Gravadora: Sub Pop
Data de Lançamento: 14 de abril de 2014

Esqueça que o The Afghan Whigs foi uma das mais importantes bandas de rock dos anos 1990. Esqueça que discos como Congregation (1992) e 1965 (1998) abrilhantaram o catálogo da banda que despistou o gênero grunge para abraçar soul, R&B, lisergia e catarse nas interessantes composições de Greg Dulli.

Porque, por mais que o passado seja glorioso, ele pode ser pernicioso quando se trata de interpretar o presente.

Analisar a produção da banda de Cincinnatti entre 1988 e 1998 é o caminho errado para entender Do to the Beast. O tempero efervescente permanece, mas a cozinha, assim como os tempos, são outros. Parte do motivo talvez seja creditado ao fato de apenas Dulli e o baixista John Curley serem reminiscentes da formação clássica do grupo.

Como um disco de rock, Do to the Beast não deve em nada ao que a banda ofereceu nos idos anos 1990. “Parked Outside”, “Metamoros” e “It Kills” formam uma sequência punch-pop-balada de invejar qualquer banda de meia-idade que tenta sobreviver ao mercado musical. (O Pearl Jam tenta até hoje chegar a isso, coisa que os Wings entregaram com relativa facilidade após uma década e meia de hiato.)

As perdas em relação aos discos anteriores são sentidas, obviamente. Não há o punk urgente da estreia Big Top Halloween (1988) – em seu lugar, uma sofisticação pop que dá a impressão de que os Whigs envelheceram bem fora dos palcos. Foram-se os tempos de doideira de “Miles iz Ded” – mas veio um tempo de novas sortes e destinos, cantados em “The Lottery”. O R&B explosivo, que poderia ter sido a chave de ouro da banda em 1965, faz falta – todavia, vale apostar no ar novidadeiro entregues em “Royal Cream” ou “Lost in the Woods”.

A essência do disco tem mais a ver com a possibilidade de ter público que qualquer outra coisa. A banda teve que se renovar e, se por um lado deixou-se transmutar pelos vícios da música pop, por outro fez dessa vulnerabilidade um appeal para que a nova geração chegasse à sua obra, de inegável relevância.

Esteticamente, Do to the Beast não acrescenta em nada aos momentos de glória de álbuns como Gentleman (1993) ou o próprio 1965. Por outro, melhora a essência do stadium-rock tão assimilável ao rock produzido após os anos 2000. Alguns diriam que as parcerias de Dulli com Josh Homme e Mark Lanegan nesse ínterim possam ter influenciado, mas uma trajetória tão singular como a do Afghan Whigs revela que, se a idade chegou, é hora de rejuvenescer.

Ora, um jovem ouvinte terá mais proximidade com a proposta de “Algiers” ou “I Am Fire” do que qualquer faixa de Up On It (1990), mesmo que este seja um dos melhores trabalhos que a banda tenha feito. O gás sentido no disco é tão inspirador, que dá vontade de procurar mais.

E, pelo menos no nosso ponto de vista, nada pode ser tão revelador sobre uma banda como um disco. Do to the Beast cumpre bem o papel de ser esse cartão de visitas rejuvenescedor. Esquecendo as glórias do passado, dá pra se curtir um disco de rock de qualidade, de boas composições e melhor do que muita coisa que atualmente é vendida como novidade.