
O jornal inglês The Independent publicou em sua revista semanal na última semana um singelo lembrete dos álbuns ao vivo mais importantes já lançados na história da música. O gancho foi o relançamento de Live at Leeds, do The Who, que completou 40 anos há pouco tempo carregando o status de um dos maiores registros ao vivo já feitos.
Segundo a Rolling Stone, o status de melhor álbum dessa categoria vai para o Live at Apollo (1963), de James Brown (justa colocação por sinal!). Entretanto, um dia após a morte do intelectual e ativista político Martin Luther King, no dia 4 de abril de 1968, o soulman tinha um show agendado para Boston e trouxe consigo a responsabilidade de acalmar os ânimos e oferecer uma alternativa positivista ao caos político instaurado após o assassinato. E aí começa a história do Concert at Boston Garden, uma das apresentações mais importantes em toda a história da música.
Os Estados Unidos passavam pelo difícil paradigma de sustentar a Guerra Fria com os soviéticos e já começavam a choramingar a derrota no Vietnã, enquanto muitos cidadãos americanos agarravam-se aos ideais pacifistas para justificar o erro cometido pelo governo de seu país.
A segregação racial comia solto com a disparidade cada vez mais evidente entre brancos e negros. Martin surgiu como a esperança de que era possível lutar sem pegar em armas, conquistar o direito de ser igual aos outros através da batalha pela igualdade.
Por outro lado, o orgulho negro no continente americano crescia, ainda que de forma abstrata, com a inserção cada vez maior de músicos negros no hype musical. James Brown era um deles. Seu jeitão único de unir groove, dança, energia, animação, política e conscientização, tudo em prol de sua música, havia conquistado tudo e todos. Era praticamente impossível frequentar um salão nos anos 1960 e não ouvir “Papa’s Got a Brand New Bag” ou a lindíssima balada “Try Me”. Isso só para citar alguns exemplos.
O jornalista James Sullivan documentou a importância desse concerto em Boston no livro O Dia em que James Brown Salvou a Pátria. Para que a revolta generalizada não emergisse, James Brown percebeu que não podia cancelar essa apresentação, mesmo após uma tragédia histórica como aquela. Líder como era, decidiu dedicar-se e mostrar o melhor de si para que todos lembrassem de Luther King remexendo os pés. Ele não queria que aquele momento fosse esquecido, longe disso. O propósito era homenageá-lo à sua maneira, com uma apresentação visceral que causasse uma impressão positiva aos espectadores.
No prefácio do livro, o frontman do Public Enemy, Chuck D, fez uma assinalação importante: “Imediatamente após o assassinato de Martin Luther King, James Brown se tornou o negro mais importante dos Estados Unidos. Os negros estavam em busca de muitas respostas em seguida ao festival de confusões de 1968. (…) Para mim, o show de James Brown representou e ainda representa o incrível poder da música e da força de vontade para cessar tudo em nome da alegria de se divertir. (…) De fato, ainda nos curvamos diante dessa extraordinária apresentação, cujo significado aumenta a cada década”.
Confira abaixo, na íntegra, o histórico Concert at Boston Garden (set list logo abaixo):
Setlist do show:
• “Get It Together” • “There Was a Time” • “I Got That Feeling” • “It’s a Man’s Man’s Man’s World” • “Lost Someone” • “Bewildered” • “When a Man Loves a Woman” • “Tell Mama” • “Check Yourself” • “Chain of Fools” • “I Heard it Through the Grapevine” • “James Brown & Mayor Kevin White Speak” • “That’s Life” • “Kansas City” • “Soul Man (Bobby Byrd)” • “I Got That Feeling” • “Try Me” • “Cold Sweat” • It May Be the Last Time • I Got You • Feel Good • Please Please Me
• Can’t Stand It
