
Ultimamente, a música brasileira tem se firmado como um abrigo seguro para novas cantoras que buscam trazer singularidade em suas composições, mesclando ritmos tropicais de modo que soe agradável aos ouvintes. Inúmeros exemplos podem ser citados e, navegando nessa mesma corrente, a paulistana de carteirinha (apesar de iniciar a carreira em Londrina) Lia Cordoni vem se destacando em suas calmas apresentações pelos bares de São Paulo.
A alma do som de Lia é o samba fundido com gêneros distintos como jazz, bossa nova, chorinho e até mesmo uma fatia neotropicalista. Resgatando a aura boêmia da música carioca dos anos 50 e 60, a moça traz temas modernos e outros que não envelhecem nunca com uma admirável habilidade vocal.
Como há muito já fazia nossos menestréis da MPB, as temáticas são variadíssimas e retratam desde o jardim fértil que faz nascer uma flor (“A Flor”) até a exclusão social que insiste fincar raízes em nosso país, como nos mostra a bela “Samba da Exclusão”.
Recentemente, a cantora lançou de forma independente o álbum Samba-Fusão, reunindo canções que foram gravadas há mais de três anos. O álbum foi gravado entre 2008 e 2009, sendo que boa parte das canções foram compostas em 2007. Os arranjos ficaram por conta do baixista Xinho Rodrigues e do pianista Leandro Neri, que tocam em quase todas as faixas.
Todas as composições foram escritas pelo marido Jairo Cechin e se destacam pelo descompromisso com o conceito sugerido no título do trabalho. As canções ganham peso com a bela voz de Lia Cordoni, que arranca aplausos com as interpretações de:
• “Sete Ervas”, com um teclado retrô alinhado ao contrabaixo que realçam a incursão de Lia ao citar elementos religiosos da cultura negra.
• “Nego Vivido”, um belo funk que parece evidenciar a vontade da cantora em trazer a essência de ritmos negros em prol de sua música. A canção ovaciona a importância dessa riqueza cultural na construção do conceito de brasilidade, citando a crônica de um negro experiente.
• “Descarrego”, a mais dançante de Samba-Fusão é acelerada pelo baixo de Airton Fernandes e encerra o disco com um convite praticamente irrecusável de cair no samba, ótimo para quem procura o pique de se agitar antes de sair com os amigos.
A união de uma grande habilidade vocal (fruto de grande dedicação e estudos com Maria Alvim, a mesma profissional que aperfeiçoou as cordas vocais de Maria Rita e Paula Lima) com as ecléticas referências de Cechin resultam em um debut que tem potencial de agradar os aficionados por novas cantoras. O caminho para o amadurecimento ainda deve ser percorrido, obviamente, mas a originalidade já está posta.
O próximo desafio é se reinventar e grudar no ouvido das pessoas, seja nos bares paulistanos, em apresentações teatrais ou uma possível aparição nas telinhas.
Errata: o baixista Airton Fernandes participou como baixista nas canções ”Seu Jogo” e “Oração ao Mar” – e não em “Descarrego”, como estava citado anteriormente.
Você pode ouvir o álbum Samba-Fusão na íntegra aqui.
