
01 Uncontrollable Urge 02 (I Can’t Get No) Satisfaction 03 Praying Hands 04 Space Junk 05 Mongoloid 06 Jocko Homo 07 Too Much Paranoias 08 Gut Feeling / Slap Your Mammy 09 Come Back Jonee 10 Sloppy (I Saw My Baby Gettin’)
11 Shrivel-Up
Gravadora: Warner Bros
Data de Lançamento: 28 de agosto de 1978
Os integrantes do Devo não estavam errados quando disseram que os humanos estão devoluindo – ou seja, regredindo.
No final dos anos 1970 as teorias conspiratórias, de uma forma ou de outra, acabavam envolvendo o avanço da tecnologia. Para o Devo, estávamos nos tornando imbecis – um generalizado das castas inferiores que o escritor Aldous Huxley preconizou em Admirável Mundo Novo.
Todos nós ‘somos Devo’, diz a banda em “Jocko Hommo”, extraído do manifesto de B. H. Shadduck, dos anos 1920, que diz: “o pecado no Jardim do Éden foi o esforço de um macaco em se tornar humano. Deus fez o homem, mas usou o macaco para apanhar a sujeira”. O pecado é um álibi. “Eis a loucura de tudo”, grifa o manifesto, sob a imagem de um anjo apontando para a direita e um macaco segurando um homem que deseja avançar à esquerda.
E eis que do grifo surge a banda para colocar sentido nisso. Ou totalmente danificá-lo, como faz muito bem no álbum de estreia Q: Are We Not Men? A: We Are Devo!.
Uma banda torta e amalucada como o Devo assinar com uma major como a Warner Bros não era comum (como ainda não é hoje). Acontece que, além dos integrantes do Devo, haviam outros adeptos à teoria de Shadduck. Um deles era Chuck Statler, que ganhou a premiação no Ann Arbor Film Festival em 1976 pelo curta-metragem The Truth About De-Evolution. A trilha havia sido composta pelo Devo, que logo receberia convite de Neil Young para a trilha de Human Highway (1982).
Só que o grande salto ainda estava por vir. Foi pelo conselho da esposa que o guitarrista Michael Aylward, do Tin Huey (também de Ohio), mostrou o EP Be Stiff, gravado pelo Devo naquele 1978, aos amigos David Bowie e Iggy Pop.
O Camaleão mostrou interesse em produzir a banda na hora, com aval do guitarrista Robert Fripp. Sem tempo de seguir com o projeto por conta das filmagens de Apenas Um Gigolô (dirigido por David Hemmings), Bowie deixou o destino nas mãos de Fripp, que o encaminhou a Brian Eno (contextualizando: nessa época Fripp e Eno estavam por trás dos excelentes discos de David Bowie, hoje conhecidos como a ‘Trilogia de Berlim’: Low, Heroes e Lodger).
A pegada do Devo tinha tudo a ver com os experimentos de Eno: a transição punk/new-wave envolto a um conceito tão degenerado quanto criativo.
O Devo não queria teorizar Shadduck; queria ser a banda que já assimilara suas ideias de putrefação humana
As gravações tiveram início antes do contrato com a Warner, portanto, a banda teve que cruzar o Atlântico contanto com empréstimo do produtor.
Mas as coisas não desenrolaram como desejado. Dentro da proposta tresloucada da banda, Eno queria inserir mais teclados e sintetizadores, como posteriormente desenvolveria com o Talking Heads. A grande pegada do Devo, pelo menos naquele momento, era juntar um vigor de batalha com depravação sonora.
Quem ouve Q: Are We Not Men… provavelmente não associaria de cara a um pano de fundo tão pessimista quanto a teoria de Shadduck. Isso porque a banda não queria teorizar; queria ser a banda que já assimilara as ideias de putrefação humana.
Por isso, aqui “Mongoloid” soa como um hino ainda mais potente do que a banda mostraria anos depois em seus shows acachapantes. Por isso “Jocko Hommo” obteria o acompanhamento de séquitos dum sectarismo do ridículo (e os synths aqui souberam sonorizar o ridículo muito bem). Por isso este disco se tornaria uma das melhores pilhérias de toda a década.
“Jocko Hommo” é uma canção de alienados, feito por uma banda que aparenta ser alienada e que consegue deixar qualquer ouvinte alienado logo na primeira audição. É uma das grandes músicas dos anos 1970 e clássico irredutível do Devo.
“Uncontrollable Urge” mostra de cara a irracionalidade vontade de gritar, aloprar, ‘perder o controle‘. Em seguida entra o cover de “(I Can’t Get No) Satisfaction”, que muitos encaram como a grande contradição do disco. Ora bolas, dentro dessa teoria a grande graça é ser imprevisível – principalmente na execução, que a encara como uma música conformista. Se eu fosse integrante dos Rolling Stones, ficaria mais incomodado do que lisonjeado. Mas, musicalmente falando, ficou boa pra caramba.
Percebemos a influência sônica de Brian Eno em “Praying Hands”, que começa com loopings de sintetizadores. O Devo a coloca no seu terreno com típicos riffs crus e a música se desenvolve na convergência synths vs. guitarra, que provavelmente justificaria o termo new-wave.
Tudo bem que a new-wave entremeia-se ao som do Devo, mas outros dois elementos contribuíram para a iconoclastia da banda: as guitarras da no-wave com uma esquizofrenia vocal que prossegue o legado de Captain Beefheart – vide “Space Junk”, que poderia ser extraído de um Lick My Decals Off, Baby (1970).
Justificativas não faltariam para se somar à obrigatoriedade de ouvir Devo. Mas a mais convincente ainda é: Q: Are We Not Men… é recheado de clássicos!
De doideira em doideira, temos um álbum repleto de canções ótimas. Escolha a maluquice que melhor se encaixa ao seu lado doidivanas: seria “Too Much Paranoias”, com excepcionais linhas de guitarra de Bob Casale e Bob Mothersbaugh? A supostamente séria “Gut Feeling”, levada pelos teclados ágeis de Mark Mothersbaugh? “Shrivel-Up” e sua estrutura cósmica? Ou as já mencionadas acima?
Devoluir pode não ser a melhor das notícias. Mas, ao som do Devo, pelo menos é divertido, confortante e espiritualmente libertador.
