Gravadora: Acácio Records
Data de Lançamento: 19 de maio de 2014
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Alerta importante: o folk aparentemente tranquilo de Wallace Costa possui misterioso poder de viciar. Letras de dois minutos e simples de cantarolar estão envoltas em melodias sofisticadas, num modus operandi mais complexo do que se imagina. É ouvir Wooden uma vez e o modo ‘repeat’ se perpetua.
Habitante comum da pequena cidade de Cruzeiro, interior de São Paulo, Wallace ressignifica o simples de maneira deliciosamente tranquila.
Com apenas 24 anos, desde 2009 é dono de um catálogo extenso o suficiente para denotar evolução a cada disco disponibilizado.
(Só em 2014, este já é o sétimo trabalho, incluindo projetos com “seus codinomes Transparente Intenso, Nonwords, Um Camenzind e Frozen Institute”, como alertou o Floga-se.)
Se é ao folk que pertence a arte de Wallace, ela já surge bem justaposta na primeira faixa, “Acima”. Notas preguiçosas de violão e uma pequena entrada de gaita que lembram o Bob Dylan fase The Freewhelin’ deixam a intenção clara: ‘Acima de tudo/Eu escolho ser tranquilo’.
É um verso que engana por sua acepção inocente, porque Wallace já mostrou em diversos trabalhos anteriores sua afeição à psicodelia, bem clarividente no trecho ‘Um delírio bom/Um delírio bom/Acidez’, da curta “Transborda”.
Musicalmente, Wooden é mais bem resolvido que seus trabalhos anteriores. Mais redondo, mais fechado em um conceito. Se antes o fator clausura estava iminente em seu formato de compor e no contexto das letras, Wooden é espécie de libertação, o passeio no parque para desanuviar.
Quando diz em “Aquela Noite” que ‘Só restou a poesia/Que eu guardo no bolso’ por estar em um lugar incômodo, temos a imagem do compositor vagando com expressão lúgubre em locais reservados.
Esse flerte com o ‘lá fora’ é salutar no disco, porque garante segurança ao método todo particular de Wallace. Não que isso dê mais alegria ao álbum, algo praticamente mesclado à característica melancólica do compositor.
Num momento em que cantar sobre as pequenezas tem criado uma porção de artistas menos interessantes do que aparentam (aka Cícero, Nana), Wallace aprendeu que o timing é litigioso na produção lo-fi, desde sempre.
Resumindo, ele não toma muito do seu tempo e nem entra em delongas para transmitir o que deseja. Nos cravados dois minutos de “Imaginação”, fala de um ‘mundo que não vai girar’ e brinca com shoegaze numa síncope João Gilberto, concluindo de forma bela.
As canções em inglês se assemelham brevemente aos trabalhos de Father John Misty com sensibilidade mais aguçada, breve flerte com John Fehey.
Tais proximidades só poderiam ser extraídos de um ‘coração torto’ (faixa que, inclusive, brinca com samba), que quer ser desenhado de forma torta para ser jogado ao alto, como clama em “Pulmão”.
O pedido da canção, ‘sem querer me consertar’, contém falsa simplicidade. Mais que retrato isolacionista, é a assertividade de um compositor que faz do pouco, muito. Com exuberância de sobra.
