o rap, o eletrônico, o que mais tiver incluso, só sai favorecido.

Ouça: “The One”

Gravadora: Interscope/Polydor
Gênero: Pop/Indie
Data de Lançamento: 13 de junho de 2014

O disco de estreia Born to Die (2012) evidenciou uma persona mergulhada em suas vaidades e futilidades. Ainda que Lana Del Rey intrigue feministas e machões, suas reações diante das vicissitudes da vida são reflexos de desejos comuns. Afinal, quem não quer conforto? Quem não quer se entregar a alguém como se não houvesse amanhã? Quem não quer viver as luxúrias da vida sem culpa? Ultraviolence reitera as vãs buscas de Lana. Decepções e desejos se entrelaçam em sua voz soturna. Os arranjos de guitarra, teclados e efeitos são mais pungentes, abrindo a brecha necessária para que um público mais fechado dê abertura às suas devassidões. Dessa forma, sua sensibilidade vaga ardorosamente em busca de colo – e de ouvidos.

Ouça: “Shades of Cool”