01 Do the Strand 02 Beauty Queen 03 Strictly Confidential 04 Editions of You 05 In Every Dream Home a Heartache 06 The Bogus Man 07 Grey Lagoons

08 For Your Pleasure

Gravadora: Island
Data de Lançamento: 23 de março de 1973

Que outro nome seria melhor que Roxy Music para personificar o glam-rock? Vestimenta mais adequada não haveria de ter: coletes justos, calças e botas coloridas, ternos chamativos, de aspectos luxuosos. Os cabelos eram de invejar os mods britânicos e a imagem de cada integrante era tão valiosa quanto a execução musical.

Era, sim, glam-rock até o osso, mas não no sentido vergonhoso que o termo se associaria com o passar dos anos. O glamour ia do bico fino dos sapatos (sob supervisão do fashionista Antony Price) à exuberância de cada integrante nos instrumentos.

O Roxy Music era tão suntuoso em sua música quanto em suas roupas. Era a extravagância como um todo e, como bem postulou o segundo álbum, For Your Pleasure (1973), uma banda que mostrou-se capaz de fazer jus ao termo ‘art-rock’.

Ok, e o que seria ‘art-rock’? Usando o disco The Velvet Underground & Nico (1967) como exemplo, seria o redirecionamento estético sob novas perspectivas musicais. (Lou Reed e John Cale estavam mais interessados no minimalismo e nos experimentos de Stockhausen que na psicodelia em voga, abrindo caminhos para uma geração inteira que chegaria ao punk, no-wave e avant-garde.)

O Roxy Music tem essa substância incrustada, com adornos estéticos intencionalmente soberbos. O crítico musical Lester Bangs classificou a banda como ‘triunfo do artifício’, justamente porque a banda representava algo ainda mais etéreo que o som em voga. Se junkies mentalizavam a viagem ao som de bandas de São Francisco, os bem-vestidos londrinos tinham no Roxy Music uma espécie de modo de vida perfeito a atingir: eram estilosos, artísticos e joviais.

E, se um termo tão ambíguo como perfeição pairou, vale dizer que o momento em que o Roxy Music mais esteve próximo de atingi-la foi no segundo disco, For Your Pleasure.

Muitos atribuem aura a este disco por ser o último a ter Brian Eno como membro. Hoje o renomado produtor teve um papel fundamental no desenvolvimento sonoro do Roxy Music, mas não estava sozinho. Tinha ao seu lado o roqueiro com voz de crooner Bryan Ferry, o saxofonista Andy Mackay, o guitarrista Phil Manzanera e o baterista/percussionista Paul Thompson.

A saída do baixista Graham Simpson, um dos membros-fundadores, forçou a banda a se desvencilhar ainda mais dos padrões que já haviam formatado o clássico jeito de tocar rock. (Graham se sentiu depressivo com a morte da mãe. Foi aconselhado por Ferry a sair e nunca mais voltou a tocar com o Roxy Music, o que era uma pena em vista de suas belas linhas de “Ladytron”, do álbum homônimo de estreia.)

O baixo em For Your Pleasure seria preenchido por John Porter, mas a banda jamais teria um fixo a partir daí. Assim, explorou mais instrumentos como Mellotron e piano, como denota a avassaladora primeira faixa, “Do the Strand”, até hoje uma das músicas mais potentes da banda.

“Editions of You”, bem lisérgica, trazia uma fricção dos pianos com as guitarras, como se pegasse o rock’n roll dos anos 1950 e o eletrizasse a todo vapor, dando abertura a um admirável solo no sax de Mackay. É uma das grandes faixas do disco e prenúncio do que Eno se afeiçoaria no disco solo Here Come the Warm Jets (1974).

Outra característica somada às qualidades do Roxy Music foi a capacidade de arquitetar jams inovadoras. Seria o fio conector à psicodelia? Não, a via era outra: o progressivo. Parte disso vinha da influência de Peter Sinfield, integrante do King Crimson que havia produzido o primeiro disco, e adquiriu novas proporções com a chegada de Chris Thomas.

Com um currículo que incluía trabalhos com Beatles (tocou em quatro faixas de The White Album), Procol Harum e Paris 1919 (1973), de John Cale, Thomas sabia como preencher os espaços musicais aproveitando as muitas qualidades sônicas do grupo.

“The Bogus Man” parecia ter sido criada num bosque, à noite, em meio a elucubrações de uma mente aventureira, colocando sintetizadores e guitarras em acompanhamento de algo que poderia ser silencioso. “Strictly Confidential” parece o adágio de uma ópera aos estilos Bel Canto; aqui, Ferry prova por que era considerado um dos grandes vocalistas britânicos.

“In Every Dream Home a Heartache” mostra Ferry diminuindo a altura de seu barítono. Envolto das técnicas de ‘atraso de fitas’ experimentadas por Eno, a faixa mais soturna do disco é dividida entre o ‘vazio da opulência’ e uma declaração a uma boneca de plástico. A faixa com menos peripécias técnicas, por mais que soe contraditório, é a mais estranha do álbum.

Glam-rock sempre foi associado à extravagância. Nessa brincadeira, o Roxy Music viu a possibilidade de unir artifícios técnicos estudados, experimentos e diferentes efeitos de guitarra em vestimentas impecáveis.

Nos Estados Unidos e em boa parte do mundo, o interesse pop estava na crueza horror show de Alice Cooper e Kiss. Diferentemente de David Bowie, que havia criado uma aura mística em torno de um personagem alienígena, ou de Marc Bolan, que havia encontrado o tempo musical certo para seus hits massacrantes com o T. Rex, o Roxy Music levou a sério o termo sofisticação, tornando-se influente apenas nos círculos britânicos. Não criaram nenhuma cartilha do subgênero, mas catalogou uma das obras mais musicalmente ricas no nicho.

Não importa se clichê ou previsível, For Your Pleasure realmente faz valer o título.