
01 Selva de Pedra 02 Você Não Pode Se Enganar 03 Estrela De Davi 04 Na Rota da Ambição 05 Salve Nego 06 Interludio 07 Aro 20 08 Eu Canto Uq Soul 09 Voltarei Para Você 10 Abrem-se Os Caminhos 11 Interlúdio 12 Gangstar 13 Cava Cava 14 Liberdade Não Tem Preço 15 Não Deixe a Mínima 16 Interlúdio 17 Tá Na Chuva 18 Última Missão 19 Final Feliz 20 Interlúdio 21 That’s My Way 22 Homem Invisível
23 Viver E Deixar Viver
Gravadora: Baguá Records




Edi Rock é um titã do rap nacional, e ele sabe disso muito bem. Junto com Mano Brown nos Racionais MCs, eles se complementaram para detratar, cada um à sua maneira, a exclusão social, a realidade das favelas e a crônica diária que permeia boa parte dos personagens que formam a classe média baixa brasileira.
Muita coisa aconteceu desde 2002, ano do último disco oficial do maior grupo de rap do país (Nada Como Um Dia Após o Outro Dia). Ainda assim, o rap ainda parece carecer de seus maiores patronos. Anos se passam, e o que mais se escuta é samplers e menções a faixas como “Diário de Um Detento”, “Negro Drama” e “Jesus Chorou”.
Quando anunciou há mais de um ano o disco Contra Nós Ninguém Será, Edi Rock de alguma forma preencheu uma lacuna. Veio a música “That’s My Way”, com participação de Seu Jorge, e os comentários foram otimistas: ‘esse disco do Edi deve estar bom!’.
Algumas apresentações em programas de rádio, TV e palcos pelo Brasil afora, finalmente veio o disco. Canções como “Tá Na Chuva” (com participação de Ice Blue) e “Selva de Pedra” (com Helião) já constavam em seus shows, criando uma expectativa ainda maior do trabalho que estava por vir.
E veio. Veio forte, com ares de titã: tal qual um disco de Kanye West ou Rick Ross, Contra Nós Ninguém Será é alicerçado por vários colaboradores que, somados, chegam a mais de quarenta: tem Rael, Flora Matos (“Eu Canto Uq Soul”), Dexter (“Liberdade Não Tem Preço”), Falcão d’O Rappa e Alexandre do Natiruts em “Abrem-se Os Caminhos”, Marina De La Riva (“Voltarei Pra Você”)… E, claro, Ice Blue na já citada “Tá Na Chuva” e Mano Brown em “Homem Invisível”. (E deixei de falar de uma infinidade de outros.)
Esse número grandioso de participações é importante, porque evita que o disco fique cansativo. Nele, Edi Rock passeia pelo dub-reggae, MPB e, claro, rap, com batidas muito bem estruturadas. Ouça “Na Rota da Ambição” e perceba como o rap norte-americano pode ser uma boa influência pro rap de cá. “Gangstar” tem uma base piano-funky para reiterar com força uma posição que muito cai bem aos rappers: ‘instinto de classe nas ruas’ (a música tem participações de André Atila e Thig).
Há muito que se elogiar a produção do disco como um todo, mas há deslizes impagáveis. “Estrela de Davi” é um exemplo: uma das poucas sem participações, nela Edi Rock narra a pequena história de um rapaz que tem um final mais feliz que aquele de “Mágico de Oz”. A base de “Bom Senso”, de Tim Maia, é um grande acerto – mas ela não casa nada bem com a entrada explosiva do cantor. Como se fosse jogada separadamente.
Mais crassa é a opção da batida na romântica “Última Missão”: Edi Rock adota um lado sentimental, mas não deixa de cantar de forma veloz. Se houvesse uma modulação na sonoridade soul, talvez a canção teria melhor encaixe. Karin Hills, do Rouge, acerta ao optar mais pela doçura que pelo exagero vocal. Então, entra Nego Jam, e mais uma vez percebemos que há um desentendimento base versus vocal.
A introdução de “Homem Invisível” promete uma canção grandiosa com o refrão entoado por Lino Krizz e com a imposição vocal de Helião. No entanto, quando entra a rima de Mano Brown (após linhas geniais como ‘Sou pescador de ilusões nos padrões atuais’, de Edi Rock), a base não acompanha as variações na rima. Brown alterna agressividade com a suavidade, e isso não é acompanhado – o que deixa a canção com ares de bagunçada. Ou desperdiçada.
No entanto, em um contexto geral, Contra Nós… tem um número bem maior de acertos que de erros. Difícil não admirar a levada à lá The Chronic em “Salve Nego” (com Don Pixote e Calado), a urbanidade funky de “Selva de Pedra” ou as obscuras participações de Emicida e Don Pixote em “Cava Cava”.
“Liberdade Não Tem Preço”, que faz menção ao retorno de Dexter fora das grades, é uma bela mensagem de superação: ‘Já foi o tempo/O passado sem futuro chegou ao fim’. Em tempos onde se prefere recorrer à truculência que ao diálogo e à educação, a canção mostra que a ‘jaula’ não necessariamente reflete o fim; Dexter é a prova viva de que isso pode ser um belo recomeço: ‘É pela vida e pelo apreço: eu mereço’.
O novo álbum de Edi Rock veio para provar que é possível trilhar novos caminhos no gênero. O número de participações traz uma soma híbrida de peso, pendendo do emocional-reflexivo (“Final Feliz”) ao peso-pesado (“Tá Na Chuva”) sem soar descontínuo.
Tudo bem, a reticência dos Racionais MCs ainda é sentida no cenário rap atual. Mas isso não impede nem um pouco de permitir que cada músico do grupo trilhe caminhos diferentes e, ainda assim, surpreendam. Como fez Edi Rock.
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A seguir ouça Contra Nós Ninguém Será, de Edi Rock, na íntegra:
Melhores Faixas: “Selva de Pedra”, “Na Rota da Ambição”, “Abrem-se os Caminhos”, “Gangstar”, “Liberdade Não Tem Preço”, “That’s My Way”.
