Patti Smith (ao centro) posa para uma edição da Rolling Stone americana, em 1996 (foto de Annie Leibovitz)

Já conceituada no cenário underground de Nova York por recitar poesias marcadas pela influência de Arthur Rimbaud e William Burroughs, para Patti Smith tornou-se desnecessária a preocupação em arrumar um estúdio para gravar Horses, em novembro de 1975. O achado foi o Electric Ladyland, antigo reduto do falecido Jimi Hendrix.

O grupo era composto por Patti Smith (vocais e guitarra), Lenny Kaye (guitarra, baixo e vocal), Ivan Kral (baixo, guitarra e vocal), Richard Sohl (teclado) e Jay Dee Daugherty (bateria). Rimbaud e Burroughs são os fios condutores para a formação intelectual de Patti, que gira em torno de sua desconcertada vida pessoal; dos imaginários diálogos com os ídolos Bob Dylan, Brian Jones, Keith Richards ao cânone da contracultura Jim Morrison. Sem falar da referência beatnik que estava florescendo novamente naqueles tempos de rebeldia jovem.

Em Horses, o termo bíblico ‘palavra’ ganha força poética para transmitir uma idiossincrasia peculiar, criando releituras ousadas sobre religião, idolatria, particularidades e desejos sociais.

Patti Smith foi expulsa de colégio interno cristão após engravidar aos 19 anos. Teve que doar a criança forçosamente

A primeira faixa, “Gloria”, é subdividida em três momentos distintos: • O primeiro introduz com obscuridade uma inclinação ateísta sobre os estereótipos doutrinários da Igreja – “Jesus died for somebody’s sins but not mine” (Jesus morreu pelos pecados dos outros, mas não o meu) e depois assume uma pegada rockabilly para comprovar uma aversão à hegemonia moral. • O segundo momento trabalha uma linguagem cinematográfic,a criando asas para um imaginário (quiçá) espiritual, valorizando sua liberdade dogmática.

• E, no terceiro momento, há uma entrega total a essa espiritualidade, desvinculada de qualquer pensamento religioso ou moral específico.

Patti Smith: “Gloria”

Essa forma de pensar é reflexo de uma experiência que Patti teve com o Cristianismo. Lúcida conhecedora das características excludentes da religião na adolescência, ela começou a ver o outro lado da coisa ao ser expulsa de um colégio interno depois de engravidar aos dezenove anos. A falta de condições de garantir uma vida saudável à criança levou a cantora a entregá-la involuntariamente a uma instituição de caridade.

“Free Money” identifica com o ponto de vista do cidadão médio preocupado em pagar as contas diárias, relatando um famigerado sonho de ganhar na loteria livre de qualquer culpa – e fazer dessa fortuna vinda do além um verdadeiro suprimento de todas as necessidades, sugerindo um desfrute dos arquétipos prazerosos que raramente fazem parte do cotidiano social. E que só o dinheiro pode proporcionar.

Já as faixas “Break It Up”, “Kimberly” e “Elegy” são reverências de forte carga poética para algumas personalidades que transfiguraram o ideal emblemático de Patti Smith: Morrison, Hendrix (talvez pelo agradecimento à gravação do álbum) e sua irmã mais nova Kimberly, com seus ‘olhos brilhantes de criança’ que serviam de refúgio a uma realidade decadente. Sua irmã significava a mais pura transmissão de positivismo apenas por sua existência, além de simbolizae o mais puro dos lirismos de Horses.

“Land” remonta ao comprometimento da vida de Rimbaud com sua obra, narrando a história de um rapaz chamado Johnny que está a procura de descansar sua consciência em um lugar de infinitas possibilidades, onde a moral vigente não limite seus devaneios. Na verdade, ele está à beira da morte e imagina como seria o outro caminho a seguir.

Patti Smith: “Land”

Por mais que a ‘palavra’ seja marca registrada de Horses, Patti Smith também criou um legado de admiradores graças à sua performance nos palcos. “Apresentação física numa performance é mais importante do que o que você está dizendo. Qualidade dá bom resultado, é claro, mas se a sua qualidade intelectual é alta, seu amor pela plateia é evidente, e você tem uma forte presença física, pode fazer qualquer coisa impunemente”, pontuou Patti, que viu o futuro do rock após conferir a presença de palco de um Mick Jagger desvencilhado de suas condições físicas.

Um trabalho estupendo que deve fazer parte de qualquer Top 100 dos álbuns mais clássicos e emblemáticos que ajudaram a escrever a história do rock. Na lista dos maiores álbuns pop da revista americana Rolling Stone, Horses ocupa a 44ª posição.

Texto originalmente publicado em O Atemporal.