10. Unhas de Novembro

Heitor Dantas

Gravadora: Independente
Gênero: MPB/Alternativo
Texto: Resenha no Hominis Canidae

Tortoacústico emepebístico. Seja qual for a sua nomenclatura para o som do baiano Heitor Dantas, ela tem que ser tão torta quanto a sua música. Pode se pensar em Tom Zé e Arrigo Barnabé ao ouvir Unhas de Novembro, mas a verdade é que o compositor é um dos mais interessantes expoentes de um movimento que alguns podem chamar de ‘MPB torta’. Situando movimentos artísticos da antropofagia de Oswald de Andrade à psicodelia de Lula Côrtes, Heitor Dantas flutua, arranha, batuca, viaja, transpõe… Como se estivesse em um sonho, ele cita de Confúcio a John Coltrane em “Muito Demais”, mais no sentido de confundir que apontar possíveis referências. Assim como os Novos Baianos fazem com “Preta, Pretinha”, Heitor Dantas soa lúdico e, ao mesmo tempo, compulsivo em “Delilírio”. Prova disso é que ele insere três takes da canção em um disco de 10 faixas.

Ouça: “Delilírio”

9. Macaco Sem Pelo

Meno Del Picchia

Gravadora: Independente
Gênero: Rock/Alternativo
Texto: Matéria na Revista Brasileiros

Só o fato de termos um artista evolucionista num aglomerado sem fim de músicas de conotação religiosa (incluindo até Roberto Carlos) já faz da obra de Meno Del Picchia algo, no mínimo, interessante. Atualizando a teoria de Darwin em tempos em que o homem se acha ‘superior, porque leva a vida no teclado do computador’ (como canta na faixa-título), Meno conclui que a evolução tecnológica não muda em nada nossa similaridade com os primatas. Afinal, carecemos de afeto, transamos, cagamos e reproduzimos, assim como os macacos. A inspiração para o disco veio do projeto de mestrado em Antropologia do cantor, que já tocou baixo com nomes de Bocato a Cérebro Eletrônico. Um dos pontos interessantes de Macaco Sem Pelo é que Pecchia não se atém a listar o que nós, humanos, gostamos de mencionar como conquistas para nos afastar de nossa animalidade. Porque, apesar de nossa capacidade de raciocínio, também somos movidos pelos nossos instintos. E esse instinto está presente em toda forma de comportamento, seja no manuseamento de um smartphone ou no ato de beber uma ‘Seleta na varanda’.

Ouça: “Não Tem Regra” (part. Tatá Aeroplano)

8. Odradek

Porto

Gravadora: Independente
Gênero: Rock Progressivo
Texto: Projeto instrumental que vai do jazz ao progressivo

Quando Richard Ribeiro esboçou as primeiras ideias para o Porto, conversou com músicos como M. Takara e Rob Mazurek. Em Odradek eles não dão as caras, mas deixam seus rastros de influência na acidez estética de faixas como “E a Morte Perderá o Seu Domínio” e “Mesmo que os Amantes Se Percam, Continuará o Amor”. No entanto, o grande parceiro musical de Ribeiro em Odradek é o guitarrista Régis Damasceno, que subverte gêneros como pop-rock (“Capetinja”), surf music (“As Estrelas Não São Para os Homens”) e uma espécie de progressivo interestelar (“A Quarta Hora”) num disco instrumental que não tem medo de uma hora ser Pink Floyd e, no minuto seguinte, catar uma doideira ou outra do Amon Düül. Deve ser porque, no processo de Odradek, houve mais que percepções musicais. “Fui muito influenciado por livros que eu estava lendo, principalmente escritores de ficção-científica como Stanislaw Lem, Philip K. Dick e Theodore Sturgeon”, disse Ribeiro em entrevista ao Matéria.

Ouça: “Mesmo que os Amantes Se Percam, Continuará o Amor”

7. Embalar

Ná Ozzetti

Gravadora: Circus/Ná Records
Gênero: MPB
Texto: Resenha do blog Notas Musicais

Citada como a ‘maior cantora do Brasil’ pelo jornalista Eugênio Bucci, Ná Ozzetti chamou novamente os parceiros Alice Ruiz e Luiz Tatit, além do irmão violonista Dante Ozzetti, para o refinado sucessor de Meu Quintal (2011). A pérola vocal de Ná é um mero detalhe: aos desavisados, ela é como se fosse uma mãe musical de Tulipa Ruiz. Conterrâneos como Juçara Marçal e Kiko Dinucci contribuem (em “Musa da Música” e “Lizete”), servindo como um diálogo de gerações próximas e consideravelmente consagradas. Aos quase 55 anos, Ná exibe uma versatilidade vocal que vai do lamento (“Minha Voz”) a uma dinâmica quase repente (“Embalar”). Habituada a cantar sobre pianos, em Embalar violões e guitarras dão novos desafios que ficam fáceis de serem transpostos pela musicalidade da cantora. Talvez Eugênio esteja certo…

Ouça: “Lizete”

6. Beija Flors Velho e Sujo

São Paulo Underground

Gravadora: Cuneiform
Gênero: Acid-jazz
Texto: Crítica Na Mira do Groove

Vi um dos melhores shows da Virada Cultural deste ano em uma manhã de domingo. Pharoah Sanders saudava uma audiência que penava para assimilar a barulheira que vinha de três doidos que complementavam a banda do experiente jazzista. Esses três eram ninguém menos que o São Paulo Underground, impulsionados pelo trabalho que em breve sairia do forno. Se em Três Cabeças Loucuras (2011), o SP Underground já havia assimilado a interferência da musicalidade brasileira numa sonoridade híbrida e difusa, em Beija Flors Velho e Sujo temas de carnavais, bossa-jazz e soul setentista integram o condimento musical de forma ainda mais potencializada. O esquizofrênico ainda permeia insanidades como “ArNus NusAr” e “Six-Handed Casio”, muito por conta da exuberante desordenação estética dos instrumentos de Rob Mazurek, M. Takara e Guilherme Granado. Essa desordenação, bom dizer, forma um caos esplêndido. Um caos absolutamente controlável por eles, principalmente quando querem impressionar pelo misto de barulheiras e solos invejáveis dentro de uma sonoridade que já se tornou característica da banda. Quando terminei de ver o show, lembro de pensar: será que o novo disco do SP Underground vai superar expectativas? A posição dele nesta lista responde tudo.

Ouça: “The Love I Feel For You is More Real Than Ever”

5. Fantástico Mundo Popular

Sombra

Gravadora: Independente
Gênero: Rap
Texto: Crítica Na Mira do Groove

O melhor disco de rap de 2013 é efetivo em combater o mau-humor e os vícios do gênero. Primeiramente, você não segura o riso após a audição de uma “Piada Cabeluda” ou “Melô do Doidão”. Segundo: Sombra foi muito bem-sucedido ao misturar sonoridades regionais (repente) e globais (afro-beat) num disco que faz valer a alcunha de popular. E, terceiro, tem a produção de Marcelo Cabral que, além de dar o típico tratamento de mestre nos arranjos de cordas, interliga diferentes gêneros sem que o disco soe bagunçado ou fora de contexto. Da chapação de “Mano Eu Vou Ali Comprar Um Chá” (com participações de Rael e Jorge DuPeixe) à dura realidade proletária do nordestino em cidade grande de “Chuva de Gente Estranha” (com RAPadura), Sombra mostra todas as facetas do popular, sem intenção alguma de soar sofisticado ou iconoclasta.

Ouça: “Noticiário Estéreo”

4. Passo Elétrico

Passo Torto

Gravadora: YB Music
Gênero: MPB
Texto: Crítica Na Mira do Groove

Deu a louca nos integrantes do Passo Torto. Assim como fez o Metá Metá no ano passado, eles deixaram a eletricidade das guitarras protagonizarem canções ainda mais abstratamente urbanas que o debut de 2011. Boa parte da culpa pode ser atribuída ao guitarrista Kiko Dinucci, também do Metá Metá. Só que há as parcelas dos demais integrantes também: as pré-concepções das músicas vêm das ideias de Romulo Fróes, enquanto Rodrigo Campos contribui com composições que flertam com solidão (“Homem Só”), divagações sobre o amor (“A Não Ser Que Me Ame”) e paqueras (“Isaurinha”). Já Dinucci é mais concretista e até safado em seus impulsos musicais, como atestam as suas composições “O Buraco” e “Símbolo Sexual”. Apesar dessa busca pela nova sonoridade, o Passo Torto revela uma instigante inquietude em novas formas de contextualizar o urbano num cenário que só tende a se agigantar cada vez mais.

Ouça: “Isaurinha”

3. Bad Trip Simulator #3

Satanique Samba Trio

Gravadora: Independente
Gênero: Experimental
Texto: Resenha do blog Matéria

A ‘estética do satanismo tropical’ segue mais afiada do que nunca. Para fechar a trilogia iniciada em 2010, os brasilienses do Satanique Samba Trio usaram conceitos dodecafônicos na tradição nordestina. Em “Badtriptronics #3”, o choro é adornado pelo ruído de forma que poderia incomodar qualquer tradicionalista. De fato, Bad Trip Simulator #3 já teria seu papel cumprido se quisesse apenas incomodar. No entanto, se é para apontar o dedo em riste contra a desordenação, não há reflexo maior do que é o brasileiro hoje que a proposta de Bad Trip Simulator #3. Muitos dizem se apegar à belíssima tradição, mas no fundo só pensam em zorra e na bagunça festiva. Por mais que as faixas tratem o caótico e o bagunçado em proporções extremadas, o grande feito do Satanique Samba Trio é musicar o intangível comportamento de uma sociedade que não conhece a si mesmo e nem tem o mínimo interesse de ir atrás para conhecer. Bagunçamos ao nosso modo e gostamos disso. O Satanique pode ser considerado iconoclasta em sua proposta musical, mas o conceito de Bad Trip Simulator #3 muito tem a ver com o dilema de ter demasiada diversidade e não saber o que fazer com ela.

Ouça: “Sodoma & Gonzaga”

2. Erosion

Wallace Costa

Gravadora: Independente
Gênero: Experimental
Texto: Matéria no Floga-se

Download via BandCamp

A cena lo-fi brasileira vive um momento quase compulsório. Os programas de computador e as novas possibilidades tecnológicas deram um novo suporte artístico para quem procura novos rumos musicais. Wallace Costa faz parte dessa trupe: além de solo, produz com os projetos Um Camezind e Transparente Intenso. Erosion é nada menos que o sétimo trabalho do compositor carioca, que flutua entre o torto e psicodélico transfigurando cenas brasileiras como se fossem influências efêmeras. Assim como Tratak e Heitor Dantas, poderíamos colocar o compositor de “Memória” e “Real Emotions” no segmento de ‘MPB torta’, mas nem mesmo a vastidão desse gênero passa perto da produção doideira de Wallace. Ele desacelera o shoegaze ao mesmo tempo em que acompanha o raciocínio artístico de um Lailson ou Lula Côrtes. Em Erosion, os arroubos estéticos são colocados como fragmentos, levando o ouvinte a improváveis direções em pouco mais de 25 minutos.

Ouça: “Elogio”

1. Santo

Bemônio

Gravadora: Independente
Gênero: Doom-jazz/Dark ambient
Texto: Mais soberbo e tremeluzente

Download via BandCamp

Pensando em um disco que subverte qualquer tradição autoimposta pela música brasileira, unindo ousadia, criatividade e elaborada proposta estética em 2013, nada me vem à cabeça a não ser este álbum do Bemônio. SANTO põe o dedo na ferida naquilo que é mais sacro na arte tupiniquim: o excesso de religiosidade.

Calma, não vá pensar que existe algum culto demoníaco ou mensagens hereges contra Jesus e os 12 apóstolos. Canto gregoriano, estouros sonoros e pancadas intermitentes, por si só, simulam algum ataque à beatificação. Se colocarmos em xeque alguns vícios estéticos que contaminam nossa música, a antissacralidade do Bemônio é um arroubo mais que bem-vindo. Assim, a proposta extremada de faixas como “Edwiges” e “Vicente” funcionam como chacoalhões adequados àquilo que não deve ser entendido como sagrado e irrefutável: o conceito artístico.

Referências de Diamanda Galás e Nurse With Wounded são assimiláveis em petardos como “Agostinho” e “Veridiana”, mas o verdadeiro enigma de SANTO nada tem a ver com passado musical. Paulo Caetano revelou em entrevista ao Floga-se que a execução do disco foi complexa, principalmente pelo montante de participações, mas o que expande o trabalho de um conceito que alguns chamariam de doom-jazz é a ousadia de reinterpretar passagens bíblicas. Nada em SANTO é autoimposto. Por mais que seja agressivo, faixas como “Veridiana” resguardam espaços musicais que deixam o ouvinte no seu devido eixo.

Diante de tantos impasses musicais confrontados a cada ano, a única assertiva sobre SANTO é: você está diante de um dos maiores discos brasileiros de música extrema. De todos os tempos.

Ouça: “Anastácia”

E aí, o que acharam da lista? Faça a sua também nos comentários!

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E a lista ficou assim:

1. Bemônio: Santo
2. Wallace Costa: Erosion
3. Satanique Samba Trio: Bad Trip Simulator #3
4. Passo Torto: Passo Elétrico
5. Sombra: Fantástico Mundo Popular
6. São Paulo Underground: Beija Flors Velho e Sujo
7. Ná Ozzetti: Embalar
8. Porto: Odradek
9. Meno Del Picchia: Macaco Sem Pelo
10. Heitor Dantas: Unhas de Novembro
11. Chinese Cookie Poets & Nicolau Lafetá: Danza Cava
12. Emicida: O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui
13. Cangaço: Rastros
14. EXPLT: Zozanterdam
15. Gustavo Jobim: Manifesto
16. Fábrica: Grão
17. Edi Rock: Contra Nós Ninguém Será
18. Herod: Umbra
19. Digital Ameríndio & (American Bigfoot) Mouse Mouse Joe: Intensos Animais Imperceptíveis
20. Ceticências: Issamu Minami
21. FireFriend: Witch Tales
22. Circuitaria Apoteótica: O Ciclo das Manias
23. Cacá Machado: Eslavosamba
24. Lingering Last Drops: no
25. Café Preto: Café Preto
26. Peter Gossweiler & Diego Dias: MUSIKATENTA
27. Babi Jaques e Os Sicilianos: Coisa Nostra
28. Hamilton de Holanda: Trio
29. Babe, Terror: College Clash
30. Tiago Frúgoli: Um Mundo Flutuante

Menções Honrosas
Andreia Dias: Pelos Trópicos
Catarina: Mulher Cromaqui
CESRV: One Thousand Sleepless Nights
Combo X: A Ponte
Coyote Indigo: Horning
Garotas Suecas: Feras Míticas
Hurtmold: Mils Criança
Lupe de Lupe: Distância (EP)
Ruspo: Esses Patifes
Tom Zé: Tribunal do Feicebuqui (EP)

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