Gravadora: Harvest
Data de Lançamento: 18 de novembro de 2014

Há conflito neste novo álbum do TV On the Radio. Conflito emocional, claro, versus a identidade Bad Brains indie modelada ao longo dos anos 2000. A morte do ex-integrante Gerard Smith de câncer de pulmão, em 2011, pesa na voz de Tunde Adebimpe e na produção de Dave Sitek nas duas faixas iniciais: “Quartz” e, mais explicitamente, em “Careful You”.

Nenhuma banda indie que passasse por um período difícil como esse se expressaria da mesma forma que o TVOTR. Isso mostra que o híbrido orgânico-eletrônico tão intrínseco à banda é parte de sua própria verdade. Nos celebrados Return to Cookie Mountain (2006) e Dear Science (2008), as programações eletrônicas e a tríade baixo/guitarra/bateria operavam de forma estrutural, gerando hits inimitáveis que se fortaleceram com o passar dos anos (“Wolf Like Me”, “Golden Age”).

No novo disco, Seeds, instrumentos e aparatos atuam em função orgânica do sentimento. Não apenas de dor, como não escondem as faixas iniciais; em “Could You”, o naipe de metais endossa a força afetiva da paixão. Esse caminho já havia sido trilhado no anterior Nine Types of Light (2011), mas em Seeds soa mais verossímil. Por trás de cada acorde, cada urro, cada ação computadorizada que compõe o combo TVOTR corre pulsares humanos. Pulsares que por vezes soam como eclosões, afinal, tantos elementos em choque implacavelmente entrariam em colapso. É aí que a banda se agiganta – como em “Happy Idiot”, que penetrará como parente distante de um Kid A (2000), simbolizando passos mais adiantes de OK Calculator (2002); ou nos ágeis riffs de “Lazerray”, que irá deixar o ouvinte fixado nos tempos de Return to Cookie Mountain.

Por mais que os anos passem e se tornem mais cruéis, o TVOTR produz disco como se isso não acontecesse. Todos os discos da banda parecem ter sido concebidos num período similar – menor que o hiato entre um e outro álbum. OK Calculator é o começo da brincadeira, que logo se torna séria em Young Liars (2003). Return to Cookie Mountain é reflexo de uma rebeldia que fase adulta alguma consegue apagar e Dear Science possui a verve exploratória advinda da inquietude lá do começo. Faça um giro e é possível vê-los concebidos da mesma forma, não importa o tempo que seja. Como se fossem galhos de um mesmo tronco, um ao lado do outro.

Seeds está bem próximo às direções musicais mais amenizadas de Nine Types, só que com mais lágrimas. Perto do fim, em “Trouble”, Adebimpe diz que ‘tudo ficará ok‘ num tortoacústico usual do arsenal sônico do TVOTR. Em seguida, problematiza: ‘E você continua dizendo a si mesmo‘.

A fricção musical que tanto favoreceu a sonoridade da banda se transporta com maior ênfase às emoções. O momento é triste, mas nada mudou. A semente continua a germinar, apenas apresenta novas ramificações.