01 Tears of Rage 02 To Kingdom Come 03 In a Station 04 Caledonia Mission 05 The Weight 06 We Can Talk 07 Long Black Veil 08 Chest Fever 09 Lonesome Suzie 10 This Wheel’s on Fire

11 I Shall Be Released

Gravadora: Capitol
Data de Lançamento: 1º de julho de 1968

Os anos de faculdade foram os que o rock mais me absorveu. Foi a época de pirar com os clássicos. Who’s Next (1971), Led Zeppelin I (1969), Sticky Fingers (1971), Pet Sounds (1966), Blonde On Blonde (1966), The Piper At the Gates of Dawn (1967), Axis: Bold as Love (1967), Strange Brew (1967)…

Dessa lista infindável de discos de rock que milhares de editores velhos de música afirmam que temos que ouvir, Music From Big Pink foi um daqueles que deixei pra depois. Porque sabia que as letras e principalmente as melodias (menos guitarras; mais piano e órgão) seriam melhor assimiladas com o tempo.

Que bênção perceber isso!

Longe de estar na mesma prateleira de qualquer disco mencionado no primeiro parágrafo, o disco de estreia do The Band permaneceu isolado em sua sonoridade. Country, blues, soul, R&B e rockabilly, todos ali, foram parte de uma estrada contínua para esses canadenses. Normal para um grupo de músicos que nem sequer se importou com nome da banda. Conhecemos como The Band porque algumas pessoas que apareciam na Big Pink o nomearam assim pela surpreendente técnica de cada um dos integrantes. Eram A Banda mesmo, com iniciais maiúsculas.

Mas, calma, antes de qualquer confusão, voltemos ao início.

No final dos anos 1950, a cena roqueira começava a se desenvolver, e um de seus principais nomes era Ronnie Hawkins. Nascido no Arkansas, nos Estados Unidos (EUA), foi em Ontario (Canadá) que ele começou a formar uma banda para excursionar com seus covers de “40 Days” (Chuck Berry), “Bo Diddley” (Bo Diddley), “Bluebirds Over the Mountain” (Ersel Hickey) etc.

O grande trunfo das apresentações de Hawkins era a sua banda, The Hawk, que atingiu seu auge com a formação de Robbie Robertson (guitarra), Rick Danko (baixo), Richard Manuel (piano), Levon Helm (bateria) e Garth Hudson (órgão) – este último após muita insistência, pois sua pretensão inicial era ser um músico teórico.

Depois de lidar por um bom tempo com o temperamento ditatorial de Hawkins, o quinteto decidiu formar um próprio grupo, com Levon a frente.

No entanto, este novo grupo teria um novo líder.

À procura de músicos para a ‘turnê elétrica’ que sucedeu ao lançamento de Highway 61’ Revisited (1965), Bob Dylan foi apresentado a Robbie Robertson, que disse só aceitar o convite para tocar com ele se tivesse a banda toda reunida. “Bob Dylan nos conhecia, mas não sabíamos muito sobre ele”, disse o guitarrista à Rolling Stone EUA.

Depois do lançamento de Blonde On Blonde (1966), Bob Dylan sofreu um acidente de moto e ficou impedido de excursionar. Para dar suporte musical aos ensaios, os integrantes do então The Hawk alugaram uma casa próximo a Woodstock e o nomearam Big Pink, por conta de sua cor. Decidiram se desvencilhar do nome Hawk, afinal, não tinham mais associação alguma com Ronnie Hawkins. Mas o quinteto não optou por nenhum outro.

“Não achamos que nome significa alguma coisa. Essa coisa de nome sai das nossas mãos. Não queremos nos fixar numa maleta como essa”, explicou Robertson.

Portanto, ficou The Band mesmo. Que a música falasse por si mesma.

A ambição de uma sonoridade própria já era latente na cabeça daqueles cinco habilidosos músicos. A freada artística de Dylan, ainda que forçada, foi um tanto oportuna para o primeiro disco da banda: Music From Big Pink.

Se faltava imaginação no nome da banda e na obviedade do debut, havia um motivo: todo o foco estava direcionado na música.

E realmente não há palavras que descrevam a beleza de clássicos como “Tears of Rage” e “The Weight”, as duas mais conhecidas do grupo. Deve-se ressaltar a importância da sonoridade do órgão, estabelecendo uma nova dinâmica para a entrada da guitarra de Robertson.

Mais econômico nos acordes, a The Band encontrou um meio-termo perfeito entre o pop e o orquestrado – sem precisar de nenhum instrumento de sopro, ou um monte de músicos reunidos.

Em “To Kingdom Come”, temos a entrada triunfal de piano, guitarra, bateria e baixo, nessa ordem. O órgão fica ao fundo, dando suporte. A canção fala de poder, sem classificá-lo como bom ou ruim: ‘Agora olhe pela janela e me diga/O que você vê?/Eu vejo um bezerro de ouro apontando/De volta para mim’. Pode ser uma ameaça ou uma demonstração de autoridade.

Enumerar as grandes canções de Music From Big Pink é chover no molhado. Não há uma música ruim. “In a Station” é pra cantar junto à paquera (ou namorada ou noiva ou esposa). “Caledonia Mission” é uma anedota amorosa surpreendente que termina em Modock, Arkansas. Em “We Can Talk” vemos a ‘democracia The Band’ dar certo. Quase todos os integrantes participam com os vocais em um soul à lá Muscle Shoals com as linhas excepcionais de órgão e guitarra. A virada da canção é sutilmente genial.

Bob Dylan poderia estar fora dos palcos, mas colaborou no debut de sua impressionante banda. É coautor de “Tears of Rage”, além de entregar duas faixas que posteriormente seriam parte de The Basement Tapes (1975): a elétrica “This Wheel’s On Fire” e a baladaça “I Shall Be Released”, levada ao piano e ao baixo.

Outro cover entrou no tracklist do disco. É o caso da country “Long Black Veil”, de Danny Dill e Marijohn Wilkin. Ao contrário do dueto eternizado por Johnny Cash e Joni Mitchell, a The Band oferece modulação mais elétrica, com aquele tempero que a identifica como ‘culpada’ por ajudar Dylan a transgredir (ou seria elevar?) o folk naquela época.

Apesar das baixas vendas, Music From Big Pink foi reconhecido como um disco de gênio. O músico Al Kooper escreveu uma resenha na Rolling Stone, dizendo que a banda acertou ao apostar na honestidade, a grande força pop daquele momento. “O canto é tão honesto e não-afetado, não vejo como alguém pode achá-lo ofensivo”.

Em 2000, a Capitol relançou o disco em CD, com diversas faixas-bônus que merecem atenção. A grandiosa performance de “Yazoo Street Scandal”, composta por Robertson, é espécie de “Helter Skelter” versão soul. “Katie’s Been Gone” destoa um pouco da proposta do disco, tem mais a ver com os trabalhos do disco homônimo, de 1969. Há um cover country de “If I Lose” (Charlie Poole), uma versão toda particular de “Key to The Highway” (de Big Bill Broonzy, muito conhecida na versão dos Derek and the Dominos) e, claro, Dylan – representado em “Long Distance Operator”, com um baixo blueseiro soberbo refazendo a conhecida canção de The Basement Tapes.

O fator qualidade de Music From Big Pink é inatingível, a ponto de ser mais um trabalho invejado que realmente uma influência. Muito se discutiu sobre aquele velho debate clichê de ‘músicos brancos fazendo música de negro’.

No entanto, uma audição lhe dá a prova dos nove. A sinceridade é tão valiosa, que discussão alguma tira a certeza de que este é um grande, grande disco.

The Band – Music from Big Pink[Full Album HD] por destatiuomosenzafede