01 2013 02 River of Pain 03 Culturecide 04 Hit Void 05 Tenement Kid 06 Invisible City 07 Goodbye Johnny 08 Sideman 09 Elimination Blues 10 Turn Each Other Inside Out 11 Relativity 12 Walking With the Beast

13 It’s Alright, It’s OK

Gravadora: Ignition Records/1st International

Dizia o pai de Mozart que a melhor definição de seu filho estava entre o ‘meio-termo justo’: apesar de geniais, suas composições não refletiam sentimentos extremados. Nisso, ele foi mestre – tanto que estava no meio entre o Barroco e o Romantismo.

No caso do Primal Scream, o ‘meio-termo justo’ pode ser utilizado como paralelo em um disco como Vanishing Point (1997). Este último é um disco importante, mas foi em busca dos extremos que a banda escocesa encontrou melhor o seu caminho – seja na perdição soul-psicodélica do majestoso Screamadelica (1991), ou na incursão focada na eletrônica no não menos ótimo XTRMNTR (2000).

Sendo assim, podemos entender o anterior Beautiful Future (2008) como uma transição para uma sonoridade mais pop. Ali, a banda havia encontrado o ‘meio-termo justo’ para chegar a um suposto ‘extremado pop’. Pois é assim que podemos entender More Light, disco que já carregava a auréola de poderoso com as primeiras divulgações de “2013” e “It’s Alright It’s OK”.

Para chegar até aqui, mais de 25 anos depois de sua estreia, o Primal Scream agregou, multifacetou e distorceu bastante até se aproximar ao pop. E isso não é uma notícia ruim: em More Light, gêneros como psicodelia (“Goodbye Johnny”), folk-rock (“River of Pain”), shoegaze (“Hit Void”) e até uma pitada de gospel (“It’s Alright It’s OK”) estão formulados num tratamento que não estranha quem já conhece os percalços da banda.

O exemplo híbrido perfeito está na faixa de abertura. “2013”, em seus nove minutos de duração, tem guitarras shoegaze (cortesia de Kevin Shields), uma deliciosa sessão de metais e trejeitos de pop que a fortalecem. Acredite, por mais que a música seja longa, você ainda vai querer mais!

A linearidade estética do disco já é logo corrompida em “River of Pain”, uma espécie de respiro para a explosão digital que vem em “Culturecide”. Numa linha vocal corroída, o Primal Scream explora guitarras-scratches, aproximando-se do que o Rage Against the Machine fez de melhor nos anos 1990. Pra ouvir alto!

“Invisible City” é outro appeal pop; os riffs dignos de uma canção indie se encaixam em efeitos esparsos de sintetizadores. Ela é bagunçada (e os vocais de Bobby Gillespie a bagunçam ainda mais). Ainda que siga por vias tortuosas, não demora muito para o ouvinte cair na redenção de repetir: ‘I love this city/Such a beautiful city’.

A longa duração das faixas e, consequentemente, do álbum More Light pode soar como empecilho na teoria. Mas esses longos minutos são indispensáveis para as reviravoltas das canções, e para o Primal Scream viajar com a longa bagagem estética que carrega de forma livre. Não que você vá se deparar com uma jam em determinados momentos: é que as transições de “2013” precisam dessa longevidade – assim como a mudança do tribal para o barulhento na ótima “Relativity”, que já não tem nada de pop.

Assim como os clássicos Screamadelica e XTRMNTR, extremados em seus conceitos, More Light é a direção mais focada no pop, por mais que as canções explorem gêneros diferentes – cuja única ligação é o modus-operandi Primal Scream de fazer música.

Para chegar até aqui, o ‘meio-termo justo’ de Beautiful Future foi o grande ponto nevrálgico. Quiçá, temos agora mais um álbum clássico do Primal Scream.

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(PS: tem uma versão deluxe do disco, com mais seis faixas inéditas e duas bônus. Vão atrás! O disco fica mais longo, mas não menos excepcional.)

Melhores Faixas: “2013, “Culturecide”, “Hit Void”, “Relativity”, “It’s Alright It’s OK”.