The Beach Boys, da esq. p/ dir.: Al Jordine, Carl Wilson, Dennis Wilson, Mike Love e Brian Wilson

(*Voltando à programação normal.)

– Quem vai escutar esta merda? – reclamava Mike nos estúdios da Capitol.

– Os ouvidos de um cachorro? – titubeou Brian. Tempos depois, ele soltaria esta:

– Ironicamente, a barba de Mike foi a inspiração para o nome do álbum.

Em outros arredores, rolava outra discussão:

– Como você vai conseguir gravar um álbum com apenas um single pronto? – questionava Johnston

– Relaxa, tudo está na minha mente – Dylan respondia tranquilamente.

Daí resultou-se o primeiro álbum duplo da história da música pop, gravado em duas sessões triplas na Columbia Records, em Nashville (EUA).

O dia fatídico foi há exatamente 45 anos atrás. Para o lançamento de ambos, não havia pressão ou necessidade extrema de atingir o imenso sucesso comercial. Porém, marcaram o simbólico intimismo de cada cabeça pensante que conduzia dois dos mais importantes registros da música pop.

Bob Dylan na turbulenta turnê de 1966

CALIFÓRNIA – Brian Wilson, por mais que simulasse descompromisso total com o lançamento de seu novo trabalho, tinha uma fissura perpétua em sua cabeça: superar a maestria do novo salto artístico dado pelos Beatles com o lançamento de Rubber Soul.

Pet Sounds foi uma espécie de resposta ao estouro de Rubber Soul, dos Beatles. E, por incrível que pareça, conseguiu superá-lo em genialidade

NASHVILLE – Bob Dylan, exausto de uma infindável turnê, via-se obrigado a apagar o rótulo que mais indesejado de sua carreira: ser um revolucionário. Para tanto, tinha que repensar uma nova trajetória possível. Highway 61 Revisited, seu trabalho anterior, tinha rompido com o purismo do folk que serviu de influência para sua música.

Depois de muita aversão do público à nova sonoridade que ele instaurou no ritmo musical, incluindo guitarras elétricas e temáticas mais reflexivas, ele influenciou uma nova geração com suas letras bem trabalhadas, atingindo ampla aceitação depois de muita resistência do público e da crítica. “Havia um monte de cantores melhores e de músicos melhores naqueles lugares, mas não havia ninguém parecido em gênero ao que eu estava fazendo”, relatou Dylan em seu livro de anotações pessoais Crônicas Vol.1.

Mas o objetivo não era bem esse. Ele queria transpor uma reflexão de sua música sob o prisma de sua capacidade autoral, não queria mudar o rumo das coisas. E foi então que, naquele 16 de maio, ele conseguiu mudar o curso de sua carreira. “Foi o mais perto que consegui chegar aos sons de minha mente… aquela finura, aquele som selvagem”, declarou o compositor doze anos depois do lançamento de Blonde On Blonde, o trabalho em questão.

CALIFÓRNIA – Seguindo os passos por si só, Brian Wilson arquitetou todo o trabalho ponderadamente. Deu ouvidos ao seu subconsciente e decidiu fazer uma obra que refletisse o som dos seus pensamentos. Quando Brian nomeou o trabalho de Pet Sounds quis que, de alguma forma, todos pudessem captar a mensagem. E se inspirou nos animais.

Não havia interesse algum de mudar os rumos de sua música. A banda de Brian, os Beach Boys, se destacou com suas letras inocentes e pueris, falando de praias, garotas e desejos adolescentes.

Então, Brian refletiu: como expor um amadurecimento sonoro sem perder a unicidade dos Beach Boys? Ora, mexendo com os sentidos. Pet Sounds é uma extensa visão sobre relacionamentos, pautada pela ingenuidade da juventude sessentista. “Woudn’t it be nice if we get married?” (“Não seria legal se a gente se casasse?”), da faixa introdutória do álbum, é um belo exemplo. Mas essa é uma análise superficial pois, prestando atenção nas densas sonoridades e no curso das letras, vê-se uma maturidade dos temas decorrentes.

NASHVILLE – Blonde On Blonde provou de uma vez por todas que Dylan não estava pra revolução. Conseguiu transformar toda aquela antiga veneração de seu gosto pela mudança para uma veneração às suas habilidades de compor canções autorais e interpretar de maneira singular as muitas facetas que a vida nos traz.

Bob Dylan queria abandonar a alcunha de ‘revolucionário’ e partir para algo mais intimista, que refletisse sua incrível habilidade de compor

Depois de trazer para a cultura citadina as referências estéticas e influentes da zona rural (o tal folk puritano que se via decadente no final da década de 50 por suas temáticas arcaicas e ultrapassadas), e moldar toda a cena incorporando as transformações que a cultura pop estava trazendo, Dylan trabalhou a fundo as possibilidades que pretendia munir suas canções e chamou o guitarrista Robbie Robertson e o organista Al Kooper (ele mesmo!) para a banda que o acompanhava.

Daí resultou-se na junção de influências sonoras do blues, country e rock’n roll. Toda a velocidade da composição de Bob antes do término do álbum foi retrato da frequente ligação do compositor com as anfetaminas. Isso reforça a hipótese da aproximação de Bob Dylan à subjetividade, deixando discursos vazios no ar e seguindo a sequência ilógica de um raciocínio deveras complexo. Não há respostas. Há possibilidades, caminhos. “Rainy Day Women #12 & 35″ trabalha uma dualidade distinta com a palavra ‘stoned’, em forma de marchinha: a necessidade de ficar chapado e o irrefutável destino de ser traído por uma mulher.

“Visions Of Johanna” é um leque de pensamentos fragmentados, como se ele invadisse a mente de uma mulher e navegasse em suas frugalidades mais íntimas e pueris. “Just Like A Woman” aprofunda nas características mais apreciativas das mulheres, mas também põe em xeque fragilidades inescapáveis: “She aches just like a woman / but she breaks just like a little girl” (“Ela se machuca como uma mulher / mas rompe tudo como se fosse uma garotinha). Além, é claro, da clássica “I Want You”, “4th Time Around” (uma das composições mais belas do cantor) e “Obviously 5 Believers”, com a influência do blues de Muddy Waters na guitarra de Robertson.

CALIFÓRNIA – Para compor Pet Sounds, Wilson partiu da premissa de que a expansão das possibilidades deveria ser crucial e tinha que se mostrar explícita. Sozinho no percalço de sua genialidade, ele trabalhou diversas tonalidades vocais em faixas como “God Only Knows” e “I Know There’s An Answer”. De latas de refrigerante, buzinas de bicicletas e guitarras combinadas com acordes orquestrais até latidos de cachorros, truques vocais, flautas e órgãos, Brian incluiu em sua incursão um ‘staff’ que preenche uma lista de mais de 30 músicos.

É então que se vê perfeições como “I’m Waiting For The Day”, “That’s Not Me” e “Don’t Talk (Put Your head On My Shoulder)”. Muitas indagações surgem quando novatos escutam este álbum, tal qual: “O que há de revolucionário aqui?” E o que se pode responder, é: a superação de uma legitimada fórmula que o rock estava se limitando. Não há virtuosismo técnico, nem canções de extrema profundidade, mas uma estética substancial e abstrata que expande os possíveis entendimentos das temáticas tratadas.

Pet Sounds é um álbum que explora os sentimentos de um relacionamento dando um desfecho um tanto pessimista, com “Caroline, No”, faixa que faz uma veneração às mudanças psicológicas e emocionais de um garoto diante da partida da mulher de sua vida. Nela, entram as imaginárias sonoridades que um animal ouviria com atenção, como os latidos do cachorro de Brian complementando a bela canção.

O impacto do lançamento de Pet Sounds para os músicos e críticos foi imenso, tamanha ousadia e ponderação. Pode ser considerado o primeiro álbum conceitual por sua linguagem que beira os sentidos metafísicos: certamente o álbum ingênuo mais maduro já feito.

O álbum também se destaca pelo intimismo discreto que deixa transbordar. Porém, a fórmula explorada pelos Beach Boys – que influenciou bandas indie e eruditas do porte de Radiohead, Burt Bacharach, Weezer e os próprios Beatles – não é mais tão eficaz nos dias de hoje. Todas as possíveis ramificações da subjetividade de Brian foram pegas no ar pela explosão da psicodelia, os amores incertos de grupos mórbidos e as inovações sonoras das bandas experimentais das décadas de 60 a 90. E olha que, naquela época, não havia tantas engenhosidades eletrônicas.

Ambos os álbuns são imprescindíveis para entender o que a cultura pop se tornou nos dias de hoje. Em qualquer lista, estes dois trabalhos estarão nos topos das venerações, tanto pela qualidade atingida quanto pela importância histórica. Blonde On Blonde e Pet Sounds, além de provarem a quebra de rupturas no cenário musical, comprovam a necessidade de celebrar uma data que marcou de vez a audição global: 16 de maio de 1966, o dia em que o rock’n roll ganhou dois de seus mais belos presentes. Dois clássicos obrigatórios em qualquer discografia.