01 Moonjock 02 Today’s Supernatural 03 Rosie Oh 04 Applesauce 05 Wide Eyed 06 Father Time 07 New Town Burnout 08 Monkey Riches 09 Mercury Man 10 Pulleys

11 Amanita

Gravadora: Domino

Por conta das constantes aparições em propagandas no ano de 1966, em seu terceiro disco o The Who entregou uma transmissão de rádio pirata que fazia citações a marcas como Heinz e Jaguar.

Desse ‘broadcast’ saiu pérolas como “Tattoo” e “I Can See For Miles”.

Era uma forma de responder ao público e à crítica que mesmo essa ideia de que The Who se vendeu (tradução do disco The Who Sell Out, de 1967) era um mote criativo para a banda.

Digamos que a História seja uma onda de rádio de linhas perpendiculares e pulemos para o século XXI, tempos de Animal Collective. Ao longo dos anos 2000, o que pareceria ser uma banda fadada ao circuito alternativo quebrou barreiras e chacoalhou o cenário indie com a chegada de Merriweather Post Pavilion (2009) que, com suas sublevações sampleadas, de forma estranha adentrou no sistema nervoso de muita gente por aí.

Com o grande número de vendas, muitos chegaram a se perguntar se o Animal Collective seria o pico maior de criatividade no confuso meio indie.

Bom, chegou 2012 e o Animal Collective, de uma forma que lembra o Who, ressurge inspirado pelo rádio.

Ao contrário da banda inglesa, o AC faz proveito mais da estética de ondas sonoras do que uso das propagandas. Afinal, hoje em dia o rádio já não tem a onipresença das décadas de 60 e 70 e é justamente desse fato que a banda se aproveita para trafegar mais uma vez em suas improbabilidades sonoras. (De fato, o ‘broadcast’ está mais para um ato saudosista de quem gosta de divulgar música do que fonte principal para se conhecer o novo. Novos tempos, novos costumes.)

No entanto, é importante frisar o fator ‘rádio’ em Centipede Hz para se fazer novos questionamentos: seria uma tentativa de ‘abraçar tudo isso’, como canta Panda Bear na ostensiva selva que paira em “Rosie Oh”? Abraçar o quê: o público? Ou uma pilha maior de influências?

Sim, se colocarmos em uma linha evolutiva, dá para dizer que o Animal Collective foi se tornando mais acessível com o passar dos anos. Não que a banda tivesse que se reciclar; mas a maturidade desvendou uma forma natural de se fazer ser ‘ouvido’. Afinal, da trilha fantasmagórica de “Someday I’ll Grow To Be as Tall as the Giant” (do primeiro disco, Spirit They’re Gone, Spirit They’ve Vanished) ao eletrônico psych-african-style de “Wide Eyed”, muita coisa mudou – inclusive o acréscimo da frase ‘necessitamos mudar para melhor’.

O que o Animal Collective faz em Centipede Hz é entregar ao ouvinte a trilha sonora dos sonhos – dos integrantes da banda, bom dizer. A necessidade disso é fácil explicar: afinal, quem não recorre aos Mixclouds da vida para criar uma playlist temática que, entre outros propósitos, serve para externar nossa ‘multiplicidade de influências musicais’?

Perceba que em Centipede Hz, talvez o disco mais híbrido da banda, pode haver uma centena de coisas numa música só: por exemplo, “Monkey Riches” tem um interlúdio que lembra Rustie, percussões da Magic Band de Captain Beefheart, pouco de Chemical Brothers, vocais vigorosos de Avey Tare inspirados em um Axl Rose desprovido de habilidades…

“Today’s Supernatural” revolve ao tribalismo de ODDSAC, mas a repetição fácil de ser capturada nos vocais de Avey (‘le-le-le-le-le-le-le-le-GO!’) podem garantir à banda, dia desses, uma turnê exaustiva pelo mundo. É fácil de conquistar o coro. Ao mesmo tempo, a canção distorce o tempo do funk e frita o cérebro com sintetizadores de notas retilíneas que a transformam numa dinamite que só vai estourar com a entrada de “Rosie Oh”.

Provavelmente, Centipede Hz vai dar ao Animal Collective entrada mais fácil em circuitos antes impenetráveis pela banda. Não por conta do ‘rádio deles’, que neste caso é apenas um figurativo que garante a linearidade das 11 faixas.

A impressão é que, aos poucos, o público vai entendendo (e aceitando) aos poucos a necessidade de se deparar com a estranheza da banda.

Melhores Faixas: “Today’s Supernatural”, “Wide Eyed”, “Monkey Riches”, “Amanita”.