Menescal disse que não vê João Gilberto desde 1962

Aos 74 anos, Roberto Menescal desde muito tempo atrás esteve associado à bossa nova e à música popular brasileira. Carioca, esteve presente quando João Gilberto criou a batida no violão que serviria como base para criar letras descompromissadas e quase minimalistas, que caracterizaram o gênero.

No segundo semestre deste ano, conversei com o músico a respeito do legado de João Gilberto. Ele confirmou alguns mitos e trouxe à tona muitas histórias daquele que é considerado o pai da bossa nova. “O João era um cara muito duro, não tinha dinheiro pra nada”, relembra Menescal, em conversa por telefone. Repleto de um humor nostálgico, ainda acrescenta: “Todos trabalhavam em horários normais de trabalho, das 8h às 19h. João acordava tarde e ia dormir, tipo, às 4h. O pessoal ficava louco, porque ele ia tocar violão. Com uma cama da lado da outra, todo mundo querendo dormir, ele atrapalhava todo mundo”.

Confira abaixo a entrevista na íntegra com Roberto Menescal.

Como foi se deparar com um artista tão diferente como João Gilberto no início da Bossa Nova?
O João veio para definir uma coisa que já estávamos procurando. Naquela época, eu tinha uma batida assim com o samba, mas a gente não sabia tocar samba. Cada um tinha uma coisa diferente. Mas quando o João apareceu, parecia ser a definição do que a gente procurava. Ele era uma pessoa ainda desconhecida do público, e ele acabou batendo na minha casa. Nos conhecemos e saímos, e fui mostrando ele pra todo mundo. A batida dele praticamente oficializou a bossa nova.

João era um cara fechado mesmo?
Aliás, até hoje. Ele sempre foi um cara que teve uma vida um pouco diferente da nossa. A gente era muito festivo, todos queriam ouvir a nossa música. E o João ia apenas em alguns lugares. Ele sempre perguntava: ‘peraí, mas quem vai estar lá? Vocês vão lá e me telefonam pra saber se está legal’. Ia sempre se poupando. Ficamos muito próximos entre os anos de 1957 e 1962, quando fomos pra Nova York. Falava com o João todo dia, ele me telefonava, e ficava três horas no telefone – e não é modo de falar não. E ele falava assim: ‘você tá ouvindo? Então repete o que eu disse’. Durante esse tempo, ficamos muito próximos, ele me ensinou muita coisa. Depois do concerto do Carnegie Hall (em 1962) – que foi uma maravilha porque colocou nossa música no mundo, mas por outro lado, acabou com a turminha da bossa nova, porque um ficou em Los Angeles, outro em Nova York, outro foi pro México, e assim por diante – acabamos nos afastando. Eu não vejo João Gilberto desde 1962. Você vê como é estranho: João ficou muito tempo em Nova York, e todo mundo chamou ele pra gravar, mas ele só gravou o primeiro disco internacional no México. Ele dizia que o som de lá era melhor (risos!). Mas não pode ser melhor no México, do que em Nova York. Ele saiu pelo mundo, eu fui pra outros lugares, e ele se tranca, né? Ninguém vê João. Ele morou 15 anos num apart hotel no Leblon, e várias pessoas que estavam lá nunca viram o João. Nem os porteiros o viram por 15 anos. Pra ver como é difícil, né?

Uma vez ele pegou um violão do Tito Madi, e ele precisava fazer um show. Mesmo assim, o João foi pegar o violão com ele. O João falou: ‘pô, sacanagem, tenho que tocar também’. E o Tito falou: ‘pô, mas o violão é meu’. E o João foi e quebrou o violão na cabeça do Tito (risos!)

Roberto, como você resumiria essa convivência?
Foi muito interessante pra gente, porque aprendemos muito com ele. Não só a batida de violão; ele tinha uma economia nos acordes, que eram muito objetivos. Ele colocava um acorde que não podia ser outro. Impressionante como ele tem essa facilidade de definir a coisa na música. Por outro lado, conversávamos muito sobre a vida. E ele me passou vários livros interessantes – como eu era bem mais jovem que ele. Ele dizia: ‘pra tocar bem violão, tem que ler um livro também’. ‘De música?’ ‘Não, tem que ler outras coisas’. E me passou muita coisa interessante, de uma musicalidade incrível. Como estávamos criando um ritmo, os ensinamentos do João foram muito importantes para esse nosso crescimento.

Muitas canções que ele gravou não eram dele. Mas ele cantava de um jeito, que parecia que a canção era dele.
Tudo que ele cantava, inclusive canções de Dorival Caymmi e de compositores de samba mais antigos, tudo ficava com uma característica muito de João Gilberto. Quando ele canta Caymmi, não fica Caymmi, fica João Gilberto. A própria canção “O Barquinho” foi gravada em uma época em que muitos músicos estavam regravando, e a gravação dele é sensacional: muito simples e direta. Ficou “O Barquinho” de João Gilberto. Por isso, ele não tem muita necessidade de ser compositor. Ele faz a sua própria composição dentro da música dos outros.

São verdadeiras as histórias de que ele pegava violão dos outros e só devolvia dias depois?
O João era um cara muito duro, não tinha dinheiro pra nada (risos!). Quando conheci o João, ele morava pertinho de mim, há menos de um quarteirão. E eu fui lá e era um apartamento de uma senhora que tinha três quartos. E ela alugava um dos quartos para 6 pessoas. E o João era uma delas. Era uma cama do lado da outra. Acontece que todos trabalhavam em horários normais de trabalho, das 8h às 19h. João acordava tarde e ia dormir, tipo, às 4h. O pessoal ficava louco, porque ele ia tocar violão. Com uma cama da lado da outra, todo mundo querendo dormir, ele atrapalhava todo mundo. E falava: ‘pô,não posso tocar!’. E era duro. Ele dividia quartos, e quantas vezes fui levar roupa dele pra lavar! Ele pedia pra lavar, e eu pagava, claro. Ele almoçava muito lá em casa. Acho que ele nem tinha violão na época, vivia com violão emprestado. Quantas vezes ele pegou meu violão! Uma vez ele pegou um violão do Tito Madi, e ele precisava fazer um show. Mesmo assim, o João foi pegar o violão com ele. O João falou: ‘pô, sacanagem, tenho que tocar também’. E o Tito falou: ‘pô, mas o violão é meu’. E o João foi e quebrou o violão na cabeça do Tito (risos!).

Por mais que ele fosse quem fosse, era carismático, não é?
Que os outros gostavam de fazer as coisas pro João, disso eu não tenho dúvidas. Ele tem um carisma! Eu fui um deles. Quando ele foi tirar a foto da primeira capa do primeiro disco dele, ele me pediu emprestada uma camisa, porque não tinha. Ele entrou na minha casa e apanhou todas as minhas camisas. Ele é uma figura, mas que conseguia fazer o que queria. Se eu fizesse isso, iam me dar porrada! (risos!) Mas o João conseguia fazer esse tipo de coisa, e ficava por isso mesmo. Ele não sai de casa. Roupa, é o mínimo. Ele compra um terno e fica anos com ele. Então, o dinheiro rende. Ele não vive fazendo shows pra ganhar dinheiro. Ele faz quando está duro. O João sempre foi um cara diferente e continua sendo.

João Gilberto: “O Barquinho”