Gravadora: Transfusão Noise
Data de Lançamento: 1º de janeiro de 2014

O Hierofante Púrpura é uma banda chapada em proporções extremadas, mas prefere mostrar isso da forma mais reducionista possível.

Entre fitas cassete, um monte de pílulas, versões de bandas influentes e participação de amigos, A Sutil Arte de Esculhambar Música Alheia oferece mais que um título curioso. É a trilha da metanfetamina, a sonoridade da preguiça e do estorpor.

Dentre os covers de Yo La Tengo (“Tears In Your Eyes”), Mr. Airplane (“I Don’t Know Why”) e La Carne (“Granada”), a banda de Mogi das Cruzes ainda percorre Walter Franco e Arnaldo Baptista em doses exageradas de psicodelia. (A banda também gravou uma versão de “Cio da Terra”, de Pena Branca e Xavantinho.)

O que de cara fica evidente em A Sutil Arte… é o quanto se torna desnecessário o exercício de buscar antepassados sonoros para entender os Púrpuras. Não apenas porque você pode ficar com preguiça ao ouvir “Natureza Curada” ou “A Camisa Vermelha Sou Eu”, mas unicamente porque o estado quase de vegetação sonora causa um efeito esquisito no ouvinte.

Sair do ‘falso conforto’ pode ser uma proposta desvelada; o Hierofante pode não querer te tirar do sofá, mas desnivela qualquer noção de ‘conforto’ com o seu rural psicodélico, livre e descompromissado.

E já que falamos em descompromisso, termo tão fácil de ser utilizado com as novas tecnologias quebrando qualquer barreira perante o criador e ouvinte, o Hierofante Púrpura consegue sintetizar ainda melhor a proposta lo-fi no novo disco.

Talvez demore para que a importância da banda neste cenário seja reconhecida, mas, se o interesse geral surgir, verão que A Sutil Arte… é carregado de um modus operandi que ensaia uma possível definição do que ocorre na música independente brasileira pós-anos 2000.

Parece estar numa estrutura bagunçada, mas não é bem por aí.

Na sucessão de faixas do álbum, pouco importa se a banda adota formatos de canções ou de puras viajeiras. Uma análise estética prova que A Sutil Arte… é estruturado em tudo que tanto se propaga do lo-fi psicodélico: pílulas estimulantes e várias ideias malucas na cabeça.

Claro que, se tratando de ideias malucas, há de se observar a validade delas. A Sutil Arte… clama por dezenas de audições, principalmente pela forma coesa de preguiça que adorna o conceito. “Jazigo Meu ou Venha Ver o Sol Derreter”, uma das mais marcantes, é um exemplo de que a banda consegue extrapolar as rédeas, mas logo fica pra trás diante dos tortuosos exercícios de lentidão na versão de “Cio da Terra” e “A Camisa Vermelha Sou Eu”, um acústico de deixar qualquer junkie desnorteado.

Os Púrpuras falam que as ‘pessoas permitiram a tão esperada aproximação’, numa alusão que muito tem a ver com aceitação pública de sua música. Isso soa um contraponto. Porque A Sutil Arte… não busca acessibilidade, mas permite que o ouvinte use seus dotes imagéticos para transcrever as ideias musicalmente sobrepostas.

Talvez você também tenha que tomar pílulas para degustá-lo…

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Ouça A Sutil Arte de Esculhambar Música Alheia, do Hierofante Púrpura, na íntegra: