
Em novo álbum, PJ usa a Primeira Guerra Mundial como metáfora paralela à realidade
PJ Harvey – Let England Shake




Quem ouve pela primeira vez PJ Harvey e compara Let England Shake com Rid of Me, seminal trabalho do início da década de 90, vai achar que ela surtou de vez, decidiu suavizar seu som e apelar para o pop. Ao olhar toda a obra da cantora, há uma sensação de que ela sempre tentou preencher um vazio do trabalho anterior com cada álbum lançado, formando uma peça incompleta de quebra-cabeças que se diluía aos poucos.
Mas aí ela resolveu focar num assunto e destrinchá-lo emocionalmente. Let England Shake é, essencialmente, um trabalho conceitual sobre a Primeira Guerra Mundial no contexto da Inglaterra. O tema, por si só, já é diferente. E é atual.
Quando PJ Harvey canta “dead is everywhere” (“a morte está em todo lugar”), provavelmente não se refere somente ao evento histórico que marcou o mundo no início do século XX. Este trecho de “All and Everyone”, bucólica canção norteada por um riff meio sinistro e um trombone que garante a densidade sonora, convenhamos… tem tudo a ver com nossa realidade perturbadora, que disseminou o caos e o trouxe para o nosso cotidiano.
PJ Harvey: “All and Everyone”
“Embora eu cante especificamente sob o ponto de vista de uma mulher inglesa sobre a Inglaterra, espero transportar esses sentimentos para algo mais universal”, disse PJ em entrevista ao Pitchfork.
Experimentalismos sonoros, principalmente com sintetizadores e efeitos vocais (caso de “England”), não podiam estar de fora. O que não quer dizer que a cantora não busque referências mais clássicas, como The Zombies. No fundo, é uma inglesa falando sobre problemas da Inglaterra e trazendo sonoridades de sua terra natal (Inglaterra). Como diabos isso pode ser interessante em um contexto musical global?
Pode anotar: a linguagem é o verdadeiro diferencial. O caminho da instrumentação ajuda bastante também. “The Last Living Rose” é temperada com uma pitada de jazz e uma sonoridade típica indie. O contexto da Primeira Guerra ainda está lá, sintetizando o verdadeiro objetivo do álbum: usar esse evento catastrófico como metáfora para chamar a atenção para a realidade. Engana-se quem pensa que é um ponto de vista sobre a guerra; é a referência obscura de algo que está presente. E que pode piorar.
“The Words That Maketh Murder”, talvez a melhor canção do álbum, é bem pé-no-chão-soco-na-cara por ter uma ligação direta com a situação dos soldados na guerra. A linguagem é em primeira pessoa: PJ se passa por uma narradora trágica que sobreviveu da catástrofe e relata sobre corpos despedaçados de combatentes em árvores, lamentando ao titubear em “these-these-these…. words that make you murder”. E tenta desabafar assumindo um tom que parece irônico e, ao mesmo tempo, desesperado: “e se eu levasse meu problema para as Nações Unidas?”.
Do jeito que as coisas andam, provavelmente essas palavras seriam engavetadas pela ONU. Para você ver: PJ Harvey é tão intensa em Let England Shake, que consegue convencer o ouvinte de que realmente sofreu as consequências psicológicas da guerra. E ela pode estar certa. Afinal, estamos ou não diante de uma calamidade?
PJ Harvey: “The Words That Maketh Murder”
Melhores faixas: “The Last Living Rose”, “The Words That Maketh Murder”, “Bitter Branches” e “Written On The Forehead”.
