01 Green Light 02 Juicy Fruit 03 Hips 04 Your Love’s Too Good (To Spread Around) 05 Would You Like To (Fool Around) 06 Hip Dip Skippedabeat 07 Ready For Your Love

08 The After 6 Mix (Juicy Fruit Part II)

Gravadora: Epic
Data de Lançamento: 1983

Foi graças ao rap que vim parar neste clássico do disco-funk. Além de Notorious B.I.G. fazer uso da faixa-título nas batidas de “Juicy”, os Racionais MCs pegaram emprestado o delicioso groove de “Hip Dip Skippedabeat” na divertida “Qual Mentira Vou Acreditar”, de Sobrevivendo No Inferno.

Se nos anos 1970 o soul deu origem ao funk nas pistas, a década seguinte foi marcada por incursões mais esquizofrênicas que consolidaram a disco music e abriram as portas para que Prince remodelasse o gênero em um conceito tão pop quanto excêntrico.

Esse é apenas o cenário para vislumbrar como o Mtume se encaixa nesse meandro musical.

Soando como um Earth, Wind & Fire remodelado aos novos momentos musicais daquele tempo, o grupo liderado por James Mtume percebeu a possibilidade de controlar melhor o tempo do funk.

As guitarras não precisam ser aceleradas repetidamente, e o baixo pode ter uma assimilação tão melódica quanto visceral dentro desse espectro dançante. Faixas como “Green Light” e “Would You Like to (Fool Around)” – que remonta a um clássico do Sly and Family Stone usando a frase ‘I want to take you higher’ – são um reflexo longínquo de um flerte, mesmo sem saber, do R&B com referências de ambient e sci-fi.

O funk tem muito a cobrar de Juicy Fruit, e quase o mesmo deve ser dito em relação à eletrônica. Os efeitos vocais de “Hips” podem ter sido analisados com amargura naquele tempo, mas é ótima referência para entender a apropriação musical que o Daft Punk fez recentemente com Random Access Memories.

As letras beiram a ingenuidade, mas isso é um mero detalhe em um disco mais centrado na estética musical e na cena a que pertenceu. Nem tão sérias assim para soar como a soundtrack de um encontro nerd/cult, tampouco farofa demais para animar forçadamente uma festa de casamento, Juicy Fruit sela um encontro entre o funk e a eletrônica de forma estranhamente deliciosa.

O quesito sensualidade, fortemente tomado pelo soul, é levado a patamares distintos neste registro: ele pode ser etéreo e fulgurante como sugere “The After 6 Mix” e a faixa-título ou ser ambientado num espectro sci-fi em “Your Love’s Too Good (To Spread Around)”.

A cozinha rítmica que forma Juicy Fruit é de se elogiar: o guitarrista Reggie Lucas complementa os efeitos de teclados de Hubert Eaves e o frontman James Mtume, que na maioria das vezes protagonizam a aura instrumental do álbum. Os arranjos de metais, que costumavam ser bem híbridos no gênero R&B, são reduzidos a notas econômicas no saxofone de Gary Bartz, jazzista improvisador que chegou a tocar na fase elétrica de Miles Davis.

Pertencente mais à década de 1980 que ao gênero disco-funk, Juicy Fruit pode ser realocado a pistas nostálgicas. Suas direções a outros terrenos musicais são imensas, indo da Blaxploitation ao mais barato dos filmes de ficção científica. Ele é tão dançante como qualquer outro registro disco-funk, mas as múltiplas vertentes aqui exploradas são ainda mais interessantes que sua ‘pegada musical’ – que ainda serve como boa desculpa para o primeiro play do quarto e mais bem-sucedido álbum do Mtume.

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A seguir ouça Juicy Fruit, do Mtume, na íntegra: