Repleto de swing, Onde Mora o Segredo foi lançado no final de 2010

Aricia Mess – Onde Mora o Segredo

A espera pode ter sido longa para quem já acompanha a carreira da carioca de Niterói Aricia Mess. Já se vão dez anos desde o lançamento de Cabeça Coração, reflexo de um trabalho independente e produzido ao lado de Pedro Luís e sua eterna parceira Suely Mesquita, que coassina 4 das 11 faixas do novo álbum da cantora.

Lançado no final do ano passado, Onde Mora o Segredo destaca os ritmos de música afrobrasileira, resultando em um som dançante, repleto de energia, vibrante. A banda, formada por Bruno Silveira (bateria), João Paulo Deo Gracias (baixo) e Maurício Caruso (guitarra), recria um ambiente de soul music e afrobeat com muitos riffs elétricos e pontuações funk nos contrabaixos, que dão vigor às letras pegajosas de Aricia.

De todos os temas que podem levar ao balanço, Aricia proporciona ótimos momentos quando externa seus desejos pessoais, como em “Black Is Beautiful”, momento em que clama por um parceiro “de cor, um deus negro” para mesclar ao seu “sangue europeu” – reflexo de nossa característica miscigenação. A canção, escrita pelos irmãos Marcos e Paulo Sergio Valle, é uma balada que não causou muito impacto na voz de Elis Regina nos anos 70, mas que ganha um peso emocional bem adequado à voz forte de Aricia.

As habilidades vocais da cantora também ficam evidentes em “Gosto Mais”, um típico voz e violão de composição própria. Mas é quando entra o swing que tudo fica mais interessante: a faixa-título, adaptada de uma música de Suely chamada “A Força de Angola”, é praticamente uma ode aos quilombolas, com um leve toque candomblé.

“Porta Aberta” é puro funk graças à levada do baixo de Aurélio Dias, que fazia parte da banda de Aricia há mais de 20 anos atrás. Caruso faz uma amarra à lá ‘Starchild’ Shider, só que de forma mais amena, em sincronia com a voz da cantora.

Negra que só ela, Aricia não podia deixar de enaltecer a herança da mãe-África. Em “Preto Velho”, vemos o candomblé aterrissar mais firmemente para vibrar com o positivismo da letra do compositor baiano Marcos Cabeção: “Ei preto velho, leva as energias más para longe daqui”, pede.

Apesar da veia descompromissada, Onde Mora o Segredo faz renascer uma das principais características da nossa música popular brasileira: a onipresença de ritmos africanos, a miscigenação musical entre candomblé, samba e funk (bem enfatizado na canção “Interesse”). Uma junção cada vez mais rara quando se fala em pop brasileiro.

Abaixo, ouça o álbum Onde Mora o Segredo na íntegra: