A primavera é uma estação que nos surpreende com suas aleatoriedades: uma semana o calor é de matar; na outra, o tempo fecha e tudo fica acinzentado, você não sabe se sai de guarda-chuva, de óculos escuros ou de casaco (ou com os três). “Quando vi o jornal hoje de manhã, tava escrito que ia chover”, disse Tulipa Ruiz após a entrada calorosa com o single “É”. “Chover é o caralho!”.
Sim, o tempo estava bom ontem em São Paulo na Praça Victor Civita, Pinheiros, por volta das 16h30. E manteve-se assim durante toda a apresentação de Tulipa, que tinha chegado há pouco tempo de uma turnê internacional de Tudo Tanto que passou por Turquia e Japão. “É tão bom ver o pessoal cantando junto, estava com saudades disso”.
A antropologia mostra que a distância de suas raízes culturais é importante para que elas sejam reforçadas. E foi isso que deu pra perceber no show de Tulipa. Após seguir uma linha que parecia ser a de tocar o disco na íntegra (devido a sequência “É” e “Ok”), ela passeou por faixas de seu primeiro disco, Efêmera, tocando a singela “Pedrinho” e a balada “Só Sei Dançar Com Você”, dando contornos pop para o seu show.
Quando falei sobre a distância, foi justamente para argumentar o quanto isso influenciou em sua forma de conduzir o show. Além de sua usual simpatia e do diálogo constante com o público (mais eufórico do que se esperava, por sinal), Tulipa Ruiz provou que ser uma cantora pop a frente de uma plateia hipster-cult.
Todos cantaram as canções de Tudo Tanto como se ele tivesse mais maturidade do que realmente tem: “Expectativa” gerou passinhos comedidos entre os mais desvairados; “Script” revelou uma juventude sentimental (pós-Existe Amor em SP?); e, em “Like This”, o espírito rock’n roll foi às alturas, apesar de perceber um e outro estranhando – coisa de quem prefere as singelezas da cantora, que foi deixada de lado neste novo álbum.
Aliás, “Like This” era uma das canções mais esperadas por este que vos escreve. Queria ver como ela entoaria aqueles urros durante a canção. Poderia ser fake, poderia arrebentar sua voz… Mas que nada: ela gritou ainda mais e isso não afetou em nada suas cordas vocais. Aqueles ‘eeeeeeessss’ pareciam naturais à sua voz – e sobrenaturais para quem viu e sentiu a potência daquilo.
Em “Dois Cafés”, Lulu Santos fez falta, mas os arranjos do irmão Gustavo Ruiz e do pai Luiz Chagas, ambos guitarristas, foram louváveis. Com bela orquestração, Tulipa tocou duas versões de “Desinibida”: a original e, na sequência, uma versão japonesa, preparada especialmente para a turnê. Bonito.
O grande momento da tarde foi reservado para “Víbora”. Tulipa saiu do palco e voltou com outro semblante, meio exasperada. Foi uma apresentação teatral, que ficou ainda mais dramática com a entrada de Criolo. O cantor de Nó na Orelha entrou rastejando como um réptil no palco e, se minha visão não falha, uma lágrima caiu ali. Sua presença era mais imagética, já que a canção não tem versos do próprio Criolo. Sua interpretação ficou ainda mais impactante justamente porque ele não cantou. Empolgante pra cacete! Tanto que ele se sentiu obrigado a puxá-la para receber aplausos festivos.
Desde o início do show, uma parte eufórica praticamente implorou para que Tulipa cantasse “Sushi”. Sem perder a elegância de palco, ela respondeu tocando no bis a alegre “Brocal Dourado”, a bonita “A Ordem das Árvores”, além de entrar na pista para cantar novamente “É”.
Tulipa não cantou “Efêmera”, tampouco “Sushi” – e nem precisava. Isso prova que a cantora não carece de pilares ou pontos de fuga para se encaixar no cenário musical. Tulipa é pop, literalmente por excelência.
